O DRAMA DE MARCOS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Esportes        

Nei Duclós

Futebol é, além da relação entre linhas retas e curvas, o conflito entre a bola e a expectativa dos jogadores. O segundo antes da falta, a paradinha do pênalti, os empurrões na área no momento do escanteio, o desespero nos minutos finais, a euforia no início, a espera da substituição, o corpo caído depois do choque. Quando não há conflito, essa briga entre a percepção (permanente, mas que não influi no resultado) e o fato (descartável, mas decisivo), não temos futebol. Temos comentaristas. Na tarde do domingo, dia 9/11/2008, os narradores juravam que não havia jogo entre Palmeiras e Grêmio, porque a partida estava muito disputada. Não consegui atinar com esse raciocínio.

É exatamente o contrário: porque havia disputa de bola, havia jogo. Mas os comentaristas diziam que um time não deixava o outro jogar, portanto estava tudo muito travado. Não vi assim. Vi uma partida épica, com todos dando tudo o tempo todo. Nem dá para saber como conseguem fôlego para lutar até o segundo derradeiro. Tirou sangue de vários. No primeiro tempo, já se via um hospital em campo: alguém enfaixou a cabeça, outro o pulso, mais um teve que fazer curativo na testa. Quando será que vão criar um capacete transparente, fino e resistente de silicone ou o que for para que os jogadores possam trabalhar em paz, sem colocar em risco o patrimônio?

Por ter sido um jogo intenso, em que a relação dramática entre expectativa e bola chegou ao seu ponto máximo de tensão, é que aconteceu a tragédia. Pois quando a percepção coletiva foca demais num ponto, quando a cabeças, machucadas ou não, se voltam para aquela comunhão entre golpe de vista e chute no ângulo, fica de fora o improvável. É desprezada a surpresa que pode acontecer quando o lance escolhe o hiato entre a certeza de cada um e os caprichos geométricos do futebol.

Quem viu, sabe. Tcheco, do Grêmio, levantou a bola em elipse aberta e alta para o miolo da área. Seu objetivo seria colocar os adversários no sufoco, oferecendo a sorte para que seus companheiros conseguissem sacudir a rede. Defesa e ataque se concentraram uns nos outros, enquanto a bola evoluía no hiperespaço, no não-lugar, na estrada inexistente que corta em diagonal o universo conhecido. Ali ela encontrou seu rumo e foi despencando devagar, sem que ninguém percebesse suas intenções. Era uma criminosa disfarçada depois do roubo, um popular tentando escapar da revolução desencadeada em plena rua.

Mas bola não tem intenção, obedece ao impulso, o chute de Tcheco. Ela simplesmente cumpriu seu destino. Foi levantando vôo, enquanto os jogadores se estapeavam numa outra dimensão, a considerada real. E ali ela foi se aninhando, naquele caminho virtual que a levou, para desespero do goleiro Marcos, do Palmeiras, para o fundo do gol. Na trajetória, tocou em alguém? Não importa. Ela nem foi desviada. O goleiro não estava prestando atenção naquela evolução bizarra, no evento absurdo, que era a bola simplesmente indo em direção à vitória do Grêmio sem que ninguém, nem mesmo Wanderley Luxemburgo, que sabe tudo, visse na hora o que estava acontecendo.

Como tem sido natural fazer análises cheias de frases definitivas equilibrando-se em bases improváveis, é certo que Marcos caiu na armadilha e assumiu a culpa pelo estrago. Para compensar, rifou sua carreira indo várias vezes para a área adversária, tentando o empate. Cansou nesse devaneio e por pouco não sofreu um revés mortal, que o jogaria no exílio completo. Marcos fora substituído nos jogos anteriores e o substituto aproveitou bem a oportunidade, pegando sem parar. O time estava pertinho da liderança. Marcos voltou como titular absoluto e não contava com a improbabilidade da jogada esdrúxula que o desestabilizou.

Deve estar procurando explicações, o goleirão campeão do mundo e o algoz que tirou o Corinthians para sempre de uma decisão mundial no Japão. Só existe um motivo, craque: uma tempestade de olhares convictos, sem ostentar dúvidas, inclusive o teu olhar, goleirão, deixou a guarda aberta para que o futebol, esse jogo mortal que só pode existir como atividade de espíritos livres, aprontasse uma das suas.

Foi o desfecho clássico que costuma ocorrer quando todos estão virados para o mesmo lado e o Senhor dos Desertos resolve cavar o éter com suas mãos douradas. Ele brinca na areia do nada para que possamos aprender o que é bom para a tosse: a de que somos presas aleatórias da grande bagunça que é a vida além dos muros que cercam todos os estádios. Isso pode derrubar a alegria de alguns torcedores e incendiar outros. Mas todos saem ganhando quando vemos o chute sem jaça decidir um jogo inesquecível.

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