Arquivo para dezembro 2009

MITCH MITCHELL: O SOM DO SONHADOR

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Música

O sonho não brotou, como querem os textos da memória fake da mídia, repetidos até a extrema exaustão, para manter no ar a intenção de assassiná-lo. O sonho foi sonhado (com perdão da necessária tautologia) por grandes artistas como Mitch Mitchell, baterista da Jimi Hendrix Experience (banda conhecida por todas as pessoas que permaneceram alertas numa época de sombras). Ele foi encontrado morto no dia 13 de novembro de 2008, aos 62 anos, vítima de causas naturais, ou seja, desconhecidas. Tinha acabado de fazer uma turnê por 18 cidades americanas.



JUVENTUDE FORA DE HORA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A juventude que chega tardiamente e viabiliza uma segunda chance para a profissão e o amor, seria fruto dos impactos da ciência na humanidade ou apenas perda de tempo? Nossa geração, que se recusou a abraçar o que estava programado e ousou novos caminhos, dando a si uma nova oportunidade, que elegeu a juventude como o insumo permanente do risco e de uma vida plena, sofre hoje com esse conflito: para onde foram tantas conquistas, tanto conhecimento acumulado, tanta experiência? Voltamos à estaca zero ou conseguimos realmente mudar tudo? Somos o professor recém saído da recuperação, cheio de projetos, driblando a tirania, ou aquele que volta ao seu regaço de modorra e esquecimento e acaba se perdendo no meio da noite e da neve? Eis a atualidade candente de Youth without Youth, a nova obra de Francis Ford Coppola.



VERÃO À VISTA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O verão se aproxima e vejo braços levantados, que se destacam na multidão. Eles se sacodem ao ritmo de um Carnaval de cidade pequena, praça cheia, salão suado. As lantejoulas grudam na pele que brilha, como um verniz. Os rostos redondos de olhos esperançosos aguardam o porvir, nome antigo do futuro, que chegou cedo demais e depressa se despediu. O Tempo voltou ao normal, devorando a memória. À poesia restou o encargo de resgatar o pó dos dias, reuni-lo em forma de criatura. E soprar nela o despertar, enquanto enterram o amor num canto remoto do quintal.



PERTO DAQUI, AQUI MESMO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Redescobrimos que nossa tranqüilidade não vem da nação que habitamos, mas da firmeza do clima. Se ele estiver bom, tudo pode ser resolvido, até mesmo a ditadura que nos governa. Mas se redemoinhos de centenas de quilômetros se movimentam em sentido anti-horário, capturando milhões de toneladas da água do mar, para jogar sem cessar em cima de nós, então não tem remédio, não tem mais jeito. É uma espécie de traição. É como romper as regras do jogo só para humilhar o adversário. Onde está o sol, que não seja ardido e prenúncio de mais chuva? Onde está a praia, impossível de freqüentar com tanta intempérie?



DEZEMBRO, O SUSTO DO TEMPO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Vi dezembro chegar nas luzes da vizinhança. Elas piscam, insistentes, o susto do Tempo. Tentam surrar a lembrança da véspera, trágico novembro. Prometem festa, quando há dor. Vagalumes fixos de cores berrantes, estão deslocadas neste final de anti-primavera, quando no lugar de flores, colhemos luto. Quanto mais antigos somos, mais dezembro nos aproxima daquele choro derramado, posso dizer: de criança. Ainda mais agora, quando as cicatrizes do paraíso nos lembram o quanto somos pobres aqui no Sul tão celebrado. A pobreza quase oculta ficou ostensiva. A paisagem derreteu e o morro veio abaixo, levando junto o sonho de felicidade.



MORROS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Casa e morro são mistura de pedra e barro, só que nenhum deles foi feito para suportar o dilúvio. Menos ainda quando as imposições da laje e do concreto substituem a cobertura vegetal, oferecendo ao relento as piores perspectivas, confirmadas pela tragédia que despencou em Santa Catarina. Aqui é a terra dos morros e das casas do Brasil profundo, aquelas vistas à distância que despertam a vontade de morar nelas. O aspecto bucólico, silencioso, pacífico dos recantos que bordam as estradas desta paisagem é o alvo dos sonhos produzidos pelos estressados da hiper-urbanidade.



O GRANDE SUFOCO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O título é uma tradução livre de The Big Heat, filme de 1953 de Fritz Lang. Mas também se reporta ao crime hediondo que é ficar à mercê de gigantescas porcarias que são produzidas em série pela indústria audiovisual bandida, enquanto maravilhas, jóias do filme noir e de todos os gêneros dormem no esquecimento ou rodam apenas na mão dos cinéfilos. Temos pouca noção do Mal que nos fazem ao nos apartar das obras-primas como The Big Heat, que foi lançada no Brasil com o título de Os Corruptos. Nada mais apropriado para o Brasil de hoje: investigador honesto enfrenta a máfia que domina os altos escalões da polícia e da política e paga um preço caro para provar sua inocência e recuperar o cargo perdido.



ESSA BRAVURA COLORADA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Esportes

Os argentinos são especialistas em dar cama-de-gato no gigante. Contam com sua ferrenha unidade nacional, sua determinação, sua certeza de que são os melhores do mundo em tudo. Nada pode contra essa avassaladora cultura argentina, que está sempre certa, sempre dentro da lógica, sempre acima, sempre melhor, maior e não sei mais o quê. Quando perdem, sempre há uma explicação, pois jamais abandonarão sua natureza hegemônica. Esse é o lance decisivo do futebol argentino jogado fora de campo, onde se decide o futebol (tanto é que têm mais títulos disputados no continente). Eles se armaram para estragar a festa (pode-se argumentar: mas isso todo mundo faz; só que os argentinos são mestres desse ofício). Eles criaram uma rede de intrigas dos corpos que iriam entrar em movimento. Contavam também com a sorte, que costuma se entregar às almas determinadas. A sorte tem medo de quem a desafia.



O SPARTACUS DE MIZOGUCHI

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Vi O Intendente Sansho (1954), de Kenji Mizoguchi, um filme sobre a luta contra a escravidão. Não sei se alguém notou, mas este filme foi completamente copiado pelos americanos em Spartacus (1960), dirigido por Stanley Kubrick e roteirizado por Dalton Trumbo. O roteiro do filme do mestre japonês é de Fuji Yahiro, que se baseou em conto publicado no início do século 20, de Ogai Mori (1862-1922), que por sua vez se inspirou no conto popular conhecido como Anju e Zushio. É difícil saber quem bolou as situações que coincidem nos dois filmes, mas o que foi feito depois se espelhou totalmente na seqüência dramática do antecessor. Quais são essas coincidências ?



A VOLTA DA PALAVRA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Livros

O poema manifesto, tornado tradicional pelo tempo transcorrido e resgatado agora na memória impressa, é apenas um aspecto do trabalho de Rubens Jardim, que lança seu primeiro livro em 30 anos, “Cantares da Paixão”. O mais importante não é sua “pertença”, sua biografia poética, mesmo que o núcleo de onde surgiu seja de citação obrigatória. O fundamental, nele, é o deslocamento do poema para fora da linguagem, o que é feito com maestria, no uso da palavra conhecida e na eventual quebra silábica do discurso.