Arquivo para dezembro 2009

AKI KAURISMÄKI: O GESTO ENGESSADO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Cineasta finlandês faz filmes dramáticos hilários: o drama se expressa pela imobilidade do gesto, que provoca situações de humor terminal, aquela risada antes do fuzilamento. Os diálogos são escassos, como as ações dentro das narrativas (que, paradoxalmente, são dinâmicas). As conversas pontuam essa situação limite: “Se quiseres falar consigo mesmo, fale finlandês” diz um dos personagens de Segure seu cachecol, Tatiana, de 1994, um road movies que toca em algumas feridas básicas daquela estranha nacionalidade. Parte do antigo império russo, do qual se separou depois de algumas guerras, e por muito tempo dentro da área de influência sueca, o país exibe índices razoáveis de qualidade de vida, mas o isolamento e a falta de sabor da sociedade finlandesa tornam-se explícitas nos filmes de Kaurismäki.



REVOLUÇÃO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Política

Escravidão é implantar, por qualquer meio, a submissão de corpos e mentes. O exercício da tirania, combatido há séculos pelos espíritos livres, consegue se superar modificando seus métodos, conforme vão mudando os paradigmas. São intermináveis cabeças ressurgidas da Hidra, o mito helênico da eternidade de um monstro. Hoje, exsite tecnologia suficiente para libertar a humanidade, mas esse conhecimento está sob as ordens da servidão.



PARA QUE SERVE O CINEMA?

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O cinema, soma de todas as artes, serve para humanizar o espírito exilado do talento (esse mistério da sabedoria). Imersos na barbárie, na luta pela sobrevivência, dedicados ao esporte de se eliminar mutuamente, vocacionados para a indiferença, centrados no egoísmo, os povos acumulam fome de transcendência, que só o cinema pode atender. As ditaduras costumam expulsar os seres humanos completos, os cineastas, normalmente vindos da estiva do teatro, da demência literária, do exílio das artes plásticas, que buscam refúgio em outros sistemas políticos, onde podem exercer sua grande arte até que novamente os grilhões de voltem contra eles, podando-os, destruindo ou desvirtuando suas obras ou implantado neles a desesperança que enfim vence, renegando o que fizeram para o limbo absoluto.



MIUDEZAS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Minha mãe mantinha em cima de sua cômoda, no quarto, em lugar de destaque, o único presente que lhe dei na vida. Era uma pequena cesta de vime, com tampa, que trouxera da viagem que fiz pela primeira vez ao mar, quando tinha nove anos de idade. Nela guardava um retrato meu e outras lembranças. Era seu pequeno tesouro, a saudade do filho que fora, entre tantos outros, cumprir seu destino na capital.



ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: NÃO VER É SENTIR

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A crítica cinematográfica é cega. Não consegue enxergar um filme. Acharam “Ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles, baseado no romance de José Saramago, deprimente, apocalíptico, azedo, óbvio. Se é para despejar adjetivos, para que a crítica? Uma análise precisa ver o que a obra mostra de maneira explícita, em todos os frames, cortes, formas, objetos, situações, diálogos, cores. E não o que o crítico acha. Não podemos achar nada sobre coisa alguma, apenas nos render ao que é evidente. E o filme é de uma transparência didática e cristalina: despojados da visão, as pessoas se desvinculam dos laços sociais, que regem a vida contemporânea por meio do massacre dos signos manipulados (os faróis do trânsito, as faixas de segurança, a indústria visual). Emerge então o que estava enterrado sob pressão, a barbárie e o sentimento.



A CHAMA E A SOMBRA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O filme Flammen & Citronen (2008), de Ole Cristhian Madsen, é uma apurada sucessão de imagens de alta intensidade visual e dramática. As cores carregadas em contrastes gritantes fazem dele um noir do século 21: lâmpadas fortes sobre escrivaninhas minuciosamente produzidas, paisagens maravilhosas de céu, mar e grama que duelam com automóveis de cores berrantes, Estocolmo e Copenhagen esplendorosas na sua frieza incendiada pela ação e personagens sinistros em armadilhas mortais fazem desse lançamento internacional um acontecimento importante, mesmo quem seja considerado longo demais, confuso muitas vezes e com situações forçadas em algumas partes.



COLT É IRMÃO DA WINCHESTER

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Em dois filmes irmãos – Cão Danado (1949), de Akira Kurosawa, e Winchester 73 (1950), de Anthony Mann – Caim e Abel se defrontam depois de uma perseguição implacável. O que liga os protagonistas em cada filme são armas de estimação, importantes, raras. No Japão do pós-guerra, um colt roubado vira instrumento de crimes sucessivos, enchendo de culpa seu dono, o policial (Toshiro Mifune), que depois de muita luta, recupera a arma. No velho Oeste, a Winchester perfeita, considerada “uma entre um mil”, é disputada pelos dois filhos de um rancheiro e acaba passando de mão em mão até o duelo final, quando o filho bom (James Stewart) a resgata ao eliminar, no meio das pedras de um penhasco, o irmão assassino.



O QUE É O GÊNIO?

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Crônicas

Implico com a palavra “menor” ao lado de um criador de obras-primas. É importante fazer um reparo: todo Kurosawa é maior. Não existe um só filme de Akira Kurosawa que possa ser classificado de outra forma. Nem vou falar dos mais explícitos, como Dersu Uzalá, Ran, Os Sete Samurais, Sanjuro, Yojimbo. Mas de O Barba Ruiva (1965), em que Toshiro Mifune interpreta o doutor dos pobres, um sábio que ensina, pelo exemplo, seu aprendiz arrogante.



O BRILHO DAS ÁRVORES

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Do estábulo vemos a rua coberta de lances obscuros. Balbuciamos uma nova língua, mas só os bichos escutam. As pessoas se transformaram em mercadorias. Não há como escapar, dizem, nem mesmo o talento que afias diariamente, nem mesmo o sonho de acordar dessa loucura. Deves te ordenar na comunhão dos aflitos, enquanto envelhecem os bandidos e seus tesouros acumulados. Nenhum franco atirador postado na torre da capela, para mantê-los à distância, enquanto resistimos.



CÉU E INFERNO, DE AKIRA KUROSAWA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

“Céu e Inferno” (ou High and low) é, como todos, um filme sobre cinema: a investigação de um crime de seqüestro é a leitura de imagens e sons. As pistas audiovisuais fecham o cerco sobre o criminoso, que consegue o resgate porque enxerga mais: pelo telescópio, segue todos os passos da sua vítima, o executivo que exibe poder e fortuna na grande janela envidraçada da sua mansão, a cavaleiro sobre a favela. Mas o olhar individual do sequestrador não vence o olhar coletivo, da sociedade e instituições mobilizadas para descobri-lo. É desmascarado por meio dos ruídos que deixa gravados nos seus telefonemas de chantagem, da voz que denuncia sua pouca idade, das opções que acabam entregando a localização do seu esconderijo.