Arquivo para dezembro 2009

ANTES DO TELHADO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Vi a coruja na ponta do telhado. Vertical, fazendo pose no entardecer. O periscópio do olhar transmite a impressão de corpo retorcido, fora de prumo. Ela apenas está atenta, girando a cabeça enquanto o corpo, imóvel, imita uma espiral. Seu canto é o silêncio, a sabedoria dos ouvintes. Calada, como fruto em fim da feira, exibe a presença descartável quando acendem as luzes da aldeia. Quase não se vê o vulto que se apaga como as ilustrações de livros obscuros. Mas ela está lá. Seu segredo é que nada anuncia. Ela se encerra, como um cofre de vime. Guarda-se em penas, desenhos mortos, pincéis de espinhos. A coruja trafega no lusco-fusco das celebrações ocultas. Existia antes do telhado, antes mesmo do terreno baldio cercado, antes do século, da História, da trilha.



MARIENBAD, O FANTASMA DA MEMÓRIA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O ano passado em Marienbad, filme de 1961 de Alain Resnais, com roteiro de Allan Robbe-Grillet, é sobre a ruptura da memória provocada pela morte. Precisamos resgatar a memória para que lembremos aquele instante em que fomos assassinados. Só a partir dessa revelação é que poderemos romper com a armadilha. O filme acena com essa possibilidade. Chamam esse recurso de obra aberta. Prefiro dizer que houve o desenlace, o crime, e a mulher vaga, morta, pelos corredores e quartos. A chance de fugir daquilo é nossa, dos espectadores que depois do final terão apenas a lembrança do filme como companhia. A memória é um fantasma que precisa saber o que aconteceu conosco.



O ELEVADOR NO ABISMO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Sobre Daguerreótipos (Escrituras, 222 páginas), de Marcus Accioly: O poeta é o anjo que ganha a parada, pois enxerga a violência de estar vivo e encara a brutalidade de ser eterno. Sua poesia está em nenhum lugar, a não ser nessa “sobra”, quando se desbastam todos os disfarces e ressurge, crua, a loucura do talento pousado nas costuras aparentemente efêmeras. Como no poema para Tchaikovsky: “O inferno atrai e queima a mariposa/ e uma asa de seda – um véu de esposa – /cobriria o teu rosto, além do pranto”.



UM GRANDE ANO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O herói democrata é apresentado como a verdadeira América, a que sacode levemente a cabeça em sinal de tédio diante dos erros de seus conterrâneos. A ética dessa América que envelhece como um galã outonal jamais perde a postura de grandeza. Basta notar a finesse dos gestos, das expressões e da coreografia perfeita nas ações decisivas. Como Ricky/Bogart em Casablanca, ele é capaz de salvar o marido da mulher que ama, sem desmanchar o topete.



PRIMEIROS PÁSSAROS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Desconheço os pássaros de penas amarelas que flagro às vezes entre a mesmice das espécies voadoras urbanas. Talvez sejam sobreviventes de velhos massacres, da época em que o Brasil decidiu importar pardais numa súbita saudade da distante Paris. Ou então fruto de cruzamento das aves adventícias com os exemplares resistentes da nossa fauna. Eles convivem, anônimos, com outros, de papel passado, como o bem-te-vi, tão disseminado quanto o quero-quero, que agora não é mais exclusivo do pampa.



HIROSHIMA, O AMOR DA MEMÓRIA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O amor pode perdoar sem esquecer, nos diz o diretor Alain Resnais e a roteirista Marguerite Duras no filme fundamental de 1959, Hiroshima, mon amour. É, como todos, um filme sobre cinema: a mulher francesa participa de um documentário sobre a necessidade da paz depois da hecatombe nuclear, mas ela mesma é a protagonista do filme que estamos vendo, e que vai mais fundo do que os falsos apelos pacifistas, já que joga pesado com a necessidade real de convívio depois do massacre e a única saída para isso é resgatar o amor perdido e abrir-se para uma nova relação.



CONTEMPORÂNEOS DA DÚVIDA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Trabalhos Acadêmicos

A neve foi fatal para Francis Bacon e René Descartes. Uma experiência criogênica com carne de frango em 1627 expôs demais ao frio o ex-chanceler da corte de Jaime I, enquanto uni convite da Rainha Cristina, da gelada Suécia, atraiu Descartes para a pneumonia e a morte em 1650. Mas os dois contemporâneos têm mais coisas em comum do que os rigores do clima. Cercados pelo muro alto da escolástica, eles compartilharam da insatisfação diante de uma filosofia que, acreditavam, nada acrescentava à vida humana. E estimulados pelo dinamismo da sua época, de invenções e descobertas, souberam lançar os alicerces de um conhecimento sintonizado com as novas conquistas da aventura humana



CLIMA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Qual seria a natureza do novo clima? Seria o império da sensação térmica, conceito inexistente até alguns anos atrás? Pois o termômetro deixara de ser confiável. Se ele marcasse 34 graus, você estaria sofrendo mais de 40. Uma brisa encanada poderia transformar a Amazônia no Canadá. Com a sensação térmica no poder, triunfaria a percepção sobre os fatos. As ciências humanas venceriam finalmente as matemáticas. Haveria a vitória total do lugar comum: o sonho se transformaria em realidade.



ESPECIALISTAS EM NÃO SABER

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

A especialidade do jornalista é o próprio jornalismo, e não política, economia, cultura, esporte. É um profissional especializado em não saber, por isso vive das perguntas que faz e das respostas que obtém e veicula por meio de um texto, de uma fala própria, composta pelo próprio jornalista em pleno exercício de sua profissão em regime de liberdade. Ou seja, contraria frontalmente a cultura conservadora de que as pessoas nascem sabendo, ou adquirem sapiência por meio de um diploma universitário. A universidade, qualquer uma de qualquer área, ensina a aprender. Não deposita no estuário privilegiado da mente estudantil a sapiência a ser distribuída como maná ao gentio. Simplesmente lhe repassa os instrumentos para que procure saber. Assim é no jornalismo.



O PAÍS DO NORTE

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política

O que temos no Norte são os caboclos, mistura de índio com português e outras nacionalidades. Os nichos que hoje inspiram territórios independentes na fronteira do país, sob o álibi de preservar populações ameaçadas, são minorias diante da mistureba de todos os sangues. O João Ninguém, também conhecido como o brasileiro, é o povo invisível da Amazônia sob custódia do politicamente correto.