Arquivo para dezembro 2009

ROBINHO E O GATO DE ALICE

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Esportes

Robinho passa um verniz em cima da bola propondo a adivinhação. Em qual lugar ela vai ficar? Em lugar nenhum, pois a percepção alheia, driblada pela manipulação do craque, acaba vendo apenas os detalhes, que somem, do gato da Alice. Lewis Carrol, de Alice no País das Maravilhas, contou a história do gato que mostrava apenas o sorriso, a cauda e assim por diante. Era impossível pegá-lo.



PALAVRAS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Motivos aparentemente bizarros inventam sugestões quase obscenas para o som de algumas palavras. Jamais uso “dentre”, por exemplo, porque me lembra dente quebrado. A implicância é tamanha que a considero desnecessária. “Tripartite” é a pior palavra da língua, se é que ela pertence mesmo ao português. Talvez seja subproduto de um dialeto tatibitati. O excesso de tês não a recomenda para o uso corrente e sim para definir encontros internacionais inócuos, quando dois interlocutores são insuficientes para fazer marola.



AMOR PÓS-ROMÂNTICO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Amor é abandono: os pais andam na ponta dos pés para evitar que a admiração pelo filho pródigo, enfim de volta à casa, vire desprezo; o estudante pobre e radical oprime a aristocrata, repentinamente dona do seu árido coração; o amigo suporta todas as humilhações do companheiro de quarto para manter acesa sua devoção por alguém que julga seu superior. Todos sofrem em silêncio esse amor fora de hora, pois em 1859, época em que se desenrola a obra-prima de Turgueniev, Pais e Filhos (Cosac Naify, 1994, tradução de Rubens Figueiredo), o realismo dava as cartas e havia um esforço para que o romantismo fosse coisa do passado.



O VERDADEIRO TU

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Há uma feérica busca pelo “verdadeiro eu”. Milhões de exemplares são vendidos por autores que acenam com a solução para tão candente tormento. Pessoas mergulham em cursos de auto-ajuda e exercícios zen-aeróbicos para livrar-se da casca das convenções sociais e assumir a própria identidade, soterrada em toneladas de cascalhos de indiferença e repressão. O resultado é que existe cada vez mais cultura psicanalítica das massas, todo mundo voltado para si mesmo, trafegando em mão única nas estradas perigosas da convivência múltipla.



DISTORÇÕES

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando era proibido ter dúvidas e ninguém podia desconfiar de nada, o mundo se assentava em princípios eternos. Eles foram varridos mais tarde quando Baudelaire publicou suas “Flores do Mal” e Marcel Duchamp decidiu que seu mictório era arte. A diferença entre tradição e ruptura gerou impasses. Uma poltrona antiga foi concebida para sentar, um celebrado banco de design ultra chic é feito para expor. Uma obra de Oscar Niemeyer é um encanto para os olhos, mas vai passar uma tarde de verão nos seus ambientes de concreto.



JOHN REED

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Política

Ele ficou sem dinheiro numa viagem perigosa, quando cobria a Primeira Guerra Mundial, uma carnificina promovida por comerciantes, segundo sua definição. Teve que viajar agarrado fora do trem, para não ser visto. Quando, por qualquer motivo, o comboio parava no meio da madrugada e do ermo absoluto, ele corria para o campo, se escondia, esperava. E voltava para pegar o vagão em movimento. No México, seguiu um velho viajante, cruzando montanhas geladas e desertos e foi ao encontro de Pancho Villa. No Colorado, numa sangrenta greve de mineiros, acabou sendo preso e fez suas entrevistas com os líderes do movimento encarcerados em meio a multidões sem ar nem luz, depositados em porões imundos.



A ESPERANÇA EM MOTHER JONES

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Aconteceu em Nova York, no início do século 20. Milhares de crianças, com o rosto borrado de carvão, cruzaram a cidade gritando e exibindo cartazes com os dizeres: “Queremos ir para a escola, não para as minas”. Na liderança da passeata, firme, do alto dos seus 93 anos, aquela que era considerada pela polícia “a mulher mais perigosa da América”, conhecida como Mother Jones. Pessoa marcada, de oratória precisa e poderosa, foi presa várias vezes como agitadora, numa época em que as reivindicações dos trabalhadores, que não tinham salário nem jornada de trabalho fixos, eram consideradas atos de traição à Pátria, em plena véspera da participação americana na guerra na Europa.



ESCRITOR NÃO ESCREVE

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quem escreve é escrivão, redator, escriba. Escritor se transforma na própria palavra que inventa. Cria a linguagem na mente. Ao passar para o papel, ou a tela do micro, é para aprimorar, compartilhar, mas não se trata da essência da atividade. Por isso é ilusório sonhar em abandonar tudo, ir para o ermo e lá perpetrar o romance da sua geração. Ou você já tem o bicho alinhavado na cabeça ou não tem. Se não tem, é perda de tempo esse sonho de sair da reta para poder pegar a manha na curva.



DITADO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Dia de ditado era uma tortura. A professora escandia as sílabas pronunciando um texto e nós tínhamos que colocar no papel o que ouvíamos, sem cometer erros. Por muito tempo me perguntei para que serviria um exercício aparentemente tão sem sentido. Hoje, quando vejo monólogos concomitantes em grupos autosuficientes, descubro tardiamente os benefícios desse treinamento ostensivo. Primeiro, tínhamos que entender o que era dito. Segundo, acostumávamos o ritmo do ouvido ao ritmo do narrador. Terceiro, podíamos transformar cultura oral em escrita (e checar sua correção comparando com o texto original, impresso, lido em aula).



O REPÓRTER QUE PAROU O AVIÃO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Memórias, Redação sem Máscara

Jorge Edemar Ruwer corre para o meio da pequena pista da cidade do interior do Rio Grande do Sul e faz sinal, de maneira decidida, sacudindo os dois braços, para o pequeno avião que iria partir para Porto Alegre. Ele sabia que aquela era a única chance de colocar a matéria na edição do dia seguinte. Naquele tempo, final dos anos 60, o telex era considerado ainda “a maquininha mágica”, como nos diziam no curso de Jornalismo. Enviar texto e fotos, do lendário fotógrafo J. B. Scalco, seu companheiro daquela jornada perigosa, antes que a máfia se mexesse e impedisse a publicação, era uma questão de vida ou morte para o grande repórter.