Donaldo Schüller: As armadilhas de um professor de vanguarda

maio 13th, 2005 | Por | Categoria: Livros        

revista República
O professor de vanguarda Donaldo Schüler, quando anda nas ruas da sua linguagem, cai em inúmeras armadilhas. Uma delas é “celebrar a morte do autor”, como diz num dos seus textos-manifesto (” Fim do século: espanto, pânico, pane”, de 1996) enquanto entrega-se ao resgate de James Joyce, o irlandês que ” despedaça a frase inglesa, a língua do dominador”. Sua tradução dos primeiros quatro capítulos de Finnegans Wake, que está sendo lançado nesta primavera pela pequena editora Ateliê, de São Paulo, é pura celebração do mais notório espécime do grande terremoto cultural das primeiras décadas do século, quando um punhado de autores, a exemplo dos renascentistas, incendiaram a cultura a partir da fricção com todos os clássicos.

Ulisses, herói mítico que está na raiz do nome de Lisboa (como lembrou Luís Fernando Veríssimo em recente crônica), virou símbolo da palavra despedaçada e fisgou o então jovem professor de Porto Alegre. Pegando carona na viagem dos concretistas de São Paulo, navegou na tradução que Antonio Houaiss fez da obra maior de Joyce, nos abcs de Ezra Pound e na pregação dos irmãos Campos. Lecionando Literatura Grega e Teoria Literária nos anos 60, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, engajou-se então no estudo comparado desses trabalhos e hoje, já aposentado, carrega uma nuvem de alunos seminários afora, disseminando o desconforto que é aliar-se às rupturas da vanguarda e, ao mesmo tempo, a uma tradição brasileira que a seu ver é muito pouco reconhecida.

Fincado nessa região nebulosa conhecida pelos paulistas como “Sul” (invenção que aproxima o norte do Paraná com a fronteira gaúcha e coloca Gramado como capital de um território que possivelmente começa um pouco adiante do rio Pinheiros), ele atua nas bordas polares – e revolucionárias – de um país que se enxerga totalmente tropical. Donaldo Schüler se coloca como aliado de uma linhagem anti-romântica que vem desde a boca aterradora de Gregório de Matos, passa pelas Cartas Chilenas de Tomás Antônio Gonzaga, depura-se na efígie machadiana e ganha impulso com Oswald de Andrade e a educação pela pedra do engenheiro João Cabral de Melo Neto.

É essa lógica cultural que ele carrega nos estudos que promove, enquanto caminha para a tradução do resto de Finnegans Wake – um livro que tem 628 páginas e 17 capítulos – e que será lançado por partes nos próximos quatro anos. É diferente, no seu entender, dos trechos traduzidos por Haroldo de Campos, mais poéticos. No seu trabalho, Schüler procura manter-se fiel à narrativa do texto original.

O que ele pretende, entre outras coisas, é celebrar os 500 anos do Brasil destacando essa herança, para se insurgir contra o saudosismo dominante e assim atender à demanda do próprio brasileiro. O cultivo da ironia, do sentimento de liberdade, da polêmica, da luta contra a mão pesada do oficialismo, que no seu entender conforma o perfil verdadeiro do habitante do país-continente, é que deve ser a flor dessa dilaceração temporal que é a virada do milênio. Contra o acomodamento da História, girando fora da roda paradisíaca, ele propõe a guerrilha da linguagem, negando assim o espírito que, nestas comemorações, vai cometer o crime de trazer a bordo de uma nau a figura ínclita de um ministro português – reiteração física da submissão diante dos colonizadores.

A reboque dessa convocação insurgente, pode-se lembrar que o principal aspecto da obra de Sérgio Buarque de Holanda – que denunciou na sua obra maior, “Visão do Paraíso”, a imposição conceitual que o europeu fez das terras ignotas, – é exatamente a contribuição indígena para a sobrevivência humana no Brasil. Não fosse o índio, o estrangeiro não teria podido cultivar, achar ouro, andar e viver nesta pedaço de terra situado além dos limites do mar português.

A longa dissertação de Schüler sobre a Carta de Pero Vaz de Caminha (“A retórica da subordinação e da insubordinação da carta do achamento”, de 1998) aponta as raízes e desdobramentos da missão fundadora da terra de Santa cruz a favor do estranhamento cultural. Primeiro, ele destaca a importância do texto seminal – que manteve-se intacto, ao contrário do que aconteceu com os diários de Colombo e as narrativas de Américo Vespúcio – ter sido escrito em português, e não em latim, num vínculo oratório e quase íntimo do escrevinhador com o Rei D. Manuel. E, sendo do ramo epistolar, o identifica com a fragmentação do saber (outra armadilha em que cai o professor de vanguarda, que guarda um saber sólido, abrangente e unificador). A carta de Caminha é exemplar da “emergência do indivíduo contra a cultura anônima e coletiva” do fim da Idade Média. “A carta de Caminha vem de um outro mundo, de um novo mundo embebido de exotismo, esperança e sonhos. A correspondência dos navegadores abala pretensões de saber total. Quem atravessa o mar traz informações únicas.”

As impressões pessoais, a linguagem pictórica, as informações e opiniões do missivista, a própria forma da letra desenhada, fazem o professor de vanguarda viajar pelo texto em busca de novos desdobramentos, que passam por Derrida, Foucault e, claro, pelos clássicos: “Caminha não elaborou o elenco das negações firmado só na observação; norteava-se também pelo esquema mítico das Metamorfoses de Ovídio”. Sua análise deságua no resgate que Oswald de Andrade fez dos descobrimentos e o caráter desestabilizador que esta parte do mundo promove em relação à cultura dos “descobridores”.

Invertendo assim o enfoque do ato de descobrir, Schüler revela-se um agente da descentralização cultural. É esse caos gerador de novas linguagens que pode ser comparado a Finnegans Wake. Sua explicação do título do livro é um exemplar desse metódico delírio, de fundas raízes eruditas: “wake” pode estar relacionado tanto ao ato de acordar quanto ao de morrer. O despertar e o funeral dão-se aos mãos para acompanhar o múltiplo significado de Finnegans. Este, é nome de um pedreiro, personagem de canções populares da Irlanda, e também uma combinação do herói mítico Finn, da Irlanda, mais a palavra “again” (de novo). O herói renova-se na alma popular quando o autor fricciona o acordar da vanguarda com a morte da tradição. O herói reencarna depois que a tradição é assassinada. A vanguarda nasce quando alguém visita a cultura clássica e dela arranca o fogo sagrado.

É preciso fígado para aguentar o repuxo: todos os dias, a oposição vem comer o autor amarrado que roubou a luz da morada dos deuses. Donaldo Schüler, felizmente, vive num país que, ao submeter -se ao lixo cultural, costuma dar sempre sinais de vitalidade antropofágica. Basta ver o fascínio que desperta seu trabalho, tanto entre seus alunos, quanto na mídia e na comunidade intelectual de todo o País.

Ao fazer desse tempo de armadilhas e paradoxos a sua morada, ele habita o não-lugar da cultura que desengajou-se para renascer. A exemplo dos heróis míticos, ele fica à deriva no mar de análises a que seu trabalho é submetido. Inclusive da abordagem que a imprensa pode fazer dessa rebeldia. Esse é um ataque que costuma ser traumático, feito à sua revelia, apesar da boa vontade demonstrada nas paisagens sugeridas pelo telefone, quando deu suas entrevistas para este texto. E também apesar das imagens que gerou ao caminhar pelas ruas da uma cidade que é também pura linguagem e que procura saciar sua fome de renascimento.

Na sua visão, é obrigação dos intelectuais brasileiros atender à demanda desse despertar crítico que assola surdamente o Brasil, nos porões do acomodamento fictício da cultura e da comunicação amordaçadas. Ele propõe a retomada dos clássicos citando os sermões de Vieira, incentiva o embate contra o romantismo e solicita a mesma força que um dia fez os navegadores lançarem-se ao mar. Seu delírio é feito de inúmeras cordas. E suas armadilhas são generosamente repartidas entre todos.

publicado originalmente na revista “REBÚBLICA” , nº 36, em outubro de 1999

One comment
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  1. […] Brasil opera na tensão aceitação-repúdio da alteridade. só pela herança portuguesa lembro de Aljubarrota, de dom Sebastião, de Nassau, da França Antártica. Limítrofe, entre o achincalhe do pudor imposto e a penitência. E isso é de hoje, a ironia é um compromisso estético, e não só um jeito mais carioca de fazer corpo mole. Like this:LikeBe the first to like this post. […]

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