DYONELIO MACHADO: QUARENTA ANOS DE SILÊNCIO

set 5th, 2011 | Por | Categoria: Livros        

Nei Duclós

Graças a Iuri Muller, que no twitter se assina @mulleriuri, que localizou e me enviou o texto, publico hoje o artigo sobre O Louco do Cati, o genial romance oculto de Dyonelio Machado. Originalmente, o artigo saiu na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 3 de fevereiro de 1979. Ele me foi pedido pelo pesquisador da obra de Dyonelio Machado, o professor Fábio Passoni Martins . Aí está, na íntegra. Noto agora que este texto tem uma abordagem sintonizada com a luta que nós, escritores da geração emergente na época, desenvolvíamos em vários fronts, como atestam as cartas de Caio Fernando Abreu que estou postando aqui no Diário da Fonte. É sobre marginalização literária, em suma. Com um agravante: “Curioso é que o Dyonélio há pouco foi ´redescoberto´ pelas editoras. Pela segunda vez, inclusive, conforme o teu texto”, diz Iuri Muller.

Nei Duclós

Os escritores brasileiros das novas gerações estão com toda a razão: eles precisam lutar para abrir o mercado editorial, quase sempre avesso aos seus textos, para não serem violentamente reprimidos como aconteceu com o escritor Dyonello Machado, que só a partir do ano passado, com a oportuna edição de “Os Deuses Econômicos”, pela Garatuja de Porto Alegre, começou a ser “descoberto” como escritor de muitos livros. Antes, público e critica só o conheciam como o autor – brllhante — de “Os Ratos”, considerado um dos mais perfeitos livros da nossa literatura. Agora, a editora Vertente lança a segunda edição de “O Louco dc Cati”, colocado entre os dez melhores romances brasileiros de todos os tempos por Guimarães Rosa.

“O Louco do Cati” — que tem uma excelente apresentação do escritor Flávio Moreira da Costa, um dos responsáveis pela redescoberta de Dyonello e apaixonado pelo livro — revela (com 40 anos de atraso) para o grande público, um gênio da nossa literatura, mantido num semi-anonimato até agora por vários motivos: pelos equívocos e pela preguiça da critica; pela opressão provinciana da sua própria cidade: pelos editores que vêem nele um escritor “difícil” (quem rompeu com esse equivoco foi Mary Weiss, da editora Garatuja, que depois de “Os Deuses Econômicos” lançará neste ano outro livro seu, “Mulheres”: e pelo seu estigma político, já que foi um dos mais ativos militantes da esquerda no Rio Grande do Sul (“Nunca fiz politica na ficção. Fiz politica nas praças, na Assembléia” — ele foi deputado estadual
— “e na policia”, disse ele para ‘Escrita´).

Além disso, Dyonello faz uma literatura social fora dos esquemas de “direita” ou “esquerda”, o que ajudou também a critica a valorizar “Os Ratos” — mais facilmente catalogável como um romance “de protesto” — e a desprezar “O Louco do Cati”. Flávio Moreira da Costa aponta alguns elementos da atualidade do livro:

“Precursor em vários níveis, não é só por isso, no entanto, que “O Louco do Catl” se impõe: ele é o romance brasileiro da ditadura (de Vargas, poderia ser de outro); o grande romance latino-americano da perseguição e da prisão política. E isso tudo sem “engajamentos’!” superficiais, sem discursos de fora para dentro (ou de cima para baixo, como parece ser comum hoje, e náo sò em literatura). A narrativa se apresenta tão consciente de seu poder que em nenhum momento as palavras-chaves sâo ditas: certamente, sutileza e grandeza do autor que, assim, evitou escrever um romance datado”.

Donélio levou tâo a fundo essa sua qualidade de apenas sugerir — por eliminação das palavras-chaves, como notou Flávio — que o próprio personagem principal do livro, na maior parte da narrativa, é apenas uma sugestão. Ele fica à margem da ação, do primeiro plano — que por uma habilidade genial do autor nunca é a “açâo principal”. O personagem principal, assim, é um enigma que se decifra — de múltiplas maneiras — só no final. Ao longo da história, ele vai a reboque de outros personagens, através de uma viagem pelo Interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Além disso, a própria narrativa não está orientada apenas para o “suspense” desse mistério, mas para dentro de si mesma: as situações, aparentemente absurdas e sem objetivos, se bastam devido ao rigor da linguagem de Dyonelio Machado. Elas são o romance e poderão desorientar o leitor viciado em esquemas tradicionais. Essa é a grandeza de Dyonelio: para encontrar a grandeza de seus personagens, ele não precisou mentir, não precisou inventar, não precisou dramatizar, forçar a emoção a partir do arquétipos! Ele aparentemente narra o trivial simples. E isso nos faz descobrir a importância de um cotidiano “sem importância”.

Essa é a sua atualidade: a realidade, despida Inclusive dos conceitos sobre “realidade”. Uma descoberta mítica da loucura desconexa do dia-a-dia. A “Invenção” de um novo real.

RETORNO – Estava em fechamento na Ilustrada e pedi para o escritor Moacir Amâncio, que trabalhava nesse caderno da Folha,que levasse meu exemplar raríssimo de O Louco do Cati, que me foi presenteado pelo amigo Eduardo San Martin,para a noite de autógrafos de Dyonélio. Amâncio me contou depois que Dyonelio, antes de autografar, insistiu para ficar com o exemplar, pois era uma edição rara e ele não tinha mais. O livro ficou entre meus guardados e foi recuperado em São Paulo num trabalho gráfico primoroso que colocou uma sobrecapa e cuidou do aspecto geral do livro, graças a meu filho Daniel Duclós, apaixonado pela obra. Mais tarde, Daniel me presenteou de novo com a raridade recuperada. Para facilitar a busca, coloco aqui a fonte da pesquisa do texto: DUCLÓS, Nei. Quarenta anos de silêncio. Folha de São Paulo, São Paulo, p. 27, 3 fev. 1979

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