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DOIS TEXTOS SOBRE URUPÊS
Published: Nov 24, 2006 - 09:19 AM
Nei Duclós
1. HUMOR E DENÚNCIA EM MONTEIRO LOBATO
Urupês, de José Renato (mais tarde, Bento) Monteiro Lobato, é
uma sementeira farta de criação e nacionalidade. Com 14 contos e um
artigo, o livro é um primor de construção literária (o boxeador Lobato
não perde uma só frase, nenhuma letra é colocada em vão). Por que levei
tanto tempo para ler essa obra que praticamente fundou a indústria
editorial no Brasil, pois seu sucesso viabilizou a empresa do autor
numa época em que os livros eram impressos na Europa? Sei lá. Só sei
que fiquei energizado de novo com o texto lobatiano, como acontecia
quando eu mergulhava, anos a fio, no Sítio do Pica-Pau Amarelo. É o meu
escritor favorito. Pelo que faz com a palavra, parece que o vemos
contando histórias. Enxergamos claramente o conteúdo de sua narrativa,
inventiva até o osso e brutal, de uma brutalidade lúcida e humana que
nos faz falta como nunca. E que se presta, exatamente pela sua força, a
inúmeros equívocos.
POSSE - O grande feito de Lobato nesse livro foi denunciar o esquema
que domina o país por meio da política e da posse e mau uso da terra. A
malandragem, a mentira, a crueldade das pessoas poderosas escorrem como
fel das páginas destas narrativas. A chamada elite (o grupo
privilegiado que se beneficia de toda essa bandalheira) impera na nação
roubada, vilipendiada e por isso mesmo, condenada ao atraso. Mas Lobato
sabia de tudo. Não iria fazer uma denúncia pão-pão,queijo-queijo. Ele
simplesmente vira o binóculo ao contrário e seduz o leitor (os
brasileiros vítimas desse sistema de exclusão e que estão em todas as
classes sociais, especialmente a classe média, que comprava seus
livros) criando a representação da ponta do varejo da exclusão. Sua
definição do caboclo, que não deita raízes sobre a terra latifundiada,
e é tocado de um ermo para outro, é o poder escancarado dos coronéis do
mando e do garrote. Ao inventar o Jeca Tatu, Lobato decifrou a unha
encravado da vida comunitária no Brasil. A partir do Jeca, toda uma
linhagem cultural se formou, de Mazzaroppi à música sertaneja. O que
ele denuncia como ausência de arte no caboclo acabou se transformando
em arte popular genuína, pois o povo entendeu o recado e assenhorou-se
do retrato para tornar-se visível na nação cega.
ROUBO - Apesar de um recado tão explícito, o trabalho de Lobato
costuma gerar calúnias sobre ele. Pode-se imaginá-lo preconceituoso em
relação ao povo e a suas artes. Pode-se tachá-lo de elitista bruto ao
comparar o caboclo a uma praga silvestre. Mas seria pobreza mental em
demasia não ver exatamente nisso que parece ser preconceito ou racismo,
o toque genial de sua personalidade literária. A terra roubada nos
cartórios e na política serve só de enfeite para o enriquecimento, pois
este vem do compadrio, das propinas e dos golpes. Ao descrever a
fazenda do ex-colega da faculdade que enriqueceu com o casamento,
Lobato explica: "Fausto era fazendeiro amador. Tudo ali demonstrava
longo dispêndio de dinheiro sem a preocupação da renda proporcional;
trazia-o no pé de quem não precisava da propriedade para viver." No
clássico O Comprador de Fazendas (transformado em filme), a terra dá
prejuízo e apenas engambelando os possíveis compradores será possível
tirar o pé da jaca. Em Um Suplício Moderno, ele diz textualmente: "É
honra penetrar na falange gorda dos carrapatos orçamentívoros que
pacientemente devoram o país". Um país das Arábias segundo sua
definição, em que medram o analfabetismo e o aliadismo e a falsa
literatura ("o romance traduzido de Jaime Ohnet").
AVISO - Ao longo de todo o livro, o leitor tem a chance de gargalhar
com as tiradas de Lobato, criador de vários neologismos como
olhodaruável (situação dos que têm chances, depois de uma eleição, de
ir para o olho da rua). Nem se trata de ironia, esse biscoito fino de
massas sedosas. É escracho mesmo, é galhofa, é coragem de dizer com
todas as letras o que vai pela nação embasbacada. Foi por essa
contundência que Lobato fez sucesso e se destacou como a grande
personalidade do primeira metade do século vinte. Uma obra que causa
polêmica ainda hoje, pois os inimigos de Lobato continuam por toda a
parte: os burros titulados, os medíocres cruéis, os carreiristas. E as
vítimas apontadas por ele continuam na boca das elites imbecis, ainda
convencidas de que o povo excluído é igual ao caboclo descrito por
Lobato há cem anos. Esqueceram da profecia de Antônio das Mortes, o
matador de cangaceiro (o caboclo nordestino que se insurgiu) em Deus e
o Diabo: "Ainda vai haver uma guerra grande nesse sertão". Depois não
digam que Monteiro Lobato não avisou.
2. NATUREZA E SOCIEDADE EM MONTEIRO LOBATO
O modernismo é um movimento amplo, que extrapola a Semana e o
enfoque paulistano (da capital). Nasceu do inconformismo do talento
diante da Mesmice da cultura, que estava amarrada a velhos esquemas
agrários, culturais, políticos. É pioneiro mais no Rio de Janeiro do
que em outros lugares, e não se circunscreve apenas à literatura, mas à
caricatura, ao panfletarismo, ao deboche e à denúncia pura e simples.
Vejo Monteiro Lobato como um dos primeiros modernistas e sua
importância revolucionária foi reconhecida mais tarde pelo próprio
Oswald de Andrade, quando se reconciliou com ele depois de anos de
rusgas e ressentimentos.
FONTES - Mas Lobato era turrão e inconformado demais, e além disso,
vivia no Interior, para fazer parte de um movimento de inspiração
européia. Lobato bebia em fontes abundantes da literatura universal e
aferrava-se à narrativa coesa, eficiente e encantadora, inspirada pelo
mato que o cercava. Kipling e Maupassant são suas referências em
Urupês, livro pioneiro desse modernismo do fundão, uma obra generosa em
neologismos e soluções narrativas radicais (onde uma onomatopéia, como
Bééé, tem a força de muitas parágrafos). Nessa sua radicalidade, a
abordagem que faz da natureza, como parte da estrutura social, é única.
PAISAGEM - Ninguém descreve a trajetória do sol sobre a paisagem
brasileira como ele. O amanhecer é a promessa do país ainda virgem da
devassidão européia, que tem uma chance na esperança de ser um lugar
agradável de viver, onde poderia imperar a harmonia e o equilíbrio
entre as pessoas. Mas quando o dia avança e a bigorna do sol acaba
tisnando a paisagem, eis que se revela o país insuportável, onde medra
o fogo e o crime ecológico (um aspecto pioneiríssimo da sua obra, como
notou Clovis Heberle no comentário do post anterior sobre Urupês aqui
no Diário da Fonte). É na devastação da natureza, reflexo do mau uso da
terra, que confina os homens nos ermos sem cidadania e deixa impune a
elite cruel e exploradora, que o Brasil mostra a cara. Mas ainda é cedo
para demonstrar todo o horror que a paisagem inspira. Quando chega o
entardecer, com ele chega a tristeza, o banzo, o desespero da solidão
na natureza entregue ao sabor da maldade humana.
FANTASMAS - A noite então vem com seus fantasmas e assassinatos,
como no conto inicial Os faroleiros, em que dois sujeitos diante do
breu compartilham uma história de terror ocorrida num farol perdido no
meio do mar. Apenas duas pessoas moravam no farol e isso bastava para
haver o conflito, o ódio mútuo, a desconfiança e por fim a violência.
Não há como insurgir-se contra o império natural da sociedade de
classes, dividida no país que poderia ser um paraíso. No conto
Bocatorta, a feiúra de quem vive entocado, expulso da comunidade, no
meio de uma clareira imunda, revela um Quasímodo brasileiro, encarnando
todos os preconceitos existentes contra a humanidade que veio habitar a
nação. E na história em que dois vizinhos se atracam devido às
diferenças de personalidade e interesses, não há como melhorar a
produção que acaba sendo devorada pelas pragas. Em outro conto, um
filho adotado imita o mata-pau, destruindo a família que o recebeu.
FATALIDADE - O resultado dessa fatalidade da natureza, como reflexo
da incompetência humana de se resolver em sociedade, é o estigma de
nascença, rastro de um assassinato gerado pelo ciúme. O pessimismo das
histórias nada tem a ver com o romantismo velho de guerra. É pura ponte
entre a natureza destruída e a sociedade descosturada, ambas
territórios de frustração e miséria. Foi essa lucidez e essa
radicalidade que jogaram Monteiro Lobato para o alto no cenário das
letras nacionais. Urupês vendeu como pãozinho quente. Todos queriam
enxergar o país oculto na ramagem, todos queriam ter acesso à verdade
que se escondia sob toneladas de papel e fingimento.

