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MENOTTI DEL PICCHIA: AS MUITAS FACES DO POETA
Published: May 13, 2005 - 11:23 AM
As muitas faces do poeta
Nei Duclós
elefante
de papel de seda está pronto para levantar vôo. O autor da obra, no
comando da operação em cima do terraço da sua casa, acende o pavio.
Lentamente, o balão ergue-se sobre a rua Visconde de Ouro Preto, em São
Paulo, aplaudido pelas crianças aglomeradas diante do espetáculo. Para
elas, o desfecho é previsível: depois de breves instantes de glória, o
elefante colorido perde o pique e cai inevitavelmente na calçada. É
quando os mais rápidos vencem na disputa e correm para completar o
trabalho. Pois todos sabem que o poeta Menotti del Picchia faz um balão
como ninguém, mas não consegue acertar na mecha nem no combustível. Usa
álcool, por exemplo, de rápida combustão, em vez do tradicional
querosene, que garante uma evolução mais digna pelos céus tranquilos da
capital paulista em 1922.
Sinal
de que nem tudo eram vaias naquele ano de grandes transformações na
cultura brasileira. Se a platéia do Teatro Municipal urrava contra os
eventos da Semana de Arte Moderna, idealizada por Menotti, as crianças
festejavam o poeta que cultivava seu lado doméstico, confeccionando
balões ou cozinhando quindins - seu doce predileto. Nessa mesma época,
ele já era um autor que fazia sucesso entre o público e a crítica com
seu poema Juca Mulato, lançado em 1917. Essa era a característica
principal de Menotti, que em 96 anos de vida cultivou o paradoxo, a
contradição e a polêmica. Com sua morte, em 23 de agosto de 1988, o
agitador cultural que ajudou a romper velhos vícios culturais no Brasil
já tinha provado de sobra o gosto do reconhecimento público e das
inúmeras homenagens - entre as quais o Prêmio Moinho Santista em 1984 e
um livro desta Fundação sobre sua obra e vida. Como na história dos
balões, lembrada hoje por um dos seus sete filhos, Hélio del Picchia, a
obra de Menotti, espalhada em trabalhos de literatura, poesia, teatro,
escultura, pintura e jornalismo e política, tem a estrutura, a beleza
de um show pacientemente produzido entre o alarido e o silêncio, entre
a vida pública e o retiro, entre o delírio e a objetividade. Mas, por
um capricho - não se sabe se do destino ou do próprio poeta -, o embate
dessas contradições não encontra sua síntese. Ao contrário, ele costuma
provocar novos paradoxos, estimular efeitos opostos: a inspiração
precursora acaba caindo no gosto popular, a participação revolucionária
redunda, mais tarde, na ruptura através do movimento verde-amarelista;
e a monumentalidade da sua obra vê-se diminuída por parte da crítica
depois da ressurreição antropofágica de Oswald de Andrade nos anos 60.
Para o poeta Augusto de Campos, os elogios a Menotti del Picchia,
publicados por Mário de Andrade na revista Klaxon, de 1922, eram
exemplo de uma crítica "impressionista e indulgente".
"A
vida é sinfônica", explica Menotti na página 106 do seu romance A
Tormenta (1932).´"É uma orquestração prodigiosa harmonizando os mais
gritantes paradoxos e os mais incríveis absurdos." Esse é o desafio
proposto pelo poeta, através da multiplicidade do seu talento e de sua
longevidade. Inclusive o crítico Nogueira Moutinho, da Academia
Paulista de Letras, num texto de 1982, adverte que "ainda não foi feita
a decodificação definitiva da sua obra". A própria vida do poeta
estimula as contradições. Como compactuar, por exemplo, os ataques de
Oswald ao "Menor-ti del Piccolo" da segunda fase da revista de
Antropofagia (1929), com suas declarações de admiração á mesma pessoa?
"Menotti foi sempre o mais ansioso em descobrir, o mais generoso em
lançar, o mais ágil na discussão, no planfeto, na luta", diz Oswald.
A
relação entre os dois idealizadores da Semana de Arte Moderna é uma
novela de paradoxos. Quando lançou Moisés, poema bíblico, em 1917, no
tempo em que era aluno da faculdade de Direito do Largo de São
Francisco, Menotti foi atacado de maneira virulenta por Oswald.
Instintivamente, quase por vingança poética - já que pessoalmente
Menotti sempre foi elogiado cavalheiro, afável e generoso -, escreve,
no seu retiro em Itabira, pequena vila perto de São Paulo, o poema Juca
Mulato: um poema "brasileiro", ousado para os padrões da época, a
começar pelo título, pois mulato significa inferioridade racial no
Brasil demasiadamente dependente da cultura européia. Tão ousado que
até hoje seu filho Hélio insiste em que o poema pode entrar em qualquer
casa de família sem causar nenhum malefício. A verdade é que a
repercussão do poema e sua preocupação nacionalista amoleceu Oswald.
Além disso, como nota a professora Telê Ancona Lopez, da Universidade de São Paulo, entre 1920 e 1922 Menotti atravessava uma fase brilhante como jornalista: "A grande importância de Menotti del Picchia no quadro do Modernismo", conceitua a estudiosa da USP, "prende-se aos textos que ele publicou nessa época no Correio Paulistano, no Jornal do Comércio e mesmo no jornal O Estado de São Paulo. Sob os pseudônimos de Hélios e Aristófanes e com seu próprio nome, ele põe em discussão as idéias que corriam no meio dos vanguardistas de São Paulo, nome com que ele designou nossos primeiros modernistas".
Entusiasma com o trabalho do poeta nesse período, Telê destaca que
"esse textos, crônicas e artigos não só discutem a validade do
futurismo como mostram que a absorção das vanguardas por parte do
Modernismo brasileiro é um assunto muito rico e diverso". A professora
considera que este seja "talvez a melhor contribuição que ele deu à
literatura brasileira." Oswald, atento a tudo, reavaliou suas críticas
e acabou encontrando um bom pretexto para falar com Menotti. Marcou um
encontro com ele na casa da namorada Daysi, que estava doente e queria
conhecer o poeta de Juca Mulato. Nesse encontro nasceu a idéia da
Semana.
Era nas relações pessoais que Menotti conseguia quebrar o gelo provocado pela sua militância cultural. Especialista no trato com as pessoas, soube cultivar sua popularidade. Tinha também, para ajudá-lo, o carisma de um pacato pai de família. Casado de 1912 a 1930 com sua namorada de infância, Francisca Avelina da Cunha Salles, de tradicional família de Itapira, teve sete filhos: Ulpiano, Hélio, Wanda, Astyris, Miriam, Sulamita e Fúlvio. "Ele tinha uma aparência muito séria, mas gostava de brincar com os filhos", conta hoje Astyres del Picchia. E sempre foi muito generoso: preocupava-se com os pobres, tanto que até hoje a garagem de sua casa, na avenida Brasil, em São Paulo - onde passou a maior parte de sua vida - é utilizada por um vendedor de flores para depósito, franqueada pelo próprio poeta.
Astyres lembra que sua generosidade permitia que "os pobres tomassem conta" do jardim da casa, apesar das insistentes advertências da família sobre o perigo de assaltos, o que nunca ocorreu. Mas sua afabilidade era ainda mais explícita para com a família, hábito que, segundo Astyres, trazia no seu sangue italiano: "Ele reservava cada fim de semana para um dos filhos. E, no Natal, fazia questão de estar junto de todos. Para isso alugávamos um salão de festas, onde podíamos compartilhar unidos sua amabilidade. Observava, nestas ocasiões, que todos eram frutos da mesma árvore e que a família era sagrada".
Mas nem sempre sua vida pública deixou de interferir na rotina doméstica. Houve uma época em que tudo estremeceu. Em 1924, por exemplo, Menotti pagou caro por ser funcionário dos Campos Elíseos. Os soldados revoltosos do general Isidoro Dias Lopes entraram na casa do seu pai, o pintor Luís del Picchia, e destruíram quase tudo, inclusive os quadros e livros da casa. Apenas um quadro escapou do massacre e hoje ele é guardado com carinho por Hélio. Numa entrevista de 1982, Menotti traçou assim o perfil do seu pai: "Era um garibaldino, grande artista e revolucionário, poeta, jornalista, pintor, arquiteto, construtor. Só não sabia ganhar dinheiro."
Além
do quadro na casa de Hélio, o que sobrou da obra de Luís del Picchia
foram os afrescos que ornamentam a cúpula da Igreja Sagrado Coração de
Jesus, no bairro dos Campos Elíseos, em São Paulo. A admiração de Luís
por Garibaldi definiu o nome de Menotti, o mesmo do filho do
revolucionários italiano com a brasileira Anita. Era uma opção tão
ousada que o padre, na hora do batismo, impôs um nome cristão. Foi
assim que o poeta, nascido na antiga Ladeira São João, hoje, avenida
São João, em São Paulo, foi registrado como Paulo Menotti.
O menino tinha a quem puxar. Cedo revelou-se um artista ao construir um presépio. O padre comoveu-se e encomendou um Cristo para ser usado na festa da Ressurreição. Feito às pressas - como relata no seu livro de memórias A Longa Viagem -, o pobre Cristo trincou o barro mal cozido. Mas isso não desestimulou o poeta para as artes plásticas. Com as devidas ressalvas, é claro. "Considero-me um pintor amadorístico, apesar de ter quadros em museus importantes", disse ele em 1982. Um desses quadros, é "Arranha-Céus", que doou ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) e arrancou do seu diretor, Pietro Maria Bardi, um rasgado elogio: "O melhor quadro do Modernismo brasileiro". Hoje Bardi lamenta que Menotti não tenha se dedicado mais às artes plásticas, pelo menos à divulgação maior das suas obras. Tinha cacife para isso: era amigo de Assis Chateaubriand, idealizador do Masp, e fez inclusive o discurso inaugural do museu em 1947.
Falar em público era uma das suas paixões. Lembrava-se, emocionado, da multidão que aplaudiu seu discurso em Ouro Preto diante do corpo do poeta Thomaz Antonio Gonzaga e de sua amada, vindos de Portugal. E foi ferrenho defensor de causas polêmicas, como o divórcio, nas três legislaturas como deputado federal pelo PTB. No fim da vida confessou que "sentia nojo" da política, da qual se afastou em 1962, completamente desencantado. Mas as concicidências da sua obra com a política guardam algumas histórias curiosas. Como o fato de sua peça "Máscaras" ter sido encenada em 1930 por dois estreantes: Juscelino Kubitschek e José Maria Alkmim nos papéis de Pierrot e Arlequim.
A maior das ligações entre essas duas atividades aparentemente opostas
foi feita por um presidente da República: "As forças coletivas que
provocaram o movimento revolucionário do Modernismo na literatura
brasileira, que se iniciou com a Semana de Arte Moderna de 1922, em São
Paulo", disse Getúlio Vargas em 1952, nas comemorações do trigésimo
aniversário do evento, "foram as mesmas que precipitaram no campo
social e político a revolução vitoriosa de 1930". Essa declaração soava
como uma consagração política ao poeta. Num depoimento para o Museu da
Imagem e do Som, em 1978, Menotti brandia esse argumento contra as
injustiças que sofreu por ter desencadeado a Semana. "Tratam-nos como
criminosos, como réus, como se tivéssemos feito algo de errado com
aquele barulho todo." Esse, aliás, é um dos raros desabafos do poeta,
que sempre fez questão de dizer que "não alimentava ódios nem invejas e
que a polêmica e a contradição fazem parte da vida".
Para quem se debruçar sobre a contradição maior - a de ter desencadeado a Semana e virado inimigo do movimento Antropofágico - o poeta dá uma pista no seu romance A Tormenta: "Eles mesmos - 'coitados!' - eram vítimas de uma ilusão. Existiria de fato essa estética indígena, de linhas genuinamente crioulas, uma estética destacada, autônoma, original, inédita, liberta das correntes artísticas ocidentais? "Menotti tinha suas razões para não gostar dos antropofágicos. Na segunda fase da revista, seu livro Paixão, Angústia e Morte de Dom João foi denunciado como plágio de Guerra Junqueiro. Mas seu amigo de infância, Paulo Bonfim, da Academia Paulista de Letras, sem se referir a esse ataque, lembra que fez a ligação entre Junqueiro e Menotti - como afinidade temática, e não como plágio - "pelo sentido panteísta, sensual e polêmico da sua obra". A comparação agradou aos portugueses, que foram assistir a palestra de Bonfim em Lisboa sobre a Semana, quando foi comemorado o cinqüentenário do evento.
Bonfim fez o discurso fúnebre para seu amigo, dizendo: "Entre todos os personagens que criou, o mais fascinante foi ele próprio. A ele não podemos dizer descanse em paz, mas prossiga sempre". Pois Bonfim não se conformava com o desaparecimento de um espírito caleidoscópico, querendo, num rasgo místico, que ele continuasse sua obra. Na homenagem a Menotti, Bonfim dá o sinal para os sobreviventes: continuar pesquisando um artista completo, que ainda encerra inúmeros desafios. Pois foi o destino do poeta ter-se dedicado a tantas atividades díspares. Ter lutado sem ofender; ter constituído família e continuar ligado a ela, apesar de ter escolhido, a partir dos anos 30, uma nova companheira, a pianista Helena Rudge, com quem conviveu durante 40 anos; ter sido revolucionário sem trair suas raízes parnasianas e simbolistas, como observa Nogueira Moutinho. E ter sido atacado e lido como ninguém. É por isso que a vida e a obra do poeta possuem todos os elementos para cumprir o desejo de Paulo Bonfim. É um espírito que ainda não completou definitivamente sua trajetória.

