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SOBRE O BEST-SELLER D. PEDRO II
Published: Sep 02, 2007 - 05:32 PM
Nei Duclós
O livro "D. Pedro II - Ser
ou não ser" (Companhia das Letras), de José Murilo de Carvalho, foi
talhado ao gosto da nossa época. O autor construiu o perfil ideal de um
homem público, o que falta desesperadamente nos dias de hoje. Quem era
o Imperador? Tudo o que não temos: um estadista erudito, amante das
artes e ciências, que permitiu e promoveu a educação e a liberdade de
imprensa, democrático ao trabalhar o rodízio das tendências políticas
no poder, entre outras qualidades.
Para
aprofundar a humanidade de seu biografado, Murilo destaca a vida
amorosa fora do casamento pautada pelo soneto, a relação respeitosa com
a imperatriz e o deslumbramento do viajante tardio que apertou a mão de
grandes personalidades. Trata-se de um retrato irretocável, em que até
os deslizes, como a incapacidade de fazer sucessor, ou a falta de
talento, como a imperfeições dos poemas, fazem parte da homenagem ao
monarca injustiçado. Com este best-seller, fica consolidada a
reconciliação do personagem com a nação exausta de corrupção e
ressentida em relação a uma república que prometeu mas não cumpriu.
Por
ser uma obra que prima pelo anacronismo, pois busca no passado o
alimento que falta no presente, e ao mesmo tempo ser um livro
importante, pois resume a série de revelações que a historiografia
conseguiu ao longo de um século, o trabalho de Murilo reveste-se da
mesma identidade que aponta em seu personagem: a dualidade, a divisão
interna. No caso de Dom Pedro, segundo o autor, seria “um Habsburgo
perdido nos trópicos’, o que reforça o velho preconceito de que ninguém
é brasileiro. No caso de José Murilo de Carvalho, seria um livro datado
que consegue transcender suas limitações.
“D.
Pedro II” transcende porque é uma janela para a História do Brasil
sempre oculta, já que nada ou pouco sabemos, não pela omissão dos
historiadores, mas pelo pouco caso a que a educação foi atirada no
Brasil. Nada sabemos porque nada nos ensinam. Precisamos ir a campo
garimpar preciosidades, e foi assim que muitos de nós fizemos. No meu
caso, debulhei centenas de livros de memórias para entender as guerras
em que meu pai e meu tio se meteram, nos anos 20 e 30. Para esse
garimpo, de todas as épocas, contamos com a valiosa contribuição de
grandes historiadores como Murilo, autor de várias obras importantes,
como a que aborda o imaginário da República, entre outras.
Para
fazer justiça ao que estou apontando, as contradições do best-seller,
também fiquei dividido na minha leitura. Como estou muito defasado em
relação ao personagem, pois não li trabalhos importantes que vieram à
tona nas últimas décadas sobre o segundo Império, gostei de saber
várias coisas sobre a personalidade do imperador. Tenho travada uma
novela que vou escrever sobre um episódio muito significativo de uma de
suas viagens e por isso Murilo veio bem no momento certo.
Fiquei
invocado com o poder que a imprensa tem sobre o imaginário da nação.
Praticamente fomos criados no desprezo à Monarquia e agora descubro que
isso é fruto exatamente da grande liberdade de imprensa permitida pelo
monarca, que jamais interferia nas redações e deixava inclusive que os
ataques publicados fossem anônimos. Bem ao contrário da época colonial,
quando fomos impedidos de imprimir jornais, tanto que o primeiro jornal
brasileiro, o Correio Braziliense, era impresso em Londres.
Para
nós, que nada sabíamos sobre o Império, aquelas caricaturas, o deboche
dos republicanos e tudo o que se escreveu sobre Dom Pedro II, ficaram
valendo como fato e verdade. Aconteceu o mesmo em relação à época
militar da ditadura, 1964-85 (desde 1985 estamos na época civil da
ditadura). Como havia rígida censura, a população só soube das coisas
depois do afastamento dos militares. Mas o que vale, no imaginário,
penso eu, é aquele período censurado. Não é raro ver manifestações de
saudades da farda no poder. O argumento é que sob o tacão das botas e
botões dourados nada disso que vemos hoje existia. Vejam só o que faz a
censura à imprensa. As acusações, as revelações, as informações, dentro
desse raciocínio tosco, seriam apenas revanche, vingança, portanto não
valem.
Ao mesmo tempo que faz justiça ao seu
personagem, Murilo o veste a rigor para os dias de hoje. É quase um
manifesto pró-restauração monárquica, o que seria um exagero de
abordagem. Mas cai direitinho no gosto de quem cansou de tantos erros.
É um risco a que o autor se entrega, sentindo talvez um gostinho de
vingança contra o que nos aprontaram depois. Incendiaram um estadista
que nos legou a soberania de um país de território íntegro, a elite
política consolidada e inúmeras instituições importantes que semearam o
que temos de melhor. Terminamos o livro e uma aclamação fica nos
ouvidos: Viva o imperador! Prefiro: Longa vida à História feita com
esforço, inteligência, sensibilidade e talento.
A História serve para a reconciliação. Não para o perdão
covarde dos crimes, mas para o reconhecimento mútuo desta porção
coletiva que divide o mesmo território e que, por isso mesmo, precisa
de paz na diferença, auto-estima legítima e solidez de princípios
nacionais que nos identificam. Pois nenhum de nós é um estrangeiro
"perdido nos trópicos". Somos aqui, descendentes de qualquer origem,
filhos do "milagre português". Estamos, a la Dickens, no inverno da
nossa desesperança. Precisamos de insumos para sobreviver.

