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QUEM TEM OUVIDOS


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Quem tem ouvidos - um livro de João Batista Mezzomo

QUEM TEM OUVIDOS

Autor: João Batista Mezzomo

 

 RESUMO

 

           

1 .  A GESTAÇÃO DO OCIDENTE E O CASULO DO MEDO

 

O presente livro é a exposição de uma idéia. A idéia exposta nos diz, entre outras coisas, que a Europa Ocidental é um ser orgânico, que se assenta e se nutre a partir de uma raiz dupla: por um lado ela é racional, pela raiz grega; por outro, ela é fundamentalista, pela raiz que se afunda em um passado envolto em névoas, mas cujo caminho até nós denominamos “tradição judaico-cristã”.

 

A primeira raiz se refere à sua gestação e nascimento, na Grécia da época de Parmênides e Sócrates, depois do qual ela saiu da caverna em que só via sombras, e como criança foi desbravar um mundo agora iluminado, mas ele não era exatamente como supunha. Este período da história da Europa corresponde aos impérios de Alexandre Magno e Roma. E justamente, para sair pelo mundo ela teve de andar e abrir o flanco, de modo que algo saiu do meio daquilo que ela não supunha e a paralisou de medo, tornando-se a sua segunda raiz.

 

A partir daí, as duas raízes da Europa trazem até ela duas seivas, que muitas vezes se apresentam como antípodas. No entanto, são como que as duas pernas que a fizeram andar e dominar o mundo. Por isso, as naus que saíram da Europa em direção ao , e neste ato abriram a Era Moderna, eram artefatos da técnica e da racionalização do mundo – herança grega. Mas também costumavam ter cruzes em suas velas, ou no peito de seus ousados tripulantes, a denotar que não eram somente deste mundo. E na medida em que a Europa tinha tirado o divino das coisas – e por isso pode fazer ciência – estabelecendo um laço indireto, mas previsível com o sobrenatural, na forma do Deus único e seu filho, supliciado e morto naquela mesma cruz, ela pode desbravar o mundo e dominá-lo.

 

Então, o momento em que a Europa se formou como um ser adulto é justamente a época histórica da consolidação desta duplicidade: a Idade Média. Aqueles séculos que costumamos identificar como uma época de trevas correspondem na verdade a um período de espera, de reparação e preparação – uma espécie de adolescência – em que o ser orgânico que é a Europa esteve fechado num casulo.  Por ser a confluência de duas raízes, as quais se colocaram mutuamente em cheque, ela teve de permanecer próxima à terra até se curar do medo que sempre se origina dessa perplexidade: o mundo nunca é como supomos. Mas depois que ela se curou e venceu o medo, pode romper o casulo e voar. E em seu vôo, construiu as plataformas e as naves que lhe permitiram arremessar os seus “colombos” em direção ao Ocidente, numa viagem rumo ao futuro, a qual conhecemos muito bem.

 

 

 

2. UMA NAVE INCANDESCENTE

 

A idéia igualmente nos diz que a Europa Ocidental, como ser orgânico que é, evolui e continuará a evoluir desde seu nascimento até sua morte, ou desaparecimento. Mas como costuma acontecer no movimento evolutivo, presumivelmente, o seu desaparecimento dará lugar a um novo ser, que partirá do ponto em que ela parou, e se alimentará de sua herança. De outra sorte, ela também surgiu daquilo que existiu em seu passado, e desapareceu. E se ela não tem presente com clareza aquilo que já foi, é devido a um esquecimento que acomete o ser quando ele sofre uma transição para um novo elo na cadeia evolutiva.

 

Da consideração do movimento evolutivo que se faz, na parte 2 do livro, com o uso inclusive de ferramentas matemáticas avançadas, até hoje exclusivas das ciências exatas, conclui-se, entre outras coisas:

 

1 – Quando um ser qualquer se aproxima de um ponto de transição, ele passa a imitar o ser correspondente ao elo seguinte da cadeia evolutiva. Porém, apesar de se assemelhar ao seu sucessor evolutivo, ele é intrinsecamente diferente, pois está no seu limite, enquanto o seu sucessor aí está iniciando sua caminhada. Usando uma imagem proposta no livro, o que ocorre assemelha-se a um sem número de balões, colocados um dentro do outro em ordem de tamanho. O passar do tempo e o acúmulo de experiências enche de ar o primeiro balão, que em determinado momento se aproxima do segundo e se confunde com ele, até explodir, doando seu ar ao seu “sucessor e evolutivo”, e assim sucessivamente. Exemplificando, um primata na eminência de tornar-se humano simula o raciocínio, mas isso é antes uma imitação, um ensaio, ou mesmo uma farsa. De qualquer modo, uma farsa necessária, que se tornará real no ser humano.

 

2 – A consciência surge no movimento evolutivo a partir do pensamento, visto este como o processamento de informações recebidas do meio externo, por um intelecto, gerando uma resposta. Neste sentido, todo o ser vivo pensa, ainda que não esteja consciente disso. A consciência, então, eclode apenas em determinado ponto do processo evolutivo e é justamente o seu surgimento que origina o ser humano, quando o pensamento torna-se consciente de si mesmo. Este “dar-se conta” do pensamento, que denominamos “consciência”, não ocorre como algo inusitado, antes é o resultado inexorável de um estreitamento da ligação entre o “dentro” e o “fora” do ser, no tempo, como matematicamente se demonstra.

 

Por outro lado, uma vez surgida a consciência, ela vai trazendo “para dentro” de sua iluminação cada vez mais aspectos da realidade, a qual se apresenta como intrinsecamente diferente do intelecto, apesar de com ele possuir analogias evidentes. E justamente, na descoberta de tais analogias entre realidade e intelecto, as quais constituem o que conhecemos como lógica, é que surge finalmente a razão, que a partir de seu surgimento passa a ser a marca do próprio ser humano, visto como “homo rationalis”. Porém, intui-se pela análise matemática que, no elo evolutivo representado pelo ser humano, a razão aparece apenas num segundo momento, como resultado da descoberta de um comportamento da realidade – uma lógica – que foi trazida para dentro da iluminação da consciência. Ou seja, se a consciência é o pensamento que se tornou consciente de si mesmo, a razão é a lógica tornada consciente.

 

3 – Uma vez que surge a razão, surge com ela o “discurso racional”, ou seja, a linguagem falada. E com ela um mundo de nomes e palavras, diverso do silencioso mundo da emergência do ser humano. Esta primeira transição, então, retira o ser humano de um estado primordial, onde possuía uma percepção diversa da dos dias atuais. Lá ele tinha, presumivelmente, uma percepção da realidade que é a mesma que tem o restante da natureza e as próprias crianças, na primeira infância. Tal abandono da percepção da primeira infância coletiva da humanidade seria justamente o que significa a “expulsão do paraíso”, da metáfora bíblica. Uma expulsão que todos voltamos a sentir, quando somos introduzidos pelos adultos, em nossa primeira infância, num mundo composto de coisas e palavras. E nós adultos, neste caso, quando oferecemos a racionalidade a nossas crianças, nos revestimos, ainda que de modo inconsciente, do papel da famosa serpente.

 

4 – O surgimento da razão, da mesma forma que dissemos em relação ao surgimento da consciência, está longe de se constituir em algo inusitado, antes é decorrência do próprio movimento evolutivo que conduz a natureza em geral, incluída a matéria inerte. E podemos vislumbrar, a partir da analise matemática feita, que cada elo evolutivo passa internamente por saltos iguais aos que fizerem surgir pensamento e razão. Exemplificando com o caso do ser vivo, o primeiro salto foi o de seu surgimento, a partir da matéria inerte. O segundo o do surgimento da consciência, quando aparece o ser humano num estado “antecedente da razão”.  O terceiro salto, então, é o da eclosão da razão, quando surge o ser humano visto como “homo rationalis”. Inicia-se então um novo momento evolutivo, agora no âmbito coletivo, o qual terá igualmente de atravessar fases, obedecendo à mesma formatação.

 

            Assim, o primeiro salto do homo rationalis foi o de seu surgimento, quando ele sofreu uma primeira inversão a partir do homem do estado “antecedente da razão”. Antes disso, a relação que o ser humano tinha com a natureza poderia ser reputada “mágica”, pois ela ultrapassava o que hoje consideramos “natural”. A primeira inversão ocorreu então como uma transição do silêncio original em que surgiu o ser humano para a constituição de um mundo de nomes e coisas: foi o surgimento da razão, que “expulsou o ser humano do paraíso” e o jogou na “fase mítica”, onde a relação com a natureza, que era direta, passou a ser mediada pela razão. O que era mágico adquiriu nomes e passou a fundamentar o mundo na forma de deuses e mitos.

 

Da fase mítica para a construção racional de mundo foi um segundo salto, que ocorreu concretamente no chamado “milagre grego”, quando a antiga lógica tornou-se a “lógica formal”, e a antiga razão tornou-se a “razão especulativa”, originando o modo ocidental-europeu de fundamentar o mundo, que veio a se tornar hegemônico após o final da Idade Média. De modo a demonstrar que também este ser que é a Europa não surgiu de modo inusitado, antes advém do antigo como resultado de um movimento evolutivo que a tudo arrasta. Por fim, presumivelmente, um novo salto levará a Europa e o ser humano para o seu fim, e o início de um novo elo.

 

Se considerarmos que a marcha da vida sobre a Terra se assemelha ao navegar de uma nave, poderíamos dizer que a Europa é uma nave que possui um farol: a razão especulativa a fundamentar o mundo. Mas, mais que ser o fundamento de seu mundo, o farol da nave ilumina o caminho que vai adiante e atrás, permitindo que a Europa olhe para o “outro”, e se ponha a caminho em sua direção, com seu brilho conquistando-o. E quando ela foca um aspecto do caminho, ela o ilumina, mas em contrapartida, põe o restante da realidade na escuridão. E, depois de a tudo iluminar, separadamente, existe um momento, próximo ao fim da Europa, em que o farol finalmente volta-se sobre si mesmo, numa simulação do passado, e a nave torna-se incandescente: é o ponto em que nascem os lusitanos. Quando chegamos neste ponto, é sinal que estamos próximos do fim, e que é hora de zarpar para outros mares.

 

5 – Por fim, deduzimos a partir da analise matemática, e da observação empírica, que todo o estado estável apresenta três dimensões “deste mundo” e uma outra que parece estar fora dele, e é de onde advêm as primeiras três. De modo que a última parece advir de fora do mundo para formá-lo, nas três dimensões, e quando se recolhe leva-as de volta para o “”, de onde advieram.

 

Exemplificando, as três dimensões do espaço parecem advir do tempo, cuja sede esta fora do mundo concreto, e com ele se fundem quando tal mundo concreto volta para o nada de onde teria vindo. Podemos entender então porque “ser é tempo”, segundo . Vejamos outros exemplos.

 

No âmbito coletivo, a sociedade feudal se baseava em três poderes deste mundo, o dos senhores feudais, o dos servos e o do estado feudal. Os três afirmavam cada um ao seu modo o mundo medieval, de modo a sustentar o sistema a partir de três bases. Mas havia ainda um quarto poder, pretensamente de outro mundo: a Igreja. Durante o período de estabilidade do sistema feudal existia uma mentira que o envolvia, justamente a de ser a Igreja fundada em outro mundo. Pois ela estava misturada com os poderes do mundo, e era de fato quem os ungia. Mas quando a mentira se tornou verdade, no limite em que isso é possível no “mundo real”, a Igreja se separou dos poderes do mundo e a sociedade medieval conheceu o seu colapso.

 

Um colapso que fez surgir a sociedade moderna e o sistema capitalista. Que por seu turno se fundam em três visões de mundo, a saber: a da classe empresarial, a dos assalariados e a do estado moderno. Mas existe ainda um quarto poder e uma mentira. O quarto poder é a mídia e a mentira é que ela representa o interesse das pessoas em geral. Pois ela esta misturada aos poderes do mundo e é quem de fato os unge. Mas quando a mentira se tornar verdade, no limite em que isso é possível no mundo, a presente organização igualmente terá de encarar seu fim. E se olharmos o panorama atual, em que não podemos reconhecer claramente as diferentes visões de mundo, e em que a mídia corre em direção a tornar sua mentira verdade, poderemos intuir que este fim esta próximo. Mas no momento, apesar de percebermos que o mundo muda freneticamente, e intuirmos que estamos no limiar de uma grande transição, não sabemos dizer para onde vamos, em vista de certa cegueira.

 

 

3. UM CEGO A SE MIRAR NO ESPELHO

 

O surgimento do ser que é a Europa se deu numa primeira anunciação na Grécia dos tempos de Parmênides e Sócrates. Naquele ponto o ser humano já estava em alguma medida cego para a essência, que reside no silêncio. No entanto, este novo aprofundamento da racionalidade ampliou sua cegueira, e fez surgir como anunciação aquilo que se tornaria hegemônico aproximadamente 2.000 depois, e que denominamos “fase reflexiva”, na qual estamos imersos até os dias atuais.

 

Esta primeira anunciação da fase reflexiva se dá quando a razão fortalecida desbanca a construção mítica da realidade e passa a ser ela mesma o suporte do mundo. Porém, mais uma vez, ao contrário de ser ato inusitado, como se depreenderia da conhecida expressão “milagre grego”, a transição aqui também é largamente preparada. Percebe-se, no que tange à , que mesmo dentro da fase mítica a razão veio avançando no controle do mundo, até dar o salto que tomou de vez o controle. Na consideração da Ilíada e da Odisséia de Homero, duas obras permeadas por um intervalo de tempo, percebe-se que o caos da primeira evoluiu para uma organização das divindades, na segunda, sob o comando de Zeus, agora senhor do Olimpo. Porém, a razão em evolução queria mais, queria o controle total. E ela de fato o conseguiu, dando origem à forma como até hoje fundamentamos o mundo. E essa espécie de simulação da construção racional ocorrida dentro da fase mítica demonstra mais uma vez como, no movimento evolutivo, a realidade sempre é antecedida por uma espécie de simulação.

 

Se esta conquista de uma racionalidade mais avançada, que denominamos razão especulativa, deu ao Ocidente uma capacidade superior de lidar com o mundo, ela por outro lado ampliou a interdição do mágico. Se denominarmos “abstrato” aquilo que ficou interditado, em contraposição com o concreto, que passou a ser sinônimo de mundo real, podemos dizer que o ser humano, a partir do “milagre grego”, ampliou a sua cegueira em relação a tal abstrato, num processo que iniciou com os gregos e evoluiu até o amadurecimento desta terceira fase, com a eclosão da chamada Era Moderna. De tal sorte que o abstrato, que para os gregos ainda era real, como o é para todos os povos que se encontram na fase mítica, passou a ser, entre os modernos, sinônimo de uma realidade apenas virtual.

 

A inversão de mundo operada pelos gregos introduziu uma forma absolutamente nova de viver e pensar. Como costuma acontecer neste tipo de transição, a alteração não se restringe a apenas um aspecto, mas a um conjunto deles, que ocasiona uma mudança total e um esquecimento da forma antiga, relegada agora a uma condição inferior. Observamos, então, no caso da Grécia Antiga, o surgimento de todas as características presentes até os dias atuais, como a representação teatral, e desmistificação do mundo, bem como um aspecto que nos mostra de forma privilegiada como se deu esta nova interdição do mágico: a criação de um espaço especulativo e da própria filosofia.

 

Justamente, o surgimento da filosofia como a conhecemos até os dias atuais pode ser resumida na célebre frase de Parmênides: o ser é, o não-ser não é. Na medida em que a totalidade se mostrava incompreensível à luz deste aprofundamento da racionalidade, uma parte teve de ser deixada de lado, e surgiu então a filosofia, desde aquele momento, trilhando o caminho do ser, e recalcando o não-ser – outro nome do abstrato e do mágico – cada vez mais para o fundo de nosso esquecimento. De tal forma que aquele conselho de Parmênides, acolhido por Sócrates, tornou-se um rio que veio vindo desde o mundo antigo, passando pela Idade Média, e desta forma, “vindo nos criou”, para usar um verso de Fernando Pessoa.

 

De fato, apesar de muitas vezes não nos darmos conta, o conselho que nos deu Parmênides foi seguido por nós, ou por outros em nosso nome, por isso somos o que somos. Porém, se ele nos aconselhou a deixar de lado o não-ser, pois território pantanoso, em nenhum momento nos disse que o não-ser não existe. Antes pelo contrário, ao declará-lo perigoso, atestou sua existência. Mas estamos há tanto tempo neste caminho, e já andamos tanto nesta trilha, que acabamos nos esquecendo que o não-ser, que não é, apesar de não ser existe. De tal forma que nem mesmo conseguimos, nos dias de hoje, compreender como possa existir algo que “não é”. Na construção de um mundo sob o primado de uma razão que, em seu auge, se mostrou profundamente insensível em relação àquilo que não compreende, nos tornamos completamente cegos para a existência do não-ser, a tal ponto que a própria língua moderna evoluiu para uma identificação total entre o ser e o existir. Como um Fausto a se mirar no espelho, após subjugar o mundo o Ocidente olha para a imagem refletida, conquista de uma racionalidade superior, e só enxerga a si mesmo. Tornou-se completamente cego e intolerante para o substrato de toda a vida e de toda a realidade, o qual relegou para a inexistência de um “nada”.

 

Todavia, é possível que precisemos nos tornar cegos para que possamos novamente tocar o mundo, com as mãos. E justamente, o século passado testemunhou o surgimento de uma filosofia que concedeu ao nada um outro “status” e resolveu sair pelo mundo em busca das coisas mesmas: a chamada fenomenologia-existencial. Este tatear de cego em busca das coisas mesmas, no terreno da especulação filosófica, remete a filosofia novamente para o seu início, em Sócrates, e é o equivalente a um sem número de posturas diante da vida adotadas nos anos recentes, e o sinal de que estamos novamente na vizinhança daqueles perigosos e férteis pântanos do não-ser. E que, possivelmente, nos encaminhamos para descobrir aquilo que nós mesmos encobrimos, conduzidos em alguma medida pelo próprio encoberto, o qual algumas vezes denominamos “natureza”, outras vezes “Deus”, outras ainda “nada”.  Se o ser humano deseja a liberdade – e ele deseja – deverá querer pôr finalmente luz sobre uma instância alhures que parece nos conduzir, e que advém para dentro da vida mesma e adquire nomes, e funda o próprio mundo.

 

Ademais, se é verdade que o estado futuro já se mostra no presente sob a forma de um ensaio, farsa ou simulação, é possível que já estejamos ensaiando o estado futuro, conduzidos em alguma medida por aquela instância que a tudo comanda. Tentemos então seguir o fluxo desta hipótese.

 

 

4 . NAS PEGADAS DO NÃO-SER

 

Segundo nossa concepção, o abstrato, que resultou interditado desde a primeira inversão, nem por isso deixou de existir, antes pelo contrário. Dentro de sua interdição ele pressiona e reivindica o que lhe é de direito: o “status” de realidade. E neste pressionar ele advém para o mundo e o funda. No que concerne à nossa consciência, esta reivindicação do abstrato eclode como sinais que podem criar coisas no mundo, os quais costumamos denominar, em nossa vida cotidiana, simplesmente “intuição”.

 

 Nesta perspectiva, o ser humano desde sempre é conduzido pelo abstrato, ainda que detenha alguma margem de decis ão sobre sua vida. Se olharmos para a história da humanidade, veremos que todas as principais decisões que a carregaram para algum ponto foram tomadas a partir de forte influência intuitiva. Podemos classificar neste âmbito toda a arte, toda a religião e toda a metafísica, incluídas nesta última, em alguma medida, a filosofia e as próprias ciências da natureza. Da mesma forma, todas as ações de guerra, domínio, invasão e alastramento das culturas no âmbito planetário foram como que conduzidas por vontades cuja sede não se situa no mudo concreto.  

 

Ademais, podemos perceber como o não-ser, que ultrapassa os moldes da razão, esteve sempre num contraponto com o ser, e neste sentido moveu e ainda move a roda do mundo. Apenas para citar um exemplo, era ele que estava por baixo quando a Escolástica foi a pique, no final da Idade Media e inicio da Era Moderna. Pois o mundo, como o descortinado pela razão, mostrou-se um equivoco, e denunciou que ela é limitada para antecipar a realidade. E isso ocorre justamente por nossa noção de realidade prender-se unicamente ao ser, deixando uma parte de fora. E quando nossa visão de mundo atinge o impasse, a parte encoberta faz o velho edifício desabar, para que surja um novo.

 

Mas não é somente na hora da transição que o abstrato se mostra. Pois o mundo construído pela cultura se funda justamente em produtos de sua eclosão. E as formas como o abstrato eclode podem variar em função do tempo e da cultura, ou seja, da própria fase em que se encontra aquela sociedade humana específica, mas basicamente elas se apresentam de quatro formas, as quais denominamos “rios do abstrato”. São elas, a saber, a arte, a religião, a metafísica e a loucura.

 

É certo que cada um destes rios tem os outros em alguma medida. Existe loucura em alguma medida na religião, na arte e na metafísica. Existe metafísica em todos os outros três. Assim como existe arte e religião em todos eles. Ou seja, existe um ponto em cada um dos caminhos que o liga aos demais. A denotar que fluem todos eles de uma mesma fonte originária, a qual, por não estar no concreto, só pode ser uma: o abstrato. Porém, da mesma forma que o tempo vem e forma o espaço, que Igreja e mídia vêm para ungir cada uma o seu mundo, aqui também é a loucura que vem e origina arte, religião e metafísica. E se a loucura adquire em nós uma face unicamente patológica é justamente e somente pela incapacidade da razão em compreender aquilo que lhe ultrapassa.

 

De modo que, apesar das diferenças, os quatro rios do abstrato possuem entre si a semelhança de eclodirem em alguém que procura algo, e nesta procura encontra. Quando encontra, torna-se receptáculo de algo que quer vir para o mundo para fundá-lo. E de fato, se quem o procura se revestir dos atributos necessários, sua produção emerge do abstrato – e nesta emergência ainda é loucura – para tornar-se arte, religião ou metafísica. Neste caso, poderá tornar-se pertinente dentro da cultura, fundando-a, e ao próprio mundo. E depois que o mundo resulta assim solidificado, ele esquece que se originou de algum modo da loucura.

 

Então, se metafísica, religião, arte e loucura são formas como o abstrato interditado vem e constitui o mundo, vejamos se da consideração de cada um desses rios, em sua totalidade e sob este primado, advém algo que nos possa auxiliar em nosso anseio de a tudo desvendar. De modo que possamos sair da inércia e nos pôr a caminho em direção à sede de toda a realidade, para a qual estamos cegos.

 

 

4.1 – A EUROPA JAZ, POSTA NOS COTOVELOS: O CAMINHO DA ARTE

 

No mundo antigo a arte era basicamente imitação da natureza, confundindo-se o artista com o artesão. Mas na verdade era mágica a possibilidade dessa imitação, da mesma forma que era mágico em nossa infância desenhar um cavalo, ou outra coisa qualquer.

 

O que fazia aquela imitação ser mágica era o fato de vir “do nada” e tornar-se algo que tocava a todos, numa simulação da própria emergência do mundo. Porém, o mundo antigo ruiu, ou, de outro modo, a civilização ocidental-européia se tornou coletivamente adulta, de modo que a imitação passou a ser “coisa de criança”. 

 

De fato, a Era Moderna trouxe com ela o domínio de uma técnica superior, e a mera reprodução da natureza perdeu grande parte de seu cartaz, como arte. Agora o abstrato deve emergir para o concreto em formas que mantêm escondida a origem, pois o mundo se funda numa razão que avançou e nos tornou mais cegos para a essência de tudo. Então, o artista passou a ser quase um xamã, pois deve deixar que “outro” lhe tome e lhe comande: este outro é o abstrato. De modo que, neste modo de ser da arte moderna, o abstrato, que a tudo comanda, vem e nos manda sinais.

 

            Consideremos da arte aqui apenas a literatura. Consideremos dela apenas alguns relatos. Vejamos se podemos ver afinal alguns destes sinais que o abstrato nos envia, e para onde ele nos quer conduzir. Fazemos a seguir um breve apanhado de três relatos conhecidos, já com uma interpretação na linha que preconizamos.

 

O primeiro relato é o do Gênesis. Diz ele que existiam, no jardim da emergência do ser humano, duas árvores proibidas ao homem, a do conhecimento do bem e do mal e a da vida. Javé Deus colocou no caminho da primeira uma interdição. Mas o homem mesmo assim tomou de seu fruto e comeu, conquistando por isso o discernimento do bem e do mal. Então, seus olhos se abriram e ele viu que estava nu. Javé Deus, percebendo que o homem conquistara o discernimento do bem e do mal e agora poderia colher da segunda árvore, e viver eternamente, colocou em sua guarda um querubim, com uma espada chamejante. E o restante da historia é bem conhecido.

 

Pois bem, o relato se refere a algo real, mas a interpretação que normalmente fazemos, de uma desobediência aos ditames de “Deus”, deve ser vista como uma forma imatura de interpretação. Como a criança que põe a mão no fogo e se queima, e se sente culpada por não ter seguido o conselho dos adultos. Mas estava em seu destino colocar a mão no fogo, para descobrir na prática o limite da realidade, que já fora indicado pelo conselho dos adultos. E o conselho dos adultos, por seu turno, foi dado induzido pela própria natureza, para sinalizar o limite, mas todo o adulto sabe e mesmo deseja que a criança o rompa, para poder descobrir ela mesma o limite, e desta forma se tornar adulta.

 

Uma interpretação adulta nos mostraria, então, que a emergência da razão nos tirou algo, algo do qual necessitamos para colher da segunda árvore. Mas um dia fatalmente teremos de voltar para aquele jardim, para colher de seu fruto. Possivelmente, antes de voltarmos para lá, teremos de perceber que o presente estado de cegueira, que nos acometeu quando conquistamos o discernimento do bem e do mal, tem também ele um sentido.

 

O segundo relato é o do enigma de Zaratustra, do livro Assim Falou Zaratustra de (Da visão do enigma). Tal passagem nos mostra a figura de um pastor com uma serpente presa na garganta. Aconselhado por Zaratustra, o pastor morde a serpente e a cospe fora, tornando-se neste ato um “iluminado que ri”. Um riso que impressiona Zaratustra, por tornar a velha existência sem sentido.  Terá o ser humano de se livrar da serpente, ou do fruto que ela trouxe, que ficou preso em sua garganta, vencendo a razão e indo para um estado em que se tornará um iluminado que ri. Ou seja, iluminado pelo esclarecimento da verdadeira realidade, ele ri por descobrir a ilusão fetichista em que esteve preso por tanto tempo: todo o tempo em que foi “homo rationalis”.

 

O terceiro relato é o do poema Mensagem, de Fernando Pessoa. Ele se refere efetivamente a uma mensagem do abstrato que nos diz, entre outras coisas, que ainda “falta cumprir-se Portugal”. Nesta perspectiva, o descobrimento da América foi apenas um necessário ensaio que fez a Europa, uma simulação do verdadeiro descobrimento que ainda falta fazer, o descobrimento do “encoberto”, ou seja, do abstrato. E de como tal descobrimento tem relação com a cultura portuguesa, que é uma cultura que nasce no fim da Europa, e um de seus sentidos justamente é o de ultrapassar este fim, conduzindo o ser orgânico que é a Europa para um outro momento.

 

Por fim, o quarto relato é o poema Fausto, de Goethe. Fundado em histórias que emergiram de forma espontânea em meio ao povo, no final da Idade Média e início da Era Moderna, numa de suas versões o poema nos fala de Fausto, um homem instruído que, na meia idade, sente sua vida vazia. Procurando novos desafios ele acaba por efetivar um pacto com Mefisto, popularmente identificado com o diabo, indo contra a própria natureza para poder conhecer todas as suas possibilidades. Revestido dos poderes mágicos de Mefisto, Fausto torna-se empreendedor e acaba por possuir um verdadeiro império. Mas ao final, quando tudo lhe pertence, Fausto se torna cego.

 

Também o Ocidente resultou cego após dominar o mundo. Por isso, tornou-se completamente intolerante em relação ao diferente de si mesmo, o qual quer fazer à sua imagem e semelhança. Mas o outro é parte de si mesmo, e se a cortarmos fora resultaremos imensamente diminuídos. E apesar de entendermos isso, conseguimos cada vez menos transformar esta compreensão numa vida aberta e acolhedora. Aqui também, é possível que tenhamos de sair a tatear, para redescobrir o mundo longe do “ponto de vista” redutor que o julgamento da razão nos permite.  Para isso, teremos de sair da simples reflexão e implementar uma nova “compreensão” das coisas, que não seja meramente especulativa, mas que ao mesmo tempo não se restrinja a ser um agir ainda preso no paradigma de bem e mal.

 

 

4.2 – AS ESTÁTUAS DE DÉDALO – O CAMINHO DA METAFÍSICA

 

            Já nos referimos linhas atrás ao caminho da metafísica, quando mencionamos que a opção de Sócrates pelo ser tornou-se um rio, que vindo nos criou. Vasculhemos agora brevemente sua nascente.

 

No diálogo Mênon, de , Sócrates nos fala das estátuas de Dédalo. Segundo o que parece, era do conhecimento de todos, naqueles dias, que existiam dois tipos daquelas estátuas. No primeiro, as estátuas eram feitas como os pés unidos, por isso não podiam andar. No segundo, no entanto, eram feitas com os pés desligados, e então podiam se locomover e sair pelo mundo. Sócrates usa o exemplo para dizer que as estátuas imóveis têm mais valor, pois podem se tornar propriedade de alguém, enquanto as segundas não, pois poderiam fugir a qualquer momento. Usa o exemplo para demonstrar como o conhecimento sistemático vale mais que o eventual, dentro de uma linha que veio a ser adotada e gerou, em última instância, o conhecimento científico e a própria forma como encaramos o mundo.

 

Porém, tal passagem deixa ver algo que nos escapa, numa consideração apressada. Pois, parece evidente que os gregos, incluindo o próprio Sócrates, acreditavam que estátuas podiam andar. Nos dias de hoje poderíamos considerar tal crença um disparate, mas se tomarmos o caminho da metafísica em sua totalidade, e deixarmos de lado nossas idéias fixas a respeito do mundo, é possível que possamos conceber que tal crença não pode ser descartada, de todo.

 

Já no final da filosofia grega Aristóteles classificou os pré-socráticos de balbuciantes e afastou toda a possibilidade daquilo que ultrapassa a razão, numa “filosofia da totalidade do real”. Ou seja, toda a realidade estaria ao alcance da razão, e o que com ela não se conforma seria mera ilusão, fruto de um conhecimento incipiente da realidade. Porém, com a derrocada da Escolástica a razão mostrou sua limitação, de modo que os modernos tiverem que voltar a uma duplicidade do real. No final Kant separou uma parte da realidade, agora inacessível para a razão especulativa, a qual denominou “em si”.

 

Depois de Kant toda a filosofia em certo sentido reporta-se a este limite da razão posto por Kant. Contrariamente à maioria, que se rebela contra o limite e tenta achar um caminho para rompê-lo, Schopenhauer o aceita denominando o em si de “vontade”, uma força que a tudo arrasta e da qual somos prisioneiros.

 

Voltemos a Kant. No início da “Critica da Razão Pura” ele aventa a possibilidade da metafísica como ciência, querendo inquirir ele se é possível para a metafísica se constituir como um conhecimento certo e planamente aceito por todos, como o é a matemática ou a física, por exemplo. Algum tempo depois de Kant, contudo, a metafísica caiu no descrédito, reputada por alguns como um especular sem sentido e apartado de uma necessária práxis.

 

Porém, o que é metafísica? Numa definição resumida ela é uma espécie de “outra física”, uma física que se reportaria à essência da realidade, que subjaz a tudo. Então, se existe o abstrato, e ele está encoberto, é ele o território da metafísica e é nele que reside a essência, que não vemos. Ademais, se o ser humano é como tudo o mais, também nós temos uma parte encoberta, que é nossa essência e, quem sabe, a mesma essência de toda a realidade. E quando nós tratamos do ser humano como possuindo algo mais que matéria, estamos sendo metafísicos, e se fazemos isso na forma de uma ciência, estamos fazendo metafísica como ciência.

 

Justamente, foi isso que fez quando formulou a teoria psicanalítica. Ele preconizou, como faz na verdade a psicologia desde seu nascimento, que o ser humano possui um “dentro”, que é sua “alma” (donde o termo “psico”). Ora, onde está este dentro? Não está no terreno da física? Então está no da metafísica. E a partir deste modelo metafísico agiu como cientista e formulou uma hipótese para explicar o que via concretamente em sua atividade terapêutica. Preconizou a existência de um inconsciente, que nada mais é que uma redução da vontade de Schopenhauer, que por seu turno é o em si, que é ele mesmo o não-ser, interditado desde os gregos. Assim isolado numa nova e mais profunda interdição pelos modernos, ele explodiu em diversos rios que geraram filosofia, arte, religião e loucura, ou todas elas misturadas, num movimento que criou os fundamentos do que chamamos “mundo moderno”.

 

No que tange a psicanálise, Freud percebeu que o inconsciente se mostrava nos sonhos e atos falhos. E adiante percebeu também que ele era uma força fora do controle do próprio ser humano, como um mar em que navega a pequena embarcação que chamamos ego, sempre à beira de um trágico naufrágio.

 

No entanto, recentemente alguma formulação no campo dos sonhos constatou que, se eles são manifestações do inconsciente, e de sua análise no estado desperto podemos elucidar aspectos obscuros de nossa psique, também podemos agir no próprio sonho, se pudermos acordar dentro deles, agindo neste caso de forma direta no próprio inconsciente. De modo que o “sonhar” pode se abrir como um território de penetração no próprio abstrato.

 

Ademais, a filosofia depois de Kant deixou ver que o mundo pode não ser como supomos. Filosofias como a de Husserl, de Heidegger e de Quine nos permitem aventar a hipótese de que nosso mundo, que pensamos ser o único real, seja mera construção cultural, com estreita ligação com a língua que falamos, de tal sorte que as palavras passam a adquirir um aspecto mágico. Ao menos em tese, elas nos prendem a determinada construção de mundo, mas outras nos poderiam carregar para fora dele.  E a própria ciência que se fez no século XX demonstrou que as coisas são vazias e inescrutáveis, igualando-as ao próprio ser humano, com um interior oculto. Então, quando fazemos ciência fazemos necessariamente metafísica, pois existe uma parte das coisas que está encoberta, e nosso modelo delas não a contempla.

 

O que permite supor que, se pudermos penetrar no ”dentro” das coisas, é possível que possamos efetivamente movê-las. Pois se podemos acessar o dentro de nós mesmos com nosso sonhar, ou com nossas palavras, é possível e bem provável que possamos entrar na parte oculta das coisas para movê-las, como parece acontecer de forma espontânea em casos descritos pela observação da dita “parapsicologia”. Ou, de outra sorte, como pareciam acreditar os gregos. Isso pode parecer , mas só o é à luz da simples racionalidade. Porém, teremos de vencê-la e retornar aquele estado mágico se quisermos colher da segunda árvore, e viver eternamente. E queremos isso mais do que qualquer coisa, tanto que se desconhece a existência de coletivos humanos em que não haja algum tipo de religião, a qual, de uma forma ou de outra, preconiza a continuação da vida. Falemos então deste caminho.

 

 

4.3 – A SEMENTE DE MOSTARDA: O CAMINHO DA RELIGIÃO

 

Quem foram Jesus e Maomé? Presumivelmente, foram homens. E a se crer em seu testemunho, eles receberam mensagens de algum tipo, na forma de visões e palavras. Se vivessem nos dias atuais, e tivessem visões, e ouvissem vozes, é possível que fossem declarados esquizofrênicos. Mas no tempo em que viveram era outra a forma de encarar a religião e a loucura, de sorte que se tornaram os fundadores das duas correntes religiosas mais influentes da modernidade.

 

Façamos a hipótese fundamental de que os dois tenham de fato recebido algum tipo de orientação sobrenatural. Em primeiro lugar, eles só as receberam por que foram em busca delas. Em segundo lugar, nós só ouvimos falar deles por que aquilo que eles pretensamente ouviram, como uma semente, caiu em solo propício e se tornou fundante da religião e do mundo como hoje o concebemos.

 

Se estamos falando da maneira que o abstrato vem e nos manda sinais, presumimos que os sinais que vieram através de Jesus e Maomé fazem parte de um plano evolutivo para o mundo, estipulado em outra esfera.  E se, como vimos, no movimento evolutivo é preciso que aconteça um necessário ensaio, Jesus e Maomé, mesmo sem saber, talvez tenham induzido a humanidade a este necessário e fundamental “ensaio do futuro”. Presumivelmente, eles induziram a humanidade a buscar um mundo que não existe, mas que um dia existirá, de algum modo.

 

Mas não apenas isso. Era necessário que a forma antiga de viver, com divindades em meio às coisas, fosse ultrapassado, para que a razão andasse mais. Por isso as vozes que Jesus ouvia, e se identificavam como “o pai”, ao final lhe orientaram a fundar uma religião universal que simulasse uma possibilidade nova, e que afirmasse a existência de outro mundo, para que este fosse território unicamente daquilo que a razão descortina. Mas aquilo que ele ouviu estava inserido em sua busca e não teria se tornado fundamental se a realidade mesma não necessitasse daquilo. Pois em outro ponto, a racionalidade grega avançara e deixara um espaço a ser ocupado, permitindo um novo modo de constituir o mundo.  Diga-se de passagem, algum tempo antes de Jesus, no nascimento do caminho especulativo, entre os gregos, Sócrates também ouvira as vozes de seu daimon, que lhe orientaram no desenvolvimento da dialética.

 

Numa análise superficial, Jesus se prende unicamente ao antigo judaísmo, mas na verdade ele veio trazer para o concreto uma possibilidade preconizada também nos ritos dionisíacos de morte e ressurreição, e representa a esperança humana, e talvez de toda a natureza, de viver eternamente. Por isso mesmo ele veio a ser chamado Jesus Cristo, que significa Joshua (seu nome de batismo) o Christo, uma palavra grega que significa “o ungido”. Neste sentido, ele foi preparado pelos ritos dionisíacos, que fizeram aqui o papel de sua simulação, e é ele mesmo simulação de uma possibilidade de vida eterna para todos. Ao mesmo tempo, a adoção do nome grego demonstra que o papel que ele veio a ocupar ultrapassa a própria origem cultural do homem que Jesus foi, como costuma acontecer.

 

Maomé também foi orientado a fundar uma religião. Presumivelmente, também como Jesus, foi em busca de algo, premido pela necessidade de seu tempo e lugar, e encontrou. Como ocorre com a mostarda, a pequena semente caiu na terra fértil que a aguardava, e o islamismo se tornou uma pujante religião, a qual trouxe o mundo árabe para a modernidade, e pressionou o Ocidente por séculos. Justamente, um dos sentidos do Islã foi ser este “calor” que chocou o ovo que foi a Europa medieval, fazendo nascer o ser que depois voou para ocidente, carregando no peito um mundo em conflito. Mas também, a consolidação do mundo árabe como cultura autônoma permitiu que a sabedoria antiga fosse preservada, assim como seu ímpeto fundamentalista. E quando a Europa viu nascer o seu filho mais ousado, que a carregaria para outro mundo, na pequena e pobre manjedoura houve de novo a presença daqueles magos do oriente. Numa reedição de história já contada, novamente eles vieram de longe, pois viram uma luz. E um dos resultados desta vinda, que não seria possível se não existisse o Islã, foi o surgimento do espanhol, para o qual tudo está envolto em incenso e mirra.

 

4.4 – O INUSITADO BATE À PORTA: O CAMINHO DA LOUCURA

 

            A loucura não é propriamente um caminho, mas antes é a forma como o abstrato advém para o concreto formando arte, religião e metafísica. Por ser a antítese da ordem, a loucura não cria nada no mundo que seja autenticamente seu, mas ela é o fundamento de toda a criação e de toda a emergência do mundo, pois tudo advém do abstrato. Nessa emergência o que vem ainda é abstrato, logo, ultrapassa a compreensão da razão, que se funda unicamente no ser. Justamente por isso, a emergência de todo o concreto nós identificamos como loucura. E por ser a forma como tudo emerge, uma consideração mais consistente dela está no caminho a ser trilhado pelo ser humano.

           

A percepção que tem o ser humano imerso na loucura é real, mas desafia o mundo, por isso ele é banido. E por isso também, aquele que consegue a evita, de modo a ser considerado “normal”. Ou então ele a controla e a insere no modo de seu tempo, tornando-se artista, filósofo ou fundador de uma religião. Mas existe uma possibilidade teórica em que a loucura se assuma como loucura simplesmente, mas mantendo o controle. Esta possibilidade, que denominamos “loucura controlada”, já foi preconizada por alguns, e se constitui num desafio ao mundo constituído, numa espécie de mentira ou simulação consciente, a qual nos abriria as portas para o abstrato. Uma simulação deste tipo foi efetivada por Carlos Castaneda, que inventou uma mentira na qual carregou milhares de pessoas pelo mundo, na forma de uma legião de aficionados leitores, entre os anos 60 e 80 do século passado. No entanto, apesar do embuste, se quisermos poderemos ver a extrema pertinência daquilo que aflorou através dessa mentira. 

           

Pois quando ele inventou Don Juan Matus, um xamã índio muito velho e muito sábio, ele desencadeou em seus leitores e em si mesmo um processo, que fez com que sua invenção adquirisse vida própria, em alguma medida. O velho xamã e seus companheiros tomaram vida em seus livros e nos trouxeram coisas de extrema pertinência, que nos permite conceber a América como a outra parte da Europa: enquanto uma trilhou o caminho do ser, a outra trilhou o do não-ser. De modo que quando aquelas naus de seres em conflito vieram em direção ao ocidente a procura de si mesmas, elas estavam na verdade buscando de algum modo o paraíso perdido, e de algum modo elas o encontraram.  Mas como estavam cegas para o não-ser, o que viram foi sua imagem refletida.  Destruíram o que viram, mas o não-ser da América continua vivo, em alguma instância alhures. E foi este não-ser que Castaneda e seus leitores conectaram com sua brincadeira. E justamente, é este território que ainda falta descobrir, num novo descobrimento, do qual o primeiro foi mera simulação.

           

Estabelecendo uma comparação entre a história da Europa ocidental e os relatos da obra de Castaneda, podemos perceber um paralelismo impressionante entre ambos, que nos permitem vislumbrar um sentido absolutamente novo para toda a história do ocidente, bem como antever em alguma medida os desdobramentos futuros.

           

Se é correta a nossa hipótese, por que conseguiu Castaneda, com sua mentira, acessar este conteúdo residente no abstrato? Ora, é justamente por que, para acessar o abstrato a partir do concreto, temos de simular.  Por isso, a realidade deve sempre ser antecipada como simulação. E por isso também, quando mentimos, mesmo inocentemente, nós estamos agindo como espécies de xamãs: estamos invocando um outro mundo, diverso do atual. E dependendo de uma série de fatores, nossa mentira pode se tornar real. Se ela se torna apenas para nós, nos tornamos loucos; mas se for para um grupo, ela pode vir a mudar o mundo.

 

Ademais, são simulações deste mesmo tipo que faz o artista, quando busca a inspiração que lhe permite fazer a obra de arte. Ou o místico, quando tenta contatar uma outra esfera. Ou mesmo o filósofo e o homem de ciência, quando procuram aventar uma hipótese. Então, Castaneda poderia muito bem ter nos dito que fazia literatura, ou religião, ou filosofia. Mas ele preferiu, quiçá aconselhado por seu próprio invento, a fazer arte ao modo das crianças, como uma “molecagem”. Mostrou-nos, se queremos ver, que desta “molecagem” emergiu uma profundidade insuspeita, que poderá emergir novamente, quando a loucura puder ser aceita também como uma possibilidade de acessar uma outra esfera. Castaneda e os que o acompanhavam viveram uma vida onde a fantasia se misturou com a realidade. Ele mesmo se dizia um feiticeiro, praticante de loucura controlada, a qual identificou como a "práxis da fenomenologia”. Pensemos sobre isso.

           

Do ponto de vista do mundo descrito pela razão, a loucura é aquele inusitado que nós obstaculizamos para nos pormos a caminho em direção ao futuro. E como disse Nietzsche, que acabou perdendo o juízo, o inusitado bate a porta. E neste momento mesmo ele está a bater, e continuará a fazê-lo, até que estejamos prontas para abri-la. E estaremos prontos quando pudermos viver a loucura de forma controlada, e coletivamente, de modo a neutralizar seu efeito patológico. Será então o momento de sair do aposento que chamamos ser humano, nos pondo a caminho em direção a uma terra ainda ignorada em sua totalidade, mas há muito já intuída e desejada.

 

 

8 – TERRA À VISTA

 

8.1 – O QUERUBIM E SUA ESPADA – O SENTIDO DA ESPERA

 

Reportando-nos mais uma vez ao relato do Gênesis, quando Javé Deus viu que o homem havia comido do fruto proibido, ele colocou em frente à segunda árvore um querubim com uma espada chamejante, para impedir que o homem comesse também de seu fruto e vivesse eternamente.  Ou seja, existe um obstáculo a impedir que o homem conquiste a imortalidade. Presumivelmente, Cristo veio para levar o homem a aquele jardim mágico, para que ele possa colher da árvore da vida e viver eternamente. Cabe então um questionamento: Qual seria o sentido deste obstáculo?

 

O sentido é o de que, em cada elo evolutivo, existe um tempo necessário e uma cultura a acumular, antes que o ser possa ir para o elo seguinte. Aqui também então é necessário que atinjamos certos requisitos antes que possamos nos perenizar, a nós e a toda a criação. Pois se fosse possível fazermos isso já no surgimento do ser humano, teríamos feito um mundo muito próximo ou mesmo igual ao encontrado, e não é este o desejo da natureza em evolução. Ademais, neste caso não haveria sentido em toda a história do homem. No entanto, nada é sem sentido, e o sentido da história é que o homem descubra, no decorrer dela, como efetivamente quer construir este mundo novo. Somente quando descobrir o que significa para ele felicidade, e somente quando puder construir no mundo mesmo uma imitação desta perfeição, o querubim – cuja espada é, simbolicamente, justamente a razão – baixará guarda e o deixará passar.  Descobriremos então que o mundo é mágico, e que tudo é possível para o homem.

 

 

8.2 – EM QUE CONSISTE O MÁGICO

 

Do ponto de vista da racionalidade presente, mágico é tudo aquilo que a ultrapassa, ou seja, tudo aquilo que se mostra impossível à luz da razão especulativa. Porém, a razão especulativa não é absoluta, antes se funda na lógica formal, a qual se mostra inadequada para descrever o mundo, em sua totalidade, do mesmo modo que a geometria euclidiana, que se apóia nela. Porém, o mundo em sua totalidade parece se adequar a algumas geometrias não euclidianas. Se pudermos conceber uma outra lógica, inerente a tais geometrias, que se adeqüe ao mundo como observado em sua totalidade, presumivelmente poderemos basear nela uma outra racionalidade. Justamente, esta outra racionalidade é a , pelo simples fato de ela ultrapassar a razão especulativa.

 

Deste ponto de vista, a questão mágica é uma questão “de lógica. Por outro lado, podemos dizer também que ela é uma questão lógica. Pois, se o ser humano anseia por algo mais do que o mundo como se apresenta – e é um fato que ele anseia – é lógico supor que ele terá em alguma medida de descobrir ou redescobrir a magia. Pois nada pode satisfazer nossos anseios de vida eterna e felicidade plena que não seja a magia.  Já que, do ponto de vista das “leis da natureza”, a realização de nossos anseios é impossível, só poderemos realizá-los numa “outra natureza”, que ultrapasse a primeira e seja, portanto, mágica. Por outro lado, se tal anseio foi posto no peito do ser humano, e ao que tudo indica é ele o agente do plano estipulado em outra esfera, podemos concluir que tal anseio prende-se a uma necessidade cara à natureza mesma. E ela só nos parece impossível por estarmos cegos pela razão especulativa. E se queremos vencê-la e recuperar a visão, teremos de sair da simples especulação, onde ela nos mantém presos, e partir para a ação.

 

 

8.3 – A NECESSIDADE DE AGIR

 

            O ser humano, desde que se tem noticia, vive sob a mais espessa ignorância.  Não sabemos quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Sabemos que vamos morrer, e que isto se dará provavelmente logo, mas isso nós sabemos apenas por que observamos que tudo o que está vivo morre. Mas não sabemos ao certo o que nos aguarda após a morte, nem se existe algo que nos aguarda. E nem tampouco sabemos se é possível fugir da morte, e se nosso destino depois dela depende em alguma medida do que possamos fazer ou deixar de fazer enquanto vivos. Neste terreno, à luz da fria racionalidade, só podemos dizer, como Sócrates: só sei que nada sei.

 

Não obstante, apesar de não sabermos o sentido da vida e qual o nosso destino, nós acreditamos saber algo, e agimos como se soubéssemos. E isso se deve, por um lado, a uma necessidade que temos de possuir algum grau de certeza, mesmo que no fundo nossas certezas não possam ser assim consideradas, antes conduzem ao vazio se olhadas profundamente. No cotidiano de nossas vidas, preferimos deixar as dúvidas de lado e seguir adiante, agindo mais ou menos de acordo com nossos semelhantes e com o que preconiza a cultura da qual fazemos parte.

 

            Por outro lado, nossas pretensas certezas vêm da busca que alguns de nós fizeram, e ainda fazem, em nome do grupo, ainda que alguns sejam céticos quanto a isso e pensem poder viver sem estas certezas vazias. Pois nessa busca, acabamos encontrando algo, que acaba vindo para a cultura, tornando-se o seu fundamento, e do próprio mundo. No que tange à nossa vida e o que nos aguarda, nós não sabemos, mas a maioria acredita nas palavras de certos ícones, os quais pretensamente receberam orientação daquela instância alhures que a tudo comanda. Ou seja, exemplificando, se nunca falamos com Deus de forma real, nem estivemos em sua morada, a maioria dos cristãos acredita que Jesus Cristo já o ouviu, e também esteve lá e voltou para fundar a Igreja. Mas, sinceramente, será que acreditamos realmente nisso? E mesmo que acreditemos, será que a humanidade vai viver eternamente acreditando em algo que não vê com seus próprios olhos e ouve com seus próprios ouvidos?

 

            Ademais, mesmo que acreditemos e continuemos pela eternidade a fora a acreditar piamente nisso, devemos ao menos admitir que existem diversos pontos pouco claros no que nos transmitiram nossos ícones.  E este é um assunto por demais sério para que ajamos como crianças confiando cegamente no “pai”. Dizer isso não é uma afronta a Deus, pois, se ele existe, foi ele quem botou no homem a capacidade de duvidar e especular. Se ele não existe, então não estamos afrontando nada. E, numa terceira hipótese, a de ele existir, mas nos iludir e querer nos manter presos na ignorância, então é aconselhável que pensemos seriamente sobre o que fazer. Porém, se agimos seguindo o fluxo de nossa natureza essencial, não há o que temer, de modo que  este medo e reverência diante de um possível “Deus” é mais uma coisa que deve ser reputada à nossa imaturidade ou, o que é o mesmo, à nossa ignorância em relação à realidade essencial. Sob qualquer hipótese, é este desconhecimento que devemos temer.

 

            Então, tomemos aqui apenas alguns aspectos que não ficaram claros na mensagem de Jesus. Ele nos disse que voltaria em breve para redimir os vivos e os mortos, mas efetivamente não voltou até os dias de hoje. Ou nós não o compreendemos, ou ele não sabia detalhes de sua missão. De modo que hoje os cristãos continuam esperando a sua volta, mas ao mesmo tempo acreditam que poderão ser salvos após a morte pela crença nele, de acordo com os próprios ensinamentos de Jesus. Mas não ficou claro como isso seria possível concretamente. Onde está concretamente esta “morada do pai”? Está certo, para Deus tudo é possível. Se assim é, então perguntamos: por que ele precisa então que ajamos de determinada forma? Se ele de fato nos ama, e tudo pode, por que não fez logo um mundo perfeito, em que não tivéssemos “caído no pecado”? Ora, na hipótese de existir de fato um Deus, e ser de um modo ou de outro nosso criador, que deseja o melhor para nós, é possível que ele não tenha constituído um mundo perfeito por precisar que façamos certas escolhas, pois a evolução quer nos levar para um ponto diverso do que estamos. Neste caso, fica claro que o desenlace final desta história depende de uma ação do homem, caso contrário tudo já estaria resolvido.

 

            Não obstante, tudo isso são hipóteses, às quais não podemos ter certeza, a não ser que façamos algo para aferi-las concretamente. E temos motivos muito sérios para fazê-lo. Pois, poderíamos pensar: se está no futuro do homem viver eternamente; se tudo será possível para ele quando recuperar a magia e; se desejamos a felicidade plena, e ela só é possível se for com todos e para todos, a conclusão lógica é que todos ressuscitaremos após a morte, o nos reconciliaremos uns com os outros. Por isso, não necessitaríamos nos preocupar com o problema, pois, se não agirmos, outros depois de nós agirão.

 

Mas acontece que, em primeiro lugar, não sabemos se nossa tese está correta. Em segundo lugar, mesmo que ela esteja, não podemos saber se o ser humano vai descobrir e implementar de fato essa possibilidade, ou se vai deixá-la como mera possibilidade. Pois o ser humano tem um inimigo que está o tempo todo à sua espreita, e um dia fatalmente o vencerá: o tempo. E se não conseguirmos saltar para fora de sua lei antes que chegue este dia, é possível, ao menos em tese, que nossos belos anseios permaneçam como sonhos de uma espécie adolescente, que nunca amadureceu de todo. Neste caso, presumivelmente, tudo o que já existiu continuará existindo, mas num nível insuficiente para nossos anseios de vida em abundância, visto que o ser humano não terá conseguido fazer o seu resgate antes de desaparecer como espécie.

 

            Pois a espécie humana é uma espécie como outra qualquer. Como todas as espécies vivas, ela tem um nascimento, uma vida e uma morte. Ou seja, seria um contra-censo absoluto pensar que a espécie humana seja eterna, pois todas chegam um dia ao fim, o que significa que não conseguem mais se reproduzir e se extinguem, muitas vezes sem deixar sucessor. No nosso caso, se olharmos algumas coisas que estão acontecendo hoje, poderemos pensar que este fim pode estar mais perto do que imaginamos. Por exemplo, vemos na prática uma crescente queda da fertilidade da espécie humana. Isso é atribuído ao “stress” e outras causas, mas, se um ser extinto qualquer tivesse adquirido a consciência, provavelmente teria achado também explicações para o problema. Porém, ele se extinguiu por que acabou seu tempo de viver no planeta, e, repetimos, quando este dia chegar para o ser humano, não haverá fecundação “in vitro” nem nada que nos possa garantir uma continuação pelas “leis da natureza”. Antes que isso aconteça, seria aconselhável que nossa espécie descobrisse afinal se é possível fugir de tais leis, e isso exige ação, mais que especulação.

 

De modo que temos de deixar para trás nossa velha forma de viver, uma forma imatura, que fica a esperar que as coisas se resolvam, e sair para uma ação de descobrimento do que nos está oculto. Por exemplo, se não sabemos quem somos, temos de tentar descobrir. Se não falamos com Deus, temos de tentar falar com ele, e fazer com que ele efetivamente fale conosco. Se acreditamos que existe outra possibilidade, ou um lugar onde poderemos viver depois de mortos, temos de tentar ir efetivamente para lá, e depois voltar, da mesma forma que fomos ao mar, e ao espaço sideral, e voltamos para contar. Se Jesus pretensamente fez isso, por que não podemos nós mesmos fazê-lo?

 

            Ora, é porque nós não sabemos como fazer. Mas se alguém não sabe como fazer algo, ou é por que tal coisa não é possível, ou por que está fora de suas possibilidades, ou por que não tentou aprender. Se assim é, só poderemos descobrir qual é o nosso caso se tentarmos. E por que ainda não tentamos? Por que nós não sabemos como, ou porque não queremos, ou por que tememos, ou por que não podemos.

 

            Bem, como podemos perceber, estamos andando em círculos. Aliás, este círculo que simulamos acima é uma imitação da própria vida do ser humano, preso que estamos numa cadeia da qual somente poderemos sair por nossa própria vontade e ação. E para sair dela, precisamos romper o círculo.  E para rompê-lo, temos de agir, mais do que pensar. Mas para agir nós temos de compreender, pois ninguém sai a caminhar se não vê um chão seguro para fazê-lo. Tentemos compreender, inicialmente, como nós nos colocamos nesta cadeia, inadvertidamente.

 

            Justamente, nós nos colocamos nesta cadeia quando nos pusemos a caminho em direção a outro ponto evolutivo. Como bem disse , antes mesmo que a filosofia existisse na forma que ela existe até os dias de hoje, o movimento é uma ilusão. Então, para nos pormos em movimento, tivemos de deixar para trás metade da realidade. Conseguimos com isso refletir essa mesma realidade, como num espelho, mas a imagem refletida é apenas uma cópia daquela realidade essencial.

 

A parte que resultou obstaculizada lá em nossa infância coletiva, desde aquele momento pressiona por voltar, de modo que a história do pensamento e da própria vida é a história desta interação do ser com o não-ser. A Idade Moderna nasceu justamente de um aprofundamento desta interdição. Mas depois que houve este aprofundamento, em Hegel a filosofia deu-se conta que o ser humano ia querer, mais dia menos dia, romper esta interdição. Por isso Hegel retornou a Heráclito, para tentar mergulhar para dentro daquela natureza fluida, que estava interditada. Mas seu mergulho foi apenas reflexivo, pois não era a hora nem o lugar de fazê-lo em toda a plenitude. Seguindo o curso dessa formulação de Hegel, depois dele toda a filosofia tentou buscar uma práxis, mas como ainda estava presa numa visão de bem e mal, muitas inventaram seu inferno particular, e acabaram redundando no fracasso. Outras, como as que surgiram de Husserl, apesar da intenção, não conseguiram de fato criar uma práxis que desafiasse o mundo, como se depreenderia de suas especulações, pois se tratava de homens “sérios”, que tinham uma imagem a zelar. E para desafiar de fato o mundo como se apresenta, teremos de desconstruir também o ego e a personalidade, pois eles são os tijolos com que construímos nossa “mentira coletiva”.

 

Hegel preconizou uma filosofia que era como o vôo do pássaro de Minerva, que somente ocorre ao entardecer, significando que ela vem apenas depois que a realidade já ocorreu. Na linha de Hegel, Heidegger, desconfiando que pudesse não ser exatamente assim, questiona se ela seria apenas a salvaguarda da rátio, e neste caso, estaria vinculada à própria razão. Contudo, na essência, filosofia é amor ao conhecimento, e tem forte componente intuitivo, o que dá a ela acesso direto ao abstrato, sede do ontem, do hoje e do amanhã. Diante do mundo ela nos põe no espanto, de modo que tentará sempre, e conseguirá, antecipar a realidade, ultrapassando a própria lógica formal e a razão especulativa.

 

Como já foi dito por alguém, quando falamos já entramos em contradição, o que mostra a limitação do discurso racional para descrever o mundo real. E vemos aqui como o próprio Hegel supostamente foi pego nesta teia. Pois ele antecipou a totalidade reflexivamente, uma totalidade que terá de acontecer como possibilidade que ultrapasse a simples reflexão. Esta possível antecipação de um previsível futuro em Hegel contradirá então sua própria formulação da filosofia, a mostrar que ele teve a intenção de voltar a Heráclito e a um conhecimento que compreendesse ser e não-ser, mas ainda estava demasiadamente preso nas garras daquela que nos cega, afastado da realidade essencial por sua especulação.

 

Se num passado nos separamos da natureza essencial e depois aprofundamos esta separação, quando criamos um espaço especulativo, isso era necessário para que descolássemos da mera natureza e inventássemos um caminho novo, como que uma “segunda natureza”. E tal descolamento acontece devido ao fato de a realidade viva conter junto o não-ser. Com nossa especulação nós, figurativamente, matamos tal realidade viva e dissecamos seu cadáver, mas ele é apenas uma sombra dela. Uma sombra, no entanto, que nos serve de guia. Mas agora nós queremos ir além, queremos novamente encarar a realidade viva, e para isso devemos saber o que fazer.

           

Ora, em primeiro lugar temos de sair da simples especulação. Para isso, temos de acreditar que existe algo como o abstrato, e que é possível acessá-lo. No que tange a filosofia, ela construiu edifícios de metafísica, mas agora deve simplificá-los, em nome da ação. Também, no que tange a religião, temos de deixar de tratar o sobrenatural como sagrado, ou como algo inexistente, pois assim agindo nós o alçamos, ou reduzimos, quando na verdade ele deve ser posto em nosso nível, para que possamos interagir com ele de igual para igual. Isso deve ser feito sem o abandono da razão, antes pelo contrário, pois seu verdadeiro uso é justamente o de ser a arma do ser humano contra o desconhecido. Se temos de fazer este descobrimento do abstrato, do qual o descobrimento da América foi um ensaio, façamos como a Escola de Sagres, que acreditou na existência de um outro mundo depois do mar. Para chegar a ele, constituiu-se efetivamente como uma instituição, que levou em conta a especulação de seu tempo, mas simplificou-a no objetivo de cruzar o mar. Igualmente, ela levou em conta a religião, mas a agregou de forma pragmática ao seu próprio ímpeto de descobrir mundos. Por isso ela inscreveu a cruz em suas velas, como um escudo e um alento aos ousados tripulantes no longínquo mar.

           

Em segundo lugar, por outro lado, temos de desafiar a razão especulativa, pois é ela que nos mantêm presos nesta sala de espelhos. Desafiar a razão significa, por exemplo, não ter medo de fazer filosofia como curiosidade. Não ter medo de supor disparates. Não ter medo do julgamento dos outros. E uma série de coisas que são todas fruto da razão especulativa, que espelha o mundo e também a nós mesmos, nos concedendo uma personalidade a qual nos pomos a defender, mas nós somos algo diverso dela, da mesma forma que tudo é diverso do que a razão descortina. Então, temos de deixar de temer pela nossa imagem e ousar deixar aflorar o que reside em nosso peito, nossos anseios, mesmo que eles pareçam impossíveis ou risíveis à luz da razão. De novo aqui, temos de fazer como a Escola de Sagres, que ao invés de desdenhar de si mesma e do povo português, em sua pobreza e em seu espírito messiânico, buscou sua própria autenticidade e não teve vergonha de se abraçar a ele. Desta forma, levou a Europa aonde nenhuma das “grandes potências” tinha levado.

 

Em terceiro lugar, nós temos de compreender tudo, numa nova totalidade, mas este compreender assume todas as formas possíveis. Temos de compreender todas as formas de pensar, e todas as formas de viver, mesmo as consideradas inadequadas. Temos de agregar tudo, nos pondo em concórdia com tudo. Pois, falando metaforicamente, existe um mecanismo que somente deixará a possibilidade mágica ressurgir quando conseguirmos novamente juntar tudo, como era antes que esta espada, a razão, esfacelasse o mundo numa imensidão de partes. Pois todas as diferenças e mesmo as desigualdades se originam em última instância dos efeitos da arma do ser humano por excelência, a razão, aplicada de forma cega. Para recuperar a visão e o uso correto da razão temos antes que “simular” um novo mundo, que a tudo acolha.

 

Assim, teremos de compreender o passado, o outro, a magia, o inimigo, ou seja – tudo, nos despindo de absolutamente todos os preconceitos. Somente com esta espécie de conc órdia universal poderá o ser humano canalizar a energia que abrirá novamente a possibilidade mágica. E mais uma vez temos de agir como a Escola de Sagres, que formou destemidos navegadores, ávidos por misturar terras e gentes.  Montados neste espírito e nesta ousadia dos lusos, que nascem à beira do fim, eles cruzaram o mundo e cruzaram seus genes com o mundo, e uma das coisas que eles fizeram foi o Brasil.

 

 

8.4 – QUEM NÃO GOSTA DO BRASIL?

 

Acima referimos a importância da cultura portuguesa neste possível novo descobrimento, o descobrimento do abstrato. E referimos mesmo, linhas atrás, que este é o sentido oculto do poema Mensagem de Fernando Pessoa, visto ele como um dos sinais que o abstrato nos enviou através da arte. E naquele poema, em seu início, a Europa está a olhar, debruçada e posta nos cotovelos, para o ocidente. Vejamos o final desta primeira parte do poema:

“………………………………

Fita, com olhar esfíngico e fatal

O ocidente, futuro do passado

O rosto com que fita é Portugal”

 

Se o poema é uma mensagem do abstrato, que veio através de Pessoa, o abstrato está a nos dizer que o futuro passa pela América.  E a América, como uma projeção da Europa (futuro do passado), possui ela mesma um Portugal: é o Brasil. Então, se falta cumprir-se Portugal, o futuro do passado que efetivará este cumprimento é o Brasil. Mas o que significaria fazer cumprir-se Portugal? Ora, seria liderar o mundo num novo e derradeiro descobrimento.

 

Isso concordaria de alguma forma com uma idéia antiga, de que o Brasil é o país do futuro. Esta impressão é mais do que um recurso usado nos chamados anos de chumbo, e se prende a uma sensação real que tem o brasileiro, e mesmo estrangeiros quando se referem ao Brasil. E coincidentemente, todas as necessidades que apontamos para que venha afinal esta possibilidade mágica de descobrir um mundo que está encoberto, parece que vicejam naturalmente neste país de alma tolerante e acolhedora, e onde toda a cultura se apresenta como uma fina mistura de todas as coisas.

 

É que a Europa, como ser orgânico que é, tem um fim. No sentido de finalidade e também de desaparecimento. E estes dois sentidos se unem no sentido evolutivo: ela presumivelmente desaparecerá como modo de constituir o mundo, para dar lugar a uma nova forma de viver. E próximo ao seu fim desenvolve-se uma cultura da transição, que possibilita dar o salto para uma nova realidade, que por seu turno é, em algum sentido, um retorno ao passado. Como na evolução a realidade sempre é antecipada como um ensaio, a Europa efetuou o descobrimento de sua outra parte, a América, apenas parcialmente. Mas nesta simulação plantou no “futuro do passado” um novo Portugal. Da mesma forma que o primeiro, ele é pequeno frente ao concreto, mas se levantará quando se apresentar seu verdadeiro desafio: o descobrimento do abstrato. E se atentarmos bem, veremos que ele já está a se levantar. E quando ele estiver de pé, poderemos descobrir enfim um mundo que está oculto para nossos olhos, pois eles julgam a realidade e com isso a encobrem, em parte. Mas quando pudermos ver também com nossos ouvidos, um novo mundo, que está aqui mesmo, e agora, se revelará. Quem tem ouvidos para ouvir ouça.

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