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A ÉTICA DA SOLIDÃO
Published: Jun 27, 2005 - 08:38 PM
A ÉTICA
DA SOLIDÃO
Nei Duclós
Prefácio do Livro "Cartas a um Jovem Poeta" de Rainer Maria Rilke.
Tradução de Paulo Rónai
Ao
buscar o humano desprovido de disfarces, Rainer Maria Rilke encontrou a
grandeza. Em "Cartas a um jovem poeta" ele relata essa dolorosa
passagem em direção à essência, que implica arrancar a fantasia
cotidiana grudada à carne. O sangue decorrente dessa decisão não
significa apenas recolher-se à solidão seminal da criação. Mas de abrir
mão da moeda mais cobiçada, o reconhecimento, de cruzar o pior dos
umbrais - a indiferença - e encontrar o mais amedrontador dos mundos,
aquele onde habita a necessidade absoluta e a permanência.
Ao
tratar com sobriedade e transparência o missivista Franz Xaver Kappus,
que lhe pediu socorro num momento decisivo da vocação, Rilke aproveita
para expor as bases do seu processo criativo. É de sua própria
literatura que está falando, passaporte para o caráter universal de uma
obra considerada difícil. Mas não se trata de uma introdução ao que
parece intrincado nos seus outros livros. É, antes, uma convivência com
eles, uma irmandade - talvez mais feliz na clareza, mas igualmente
soberba na claridade. "Carta a um jovem poeta" é a antologia de uma
correspondência, que não inclui o que foi escrito pelo iniciante ao
mestre. Essa oclusão de um dos interlocutores poupa-nos das dúvidas e
angústias de uma vida, que procura encontrar o caminho certo da
literatura, e nos concentra num conteúdo de permanente atualidade.
Isso
acontece graças a uma dupla generosidade. Primeiro, a do escritor
consagrado que dedica parte do seu tempo a orientar um autor iniciante.
Segundo, a do destinatário que omite sua participação na
correspondência, como forma de agradecer ao mestre e reconhecer nele
uma espiritualidade superior. Esta é uma das lições deste pequeno
livro. Pois não basta talento ou determinação: o desprendimento é
essencial para a permanência da arte. A ética de compartilhar com o
outro os segredos mais íntimos, e reconhecer no semelhante a
possibilidade do gênio, gera o ambiente necessário para a literatura
que confere dignidade ao presente e desafia a voragem do tempo.
O
insumo para esse desafio é a solidão, somada à coragem, à persistência
e à paciência. Ao aconselhar a solidão contra a brilhareco da vida
literária, Rilke reconhece nela a verdadeira face da natureza humana, a
fonte da arte que não pode ser apartada de uma vida carregada de
significado.
Seu libelo contra a irracionalidade da crítica -
território minado do pseudo pensamento cientifico - privilegia a
lucidez da espiritualidade. É com se fosse uma esgrima contundente
contra a obscurantismo, uma forma de contrapor a seriedade do trabalho
poético contra a superficialidade das análises. Esse aspecto polêmico
reveste as Cartas de um alcance mais profundo do que o simples
conselho, e mais amplo do que o trato do trabalho literário.
A
receita amarga da sinceridade como resposta à admiração do escritor
estreante é a lição mais dura deste feixe de palavras que cruza um
século sem perder o fio do seu corte. Cem anos depois, as Cartas
funcionam como um alerta para os vícios da nossa época, submetida, mais
do que qualquer outra, à sordidez da superficialidade, justificada como
insumo democratizador. É como se Rilke nos esperasse no futuro, com
seus princípios intactos, não para cobrar a conta, mas com sua
iluminação eternamente disponível para uma vida mais completa.
Graças
à tradução de Paulo Rónai, intelectual e multilinguista húngaro
naturalizado brasileiro, as Cartas chegam até nós com o viço da
linguagem bem resolvida. É quando os talentos de línguas diversas se
sintonizam para privilegiar a leitura, e por meio dela, o conhecimento
e a emoção. A companhia de Rilke com Paulo Rónai e Cecília Meirelles -
que verteu para nossa língua "A Canção de Amor e Morte do
Porta-Estandarte Cristóvão Rilke", publicada na sequência das Cartas -
é mais uma lição deste relançamento. Pois para disseminar a excelência
da criação, é preciso que as editoras procurem e achem as pessoas
certas, para que a literatura se universalize em suas qualidades e não
em seus defeitos.
O trabalho de Cecília Meirelles na tradução da
saga do ancestral morto na batalha, pinçado pelo poeta na história
familiar, abre as portas para uma viagem literária de inúmeras
revelações. A principal delas é que o mito pode ser encontrado - ou
criado - a partir dos detalhes da memória pessoal e da saga comunitária.
Para
Rilke, o trabalho demiúrgico do escritor não está acima ou fora do
humano. Talvez o preceda - e esse é o aspecto mitico e ancestral da sua
poesia. Ou apenas o revele na sua verdadeira grandeza - e esse deve ser
o segredo da sua força e permanência.

