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O SOBRINHO DE OSWALDO ARANHA
Published: Nov 11, 2007 - 08:14 PM
Nei Duclós
Tudo indica que Carlos Castaneda, o autor best-seller de livros
sobre a saga do xamã indígena Juan Matus, é brasileiro, nasceu em
Juqueri (atual Franco da Rocha), interior de São Paulo, em 1935, e é
filho não reconhecido de um dos irmãos de Oswaldo Aranha, provavelmente
Luis Aranha. O nome completo é Carlos César Aranha Castaneda. Sua mãe
era conhecida da poderosa família e é possível que trabalhasse numa das
suas fazendas ou tinha propriedade na vizinhança.
As raízes dos Aranha estão em São Paulo, mas uma parte dela emigrou
para o Rio Grande do Sul (Oswaldo Aranha nasceu no Alegrete em 1894).
Uma pesquisa que Ida Duclós fez há mais de cinco anos levava para essa
conclusão, mas faltavam mais evidências. Agora há indícios fortes, em
sites dos seguidores do escritor, desta nova versão, que contraria
frontalmente a revista Time, que se confundiu completamente numa
célebre matéria de capa.
O autor da matéria achou que um homônimo de Cajamarca, Peru, nascido
em 1925, era o próprio. O autor seguiu a risca o conselho do mestre, de
apagar sua vida pessoal, como ele explica na entrevista a revista Uno
Mismo, Chile and Argentina, Fevereiro de 1997, feita Daniel Trujillo
Rivas.
E daí? E daí que essa noticia coloca Carlos Castaneda como o
enigmático sobrinho levado pelo tio poderoso para fora do país,
primeiro para Buenos Aires e depois para os Estados Unidos, quando
Oswaldo Aranha foi embaixador lá. Pode-se especular que a família não
podia falar sobre o assunto, pela posição que ocupava na política. As
pistas levam a Luis Aranha, revolucionário dos anos 20 e um dos
articuladores da revolução de 1930.
Todas as lembranças de Castaneda sobre o avô materno que o criou (já
que a mãe morreu muito cedo), inclusive a famosa cena do falcão albino
"rápido como a luz" são desse interior paulista e nada tem a ver com o
mundo hispânico. Como nos Estados Unidos tudo abaixo do Rio Grande é
México ou suas imitações, tanto faz ser da América Portuguesa ou
Espanhola. Aliás, ainda hoje acham que somos hispânicos.
Isso muda completamente a leitura que podemos fazer de todas as
reminiscências do escritor, que revolucionou a antropologia ao abraçar
totalmente o mundo que começou a estudar a partir de 1960, quando tinha
25 anos (e não 35, como disse a Time, idade incomum para um jovem
pós-graduando, como notou Miguel Duclós, que descobriu as provas, só
agora disponíveis, nas suas navegações na internet).
Numa cena de reencontro do pai, Castaneda diz para suas meias-irmãs
que gostaria de ter sido criado naquela família. Essa dor do abandono
paterno pode estar na fonte da necessidade de apagar a história
pessoal. Pois quem foi negado ao nascer leva esse estigma por toda
vida. Sem raízes, escondido pela família poderosa, quase clandestino no
país onde foi estudar, Castaneda assim mesmo confidenciava para um
colega de quarto na universidade que seu tio seria presidente do Brasil
e tinha sido capa da Time.
Oswaldo Aranha era o nome mais cotado para enfrentar Jânio Quadros
em 1960, mas as articulações levaram para o Marechal Lott, com os
resultados desastrosos já conhecidos. Se Oswaldo Aranha tivesse sido
candidato, certamente seria eleito e não teríamos embarcada nessa
tragédia política da qual ainda não conseguimos nos libertar.
Todas essas revelações sobre Carlos Castaneda explicam porque ele
estava aberto para entender e decidiu se entregar a uma cultura
desconhecida, já que não tinha sido incluído no mundo oficial. Era
triplamente excluído: brasileiro confundido com hispânico, filho
ilegítimo de família rica e depois antropólogo não reconhecido pela
academia.

