AURORAS

abr 21st, 2012 | Por | Categoria: Romance em prosa poética        

Nei Duclós

Dia que passa, amor que não retorna. Crepúsculo feito de auroras.

Eu vi primeiro a Lua, peguei para mim. Não mostro para ninguém, porque ela é tua.

O mendigo arrastava a noite com o pé sadio, enquanto tropeçava estrelas com o outro. Saía chispas, matéria-prima de um futuro arco-íris.

Repartes comigo tua vontade. Nem sou o alvo, mas fico de guarda. Vai que num aceno algo de ti pouse em mim.

Perdi a forma ao gostar de ti, sumida. Sou feito de riscos que brilham no escuro. Vou aceitar o convite de apresentar números de magia num circo do subúrbio.

Sei que é tarde. Mas não vá embora. Volta, eu te busco montado no Pégaso.

À noite, dobro a esquina. Dou de cara com a Lua num balcão obscuro, tomando todas. Problemas.

A poesia é quando Deus silencia para escutar e ao mesmo tempo é o grito da divindade quando se enxerga.

Os olhos convidam para o sonho. A palavra se recolhe, com um sopro.

Passei-te a limpo, elegia. Te recito em voz alta.

Não posso te repetir sem que consintas. Vou decorar então, por precaução.

Não posso mais tocar-te, sinfonia. Sou um solista vazio.

Entrei na fila. Anotas as pretensões de quem te admira. Eu tenho uma lista, mas quando chegar minha vez, vou jogar fora.

Devias ficar calado aquele dia, ela me disse. Passei semanas meia tonta. Agora diga um poema que tenha flor, no mínimo.

Recite para o vento. Gosto de te ver delirando.

Sei que é tarde. Mas não vá embora. Volta, eu te busco montado no Pégaso.

Repartes comigo tua vontade. Nem sou o alvo, mas fico de guarda. Vai que num aceno algo de ti pouse em mim.

O sono não nos interrompe. Acordamos agarrados como dois náufragos.

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