DARCY RIBEIRO: LUTA CORPORAL
maio 13th, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: Livros
O futuro cacique de uma tribo da Amazônia sai menino de sua aldeia e vai para o seminário, onde o contato com os padres lhe tira a fibra de guerreiro: fraco e contraditório, ele jamais poderá ser o tuxana da tribo mairum, tão esperado por seus irmãos, que o viam como uma esperança de salvação do extermínio. Essa tragédia – como procura demonstrar o antropólogo Darcy Ribeiro neste seu primeiro romance – não seria um acidente provocado pelo erro da política colonialista, mas sim o resultado natural da colonização, que procura apenas tirar os índios do caminho. As provas da violência contra o índio são minuciosamente levantadas e analisadas pelo autor, num relato profundo e apaixonado que faz do livro um dos romances brasileiros mais importantes dos últimos anos, tanto pela urgência do tema como pelo enfoque: o drama mairum é visto de dentro, por alguém que mostra a verdadeira natureza dos índios e a dimensão real da sua cultural. A filosofia dos mairuns é visceral e fisiológica, e sua sabedoria não vem da mortificação, mas da glorificação do corpo e da noção do seu significado dentro do universo. Os costumes indígenas, tão ridicularizados pelos brancos, em vez de serem apresentados como manifestações bizarras e atrasadas, estão profundamente identificados com as manifestações da natureza.
Alma seca – O romance, escrito no mesmo ritmo dessa cultura marginalizada e mágica, é também uma viagem através do corpo. Isaías – personagem central e futuro tuxaua -, ao perder sua identidade e sua fé na vida, ao secar sua alma no seminário, fica com o corpo precocemente envelhecido. A perda da sua alma na civilização branca equivale à perda do seu corpo – mantendo relações sexuais com todos os homens da tribo, transforma-se em mixiroxã, uma espécie de sacerdotisa do amor. Na mitologia indígena, a luta entre Maira-Coraci, o sol e Maira-Ambir, seu pai, o Deus Criador, é também uma luta corporal, pois o filho rouba partes do corpo do pai para dar aos homens.
Do ponto de vista do civilizado, com suas religiões de desprezo ao corpo, a criação do mundo narrada pelos mairuns – e divulgado por Darcy Ribeiro ao longo do livro, em capítulos curtos – é profundamente imoral: o filho de Deus é apenas o seu arroto, e sua luta contra o Deus Pai é feita com todos os recursos do corpo, como a habilidade manual e a força, além da famosa manha indígena. Numa luta contra uma entidade do Criador, Maira vence com a ajuda do seu irmão Micura-Laci, a lua, que solta gases fecais contra o nariz dessa entidade. E a superioridade de Maira-Coraci é tanta que seu pai se transforma em Maira-Manon, o Deus-Defunto, que rege o mundo dos mortos.
Fim dos Tempos – Por isso, a subversão colonizadora manifesta-se principalmente no corpo, o elemento básico da civilização indígena. A deterioração física dos mairuns, na visão de Darcy Ribeiro, representará o sinal evidente desse fim-dos-tempos na mata, que coincide com o fim da ação pastoral dos padres católicos na tribo. Pois os mairuns, já totalmente dominados (e dizimados), deixam de ser a preocupação principal da missão religiosa por decisão de um senador empenhado em fazer a distribuição das terras e empresários. O político determina que os religiosos passem a distribuir a palavra de Deus entre os Epexãs, índios arredios e violentos, que poderiam confundir o gado das grandes fazendas como uma nova caça.
Apesar da crítica contundente, Darcy Ribeiro não cai apenas num necrológio. Para ele, o que realmente importa não é a morte dos mairuns, já condenados às doenças da civilização e aos limites da sua aldeia, por sinal muito mal cuidada por um homem da Funai. O importante seria a luz que essa tragédia revela – os índios dão uma chave para a salvação, que é a convivência com a natureza. Pois, na verdade, é o mundo destruído (simbolizado por Alma) quem procura auxílio indígena, querendo entender a fórmula de viver feliz. E este livro excepcional de Darcy Ribeiro oferece uma maneira de se entender tal fórmula, tão simples quanto dificílima de alcançar.
(Resenha sobre MAIRA, de Darcy Ribeiro, Civilização Brasileira, publicada na revista Veja em 20 de outubro de 1976).
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