MADAME BOVARY, O ROMANCE MAIOR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Livros        

Nei Duclós

Madame Bovary, de Gustave Flaubert, foi lançado há 150 anos e é considerado “o romance dos romances” pela acurada carpintaria da linguagem, a estrutura impecável da narrativa, a complexidade social e psicológica dos personagens e a grande influência que exerceu em todo mundo, com os russos à frente, como confessaram Tchecov e Tolstoi, entre muitos outros.

Na edição que eu li, da Nova Alexandria, com tradução de Fulvia Moretto, temos direito a making of, ou seja, um anexo com os autos do processo que o governo moveu contra o autor por ter atentado contra a moral, os bons costumes e a religião e por ter feito um hino à a lascívia e ao adultério feminino. A defesa é surpreendente. O advogado Sénard usa uma argumentação extravagante, totalmente confirmada pelo autor que ficou ao seu lado nas audiências. Sénard diz que o livro foi escrito por um homem rico e viajado,de família com grandes serviços prestados à sociedade (era filho de famoso cirurgião). A obra, um exemplo da mais alta moral, servia para alertar sobre os perigos de as mulheres serem educadas nos princípios que existiam apenas fora da sua classe social.

Mulher pobre não teria nada que ficar aprendendo coisas que não lhe dizem respeito. Se freqüentarem estabelecimentos educacionais reservados aos mais abastados vão aspirar ao que jamais terão. Vejam que perigo! No lugar de receberem uma formação forte (viril, no mínimo, pelo que eu entendi), um conjunto de valores férreos que vão ajudá-las no momento de fraqueza, elas acabam sendo levadas para a ilusão e a perdição. Estaria aí a essência da obra, segundo a defesa. Funcionou. Todo mundo foi absolvido: o autor, o editor e até mesmo impressor.

Para que as moças pobres, no futuro, mantenham a retidão, o casamento, seus deveres de esposa e mãe, devem ser treinadas para o lar, o trabalho, o sacrifício, a devoção. Nada de saírem de suas fazendolas, sítios, quintas para irem às cidades receberem a educação reservadas às ricas. O pobre pai de Ema queria que ela casasse bem, por isso não a encaminhou para as lides campeiras, mas para as prendas da alta classe. Ema viu-se assim frustrada, execrando o casamento com um pobre profissional da saúde que nem tinha título de doutor. Acabou sendo fisgada pelos devaneios, tornando-se presa fácil dos rapazes endinheirados ou jovens alpinistas sociais que buscavam aventura com mulheres casadas.

Madame Bovary seria assim uma espécie de manual de conduta para as senhoras, que veriam as punições que acarretariam o pulo da cerca. Ou seja, Flaubert jogou pesado e inverteu a arma contra seu próprio adversário, o governo imperial (a monarquia restaurada, depois dos insucessos de Napoleão). Saiu-se como um campeão moral, mas seu romance extrapola essas picuinhas da época. É, claro, uma obra-prima, uma lição de mestre de como se deve construir um romance, que extrapola todo o tipo de gênero. É realista e romântico, é psicológico e de costumes, é profundo e superficial. Foi vendido inicialmente como folhetim na Revue du Paris e se transformou num golpe contra a hipocrisia, os jogos de cena que amarravam as pessoas a duras relações baseadas nas aparências, no tédio e na mesmice.

Mas o livro fica imune ao jogo de forças entre tradição e ruptura, entre religião e ateísmo, entre ciência e ignorância. Trata das contradições de classe (e isso lhe empresta permanência): a esposa de classe média que aspira à riqueza e por isso se entrega a amantes ricos ou mais jovens do que ela; o farmacêutico que usa o exercício da sua profissão e textos publicados em jornais da província para conseguir a Legião de Honra; o agiota que explora as fantasias da senhora para arrancar-lhe o patrimônio; o cego que invade a carruagem para conseguir alguns trocos dos viajantes; o funcionário que precisa abrir mão de suas aventuras amorosas para não prejudicar a carreira; os camponeses explorados que são bajulados por um poder tirano e usurpador.

Ema Bovary é uma heroína cheia de contradições, que tem a ousadia de tentar romper com o cerco e acaba sendo vítima de sua própria determinação (não consegue se desvencilhar de sua situação de classe). Por se situar na fronteira entre a classe média e os ricos que usufruem de castelos, perfumes, roupas caras e teatros, ela mantém uma conduta ambígua o tempo todo. Sua fragilidade é confundida com sua força, seus encantos parecem ser sua redenção, sua inteligência acena, em vão, para algo maior do que a vidinha restrita de um casamento arranjado e medíocre. Ela reconhece seu erro (a impossibilidade de ascender socialmente), por descobrir a repetição das rotinas do casamento no fogo apagado dos escondidos encontros amorosos. Os amantes tornam-se tão insípidos quanto o marido.

Mas pouco podemos dizer dessa obra depois de tanto tempo e tantos gênios que se debruçaram sobre ela. O importante é ver como Flaubert compôs o drama, tantas vezes levado à tela e tantas vezes imitado.

A protagonista surge por acaso no início da história e aos poucos vai tomando conta de tudo. Aparentemente o livro é sobre o marido dela, Charles, que acaba ocupando papel secundário, mas ao mesmo tempo fundamental. Charles é a âncora desprezada pela mulher, o enamorado esposo que a tudo suporta e jamais a condena (vimos esse personagem mais tarde em Tchecov). O que vale a pena ver é como Flaubert jorra na criação de um universo riquíssimo em detalhes, a quantidade de palavras que usa, uma verdadeira enciclopédia, sem jamais cair na pieguice, no mau gosto ou nos excessos de estilo. Ele fazia cinema antes de ser inventado. Suas cenas são vivas, as paisagens saltam na cara, os protagonistas jamais nos abandonam.

“Dona Flor e seus dois maridos” é uma adaptação de “Madame Bovary”, de Flaubert. Jorge Amado casou Ema Bovary com o farmacêutico Homais (no romance francês, um vizinho muito presente) e colocou seus dois amantes (Randolphe e Leon) num só personagem, o fantasma libertino do primeiro cônjuge. Dona Flor assim vira uma Ema sem culpa, pois pula a cerca (em termos, já que trai o atual marido com o marido morto) mantendo as aparências sem se arruinar ou cometer suicídio. Como Dona Flor, também Capitu, de Machado de Assis, bebe da mesma fonte: a senhora distinta, casada, que enjoa dos laços matrimoniais e precisa resolver seu tesão, um tema que envolveu os escritores depois que Flaubert matou a charada de como abordar o tema maldito sem cair em desgraça.

Jorge Amado poderia ter escolhido outro tipo de marido monótono, mas optou exatamente pela figura do farmacêutico, o vizinho do casal Charles-Emma, que acaba ocupando uma posição central na história. Pernóstico, sério, interesseiro, pseudo intelectual, tudo do farmacêutico de Flaubert foi adotado pelo de Jorge Amado, que não se livrou do personagem depois da leitura e acabou se entregando a ele. Identificar os amantes de Ema com o marido libertino que assombra Dona Flor com suas tentações é perfeito, pois os amantes de Ema eram também fantasmas na vida pacata provinciana. Eles agiam de uma forma que só a mulher percebia.

Flaubert nos ensina como entrelaçar cenas e personagens sem cair nas armadilhas que acabam desmascarando o enredo perante o leitor. Algo cruza em determinado capítulo: isso vai se desdobrar mais adiante. Nada está fora do lugar, nada está forçado, nenhuma linha jogada fora. É de babar. Mais do que Ema Bovary, o que fica é a maestria do autor, um gênio da narrativa, insuperável. Podem tentar toda espécie de ruptura, o romance de Flaubert se manterá, intacto, como obra obrigatória. Proust, Barthes, Sartre e todos os outros grandes autores visitaram essas páginas importais e lhe renderam a atenção merecida.

Jorge Amado também. O que fez muito bem, pois seu modelo, seu paradigma, é o livro que surgiu como um terremoto e agora está sendo celebrado no seu sesquicentenário.

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