VOZES DO SILÊNCIO – UMA SINGULAR LITERATURA PLURAL
dez 18th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: LivrosNei Duclós
Estranha literatura a de Cícero Galeno Lopes. Funda-se numa impossibilidade: a de um narrador (um diferente para cada conto) que nunca é interrompido. É uma forma de identificar-se com a narrativa clássica que gerou, no século passado, Riobaldos e Blaus. Hoje sabemos que ninguém deixa ninguém falar. Vivemos numa civilização de dissidências, de estridências entre monólogos. Toda a narrativa é interrompida – porque o Outro não existe mais. Na literatura, é a crítica – ou melhor o seu silêncio e insensibilidade – que corta a narrativa ao meio, impede que o escritor ultrapasse o livro de estréia ou o condena ao limbo. O talento e o ofício da escrita, no Brasil, tem sempre um pé na vala comum do silêncio em torno.
Mas é de outros silêncios que se alimenta Cícero, que ajudam a aumentar a densidade da estranheza de sua literatura. Primeiro, a dos despossuídos. O povo brasileiro vive calado, sentado ou trabalhando, à beira do fogo ou da janela, apertado nas grandes cidades, desconfortável onde quer que esteja. Não fala, mas nestes livros – Conto e Contraponto e A Curva da Estrada (ambos pela Editora Movimento) – o povo não pára de narrar. Para quem? Para um ouvinte imaginário. O truque de Simões Lopes Neto, abraçado mais tarde por Guimarães Rosa, inventa uma oposição entre o narrador analfabeto – que se manifesta, pela mão do autor, num narrador de linguagem sofisticada (por ser recriação de um palavreado arcaico que encontra novas substâncias no fazer popular) – e o ouvinte letrado (que torna-se, agora por obra deste autor, num arrogante forçado a escutar).
O monólogo assim ganha contornos de depoimento policial, de resposta a inquirição sociológica, de argumentação de personagens que estão no limite e que usam a fala como último recurso de sobrevivência. Mas a contundência (irmã da estranheza) não vem desses personagens do povo – todos sofredores e ao mesmo tempo cientes de que o conhecimento repassado pela experiência é superior à posição falsamente privilegiada do ouvinte. O impacto nasce da múltipla armação do autor, que omite o leitor verdadeiro – “o senhor leia” é um aviso para o ouvinte fictício e não para quem está com o livro na mão – e cobre de sombra a ele próprio, o escritor do conto (nunca autobiográfico).
Como ultrapassamos a era da inocência, sabemos que Cícero é quem tece a artimanha e por isso deve sofrer a desconfiança: onde está a sinceridade, se o povo que fala é fictício (lembra o povo brasileiro, real, que cala) , se o poder de quem ouve não se manifesta (lembra as hierarquias, reais, onipresentes), se a linguagem usada é inverossímel (porque resgata falas reais por meios de linhagens literárias), se o livro está alicerçado em impossibilidades?
Cícero importa-se com outra coisa, já que não está disposto a fingir pseudo verdades. Ele se preocupa em denunciar os inúmeros silêncios. Primeiro, o do autor que se apresenta sem se mostrar. Segundo, o dos narradores que cansaram de escutar (falam porque passaram a vida de boca fechada) . Terceiro, o do ouvinte com a língua amarrada, sem poder interferir na narrativa, tendo que aceitar o papel de vilão em todas as histórias. Quarto, a do leitor, que não se identifca com ninguém. Nas duas pontas, autor e leitor são os fantasmas de uma realidade que revela seus clones, narrador e ouvinte.
Denunciar muitos silêncios por meio de algumas palavras escolhidas é a maneira que Cícero encontra de não revelar o Mesmo, mas a diversidade, o Outro oculto. Para isso tece redes improváveis, que não servem para fisgar peixes, mas parceiros. Ele é como um pescador aposentado que vai para a praça, coloca seu banquinho, amarra a rede ainda por fazer na árvore e vai dando ponto com nó. Dali a pouco alguém se abanca. A roda do convívio forma um nicho de narrativas, que vão e vem, se soltam, se amarram mais adiante. Todos falam, todos escutam. Mas o vento leva na cacunda a sabedoria que ali se acumula. Os personagens dessa roda não se importam. No dia seguinte o autor estará ali, de novo, colocando o conto, apontando o ponto. O que vale é a qualidade do fogo, o sabor do amargo, a lembrança que traz cada baforada do crioulo.
Dali a pouco a rede fica pronta. Cícero volta para casa e desamarra cada um dos nós, para recomeçar tudo depois. O que vale é o imã entre corações humanos, a conversa em espiral – seja ela rebuscada, artificial, oblíqua, eficiente, mágica ou marginal. Importa o entrecruzamento de vozes, agora transfiguradas em letras impressas, mas vivas. Elas são como uma coleção de insetos que fingem-se de mortos e, quando ninguém está vendo, escapam da caixa para espiar a lua.