mai 102010
 

LEONID ANDREIEV

(1871 — 1919)

Leonid Andreiev

LEÔNIDAS NIKHOLAIEVITCH ANDRÉIEV

Poucos anos depois do aparecimento de Gorki, entre 1895 e 1900, apareceu nos meios literários russos um contista, que logo chamou a atenção do público. Era LEÔNIDAS NIKHOLAIEVITCH ANDRÉIEV, nascido^ em Orei em 1871, de família burguesa, formado em Direito pela Universidade de São Petersburgo e mesmo tendo exercido a profissão de advogado, acabou abandonando essa carreira pela literatura. Viveu parte da sua existência na Alemanha e na Finlândia, onde faleceu.

Personagem bastante complexo sob o ponto-de-vista psicológico e artístico, Andrêiev foi um fiel intérprete da própria época em que viveu e dotado de bastante originalidade.

Escreveu: "O abismo", seu primeiro e retumbante êxito (1902) seguido de "O pensamento", "O governador", "O riso vermelho", etc. "O rei fome", que escreveu mais tarde, obteve tal êxito que, num só dia, vendeu os 18.000 exemplares impressos dessa obra. Sua obra é vasta, tendo se espraiado pelo teatro, onde é considerado um artista de valor pela sua produção. O escritor é mesmo apontado como um dos renovadores modernos da cena. Seu "Diário de Satanaz" foi publicado apôs a morte.

Exilado voluntário na Finlândia depois da revolução russa com a qual não concordou, aí faleceu, vítima de um envenenamento, intencional ou talvez acidental (o escritor já havia tentado contra a vida em outros tempos) deixando uma obra digna de estudo e reconhecimento, filiada à corrente realístico-simbolista que no-seu tempo dominou a ficção russa.

O GRANDE “SLAM”

Jogavam três vezes por semana: às terças, quintas e sábados. O domingo seria excelente para esse efeito, mas tinham de aproveitá-lo para certas distrações ou. deveres acidentais, como ir ao teatro ou fazer uma visita. Daí, ser considerado o dia mais estúpido de todos. Entretanto, quando estavam no campo, aproveitavam também o domingo para o jogo. Os parceiros eram estes: o corpulento e irritável Maslenikov e Jacó Ivanovitch. Esta combinação fora estabelecida seis anos antes e Eufrásia Vasilievna insistira sempre por que se mantivesse assim; se jogasse contra o irmão, o caso não ofereceria o mínimo interesse nem para ela nem para êle, visto que os lucros de um se equilibrariam com os prejuízos do outro. Embora nenhum necessitasse de dinheiro, ela não compreendia que se pegasse nas cartas só pelo prazer de jogar, e a verdade é que se sentia deliciada quando eram eles que ganhavam. Esses proventos guardávamos ela numa caixa especial e afiguravam-se-lhe mais preciosos e importantes do que as somas graúdas com que pagava a renda da casa e as suas despesas domésticas.

Encontravam-se os quatro na residência de Procópio Vasilievitch, que morava num andar amplo e confortável sozinho com a irmã (sem falar no gato branco, que estava sempre dormindo em cima duma poltrona). Desta maneira, tinham a certeza de não serem incomodados por mais ninguém e de obterem o sossego essencial para a sua ocupação. O dono da casa era viúvo: perdera a mulher no segundo ano de casado e estivera dois meses, depois disso, num hospital de doenças nervosas. Eufrásia conservava-se solteira, embora tivesse namorado um estudante, durante algum tempo. Ninguém sabia — e ela esquecera-se já — qual o motivo por que não houvera casamento; todavia, quando da festa anual em benefício dos estudantes pobres, nunca deixara de enviar à respectiva comissão, a quantia de cem rublos acompanhada dum bilhete em que assinava Um anônimo. Era a mais nova dos quatro jogadores: tinha quarenta e três anos.

O mais velho de todos, Maslenikov, aborreceu-se, a princípio com aquele arranjo dos parceiros, pois via-se obrigado, dessa forma, a jogar sempre com Jacó Ivanovitch; ou melhor, a renunciar ao seu sonho do grande "slam" sem trunfo. Sob todos os ângulos bem se podia dizer que esses dois homens não se coadunavam nada um com o outro. Jacó Ivanovitch era um velhinho seco, silencioso e solene, que até em pleno verão usava sobretudo e meias de lã. Chegava sempre às oito horas (nem um minuto antes nem um minuto depois) e pegava logo no lápis; muito largo num dos dedos, movia-se-lhe o anel, onde brilhava um diamante enorme. O que nele havia de mais detestável, na opinião do seu parceiro, era o fato de nunca se comprometer a nada mais importante do que quatro vazas, mesmo que tivesse boa mão e a vitória estivesse garantida. Aconteceu uma vez, que Jacó Ivanovitch começou com o seu processo cauteloso \e Maslenikov, irritado, atirou as cartas em cima da mesa; o velhote, muito sossegadamente, apanhou-as e foi marcando os pontos necessários para fazer as quatro vazas. (1)

— Desiste do grande "slam"? bradou Nicolau Demetrievitch (era este o nome e o patronímico de Mas-enikov).

— Nunca vou além disto, replicou, secamente, o interpelado. E acrescentou à guisa de explicação: —> Nunca se sabe o que pode suceder.

Nicolau Demetrievitch jamais conseguiu convencê-lo. O jogo deste era sempre ousado, mas, como tinha pouca sorte, perdia, sem, no entanto, desesperar, pensando desforrar-se, invariavelmente, na próxima partida. Com o decorrer do tempo, foram-se habituando, um ao outro, e deixaram de fazer recíprocas observações. Nicolau Demetrievitch arriscava-se, como de costume; Jacó Ivanovitch tomava nota das vazas perdidas e mantinha o seu nistema.

Assim se entretinham no verão e no inverno,-na primavera e no outono. O mundo continuava a sua existência, ora alegre ora triste e seguia o seu curso através do espaço entre gargalhadas e gemidos, alegrias e sofrimentos. Destas ocorrências da vida alheia Nicolau Demetrievitch trazia, às vezes, até junto dos outros, um eco do que se passava lá fora: Em certas ocasiões, fazia esperar os amigos: chegava atrasado, quando estes jáestavam sentados à mesa, com as cartas abertas em leque sobre o pano verde.

Maslenikov, de faces coradas, irradiando a frescura do ar livre, tomava, às pressas, o seu lugar em frente a Nicolau Ivanovich e, desculpando-se, dizia:

— Que porção de gente pelas ruas! Todos num vaivém sem destino.. .

Eufrásia Vasilievna considerava seu dever de dona de casa não prestar grande atenção às singularidades dos convidados. Limitava-se a responder, enquanto o velhote seco, solene e silencioso preparava o lápis, e o irmão dava alguns retoques no serviço de chá:

— O tempo deve estar bonito. Mas … não seria melhor começarmos?

E começavam. A sala pomposa permanecia calma, todos os sons morriam nos pesados reposteiros e na espessura dos tapetes e dos estofos. Sobre o tapete se perdiam, sem ruído, os passos da criada, ao distribuir as xícaras de chá muito forte; mal se lhe ouvia o rumor da saia engomada ou o riscar do lápis de Jacó Ivanovitch ou algum suspiro de Nicolau Demetrievich. A chávena deste ficava numa mesa à parte, com um chá mais fraco, que êle bebia sempre pelo pires.

No inverno, Maslenikov observava que a temperatura, de manhã, fora muito fria e que, nesse momento, estava mais agradável. No verão não era raro dizer:

— Vi muita gente a caminho do campo, com suas cestas…

Eufrásia acolhia essas frases com benevolência. Se jogavam na varanda, nos meses de calor, era seu hábito perguntar (embora nem uma nuvem toldasse o firmamento) :

— Parece-lhe que vai chover? O velhote seco pegava nas cartas, com solenidade, e,

conforme o que lhe vinha ter à mão, assim se convencia, mais ou menos, da frivolidade incorrigível do parceiro. Certo dia, Maslenikov alarmou extraordinariamente o grupo. Por mais de uma vez se referiu ao caso Dreyfus, chegando a declarar:

— Aquilo vai de mal a pior.

Daí a pouco riu-se e observou que a sentença injusta seria, decerto, anulada. Por fim, exibiu um jornal e leu um artigo, ainda sobre o mesmo assunto.

— Já acabou? inquiriu Jacó Ivanovitch, escandalizado. Mas o outro não ouviu e continuou na leitura. Desta maneira, Maslenikov conduziu os amigos, nessa ocasião, a discutirem o caso, originando-se rápida disputa. Eufrásia Vasilievna recusava-se a aceitar as formalidades do processo e queria que o condenado fosse, sem mais nem menos, absolvido. Jacó Ivanovitch e o irmão dela afirmavam que se tornaria necessário proceder, primeiro, a certas exigências legais, antes de conceder a absolvição. O velhote seco, porém, recaiu em si (foi o primeiro a lembrar-se do jogo) e indagou:

— Não acham que é tempo de começar? Prepararam-se para jogar e, dissesse o que dissesse Maslenikov a respeito de Dreyfus, não encontrou da parte dos outros senão silêncio obstinado.

Assim se entretinham no verão e no inverno, na primavera e no outono. Uma vez ou outra havia um incidente engraçado, como naquela partida em que o irmão de Eufrásia se esqueceu do que a parceira havia marcado e não fêz a vaza, quando a coisa estava de antemão assegurada. Nicolau Demetrievitch riu com vontade e. exagerou o valor do prejuízo sofrido.

Quando Eufrásia Vasilievna tinha muito bom jogo, produzia-se no grupo uma grande excitação. Ela própria ficava corada, desnorteava-se, não sabia onde pôr as. cartas e olhava suplicante para o irmão que se conservava calado. Os outros dois, com a mais cavalheiresca das simpatias pela sua fragilidade feminina, animavam-na com sorrisos condescendentes, enquanto esperavam impa-cintemente o resultado. Mas, em geral, quando jogavam, permaneciam sérios, pensativos. Para eles, as cartas haviam de há muito perdido o seu aspecto de simples coisas: adquiriam personalidade e independência, tenham, por assim dizer, vida própria. Uns gostavam duns naipes, outros, de outros; estes davam sorte, aqueles não; dir-se-ia que as cartas fugiam ao domínio dos jogadores, subtraindo-se ao desejo deles, tornando-se livres, insubmissas; era como se possuíssem gostos, preferências e caprichos. Jacó Ivanovitch recebia, quase sempre, copas, e a Eufrásia Vasilievna cabiam espadas, coisa que ela detestava. Noutros momentos, julgar-se-ia que os naipes se divertiam à custa dos jogadores; a Nicolau Demetrie-vitch não calhava nenhum deles em especial; as cartas na. mão deste homem, eram como hóspedes de passagem num hotel, iam e vinham com indiferença… Durante uma semana, por exemplo, só lhe acertavam duques e ternos, que lhe apareciam com ar insolente e motejador. Nicolau Demetrievitch estava convencido de que nunca faria o grande "slam" pelo fato de as cartas desconfiarem da sua ambição e lhe virem parar às mãos já com o propósito firme de o desiludirem. Debalde licitava êle no leilão inicial; elas percebiam-lhe o estratagema e, quando Maslenikov verificava o jogo, dir-se-ia, por exemplo, que três seis lhe sorriam e que o rei de espadas, que eles haviam trazido na sua companhia, lhe piscava, malicioso, o olho.

Eufrásia Vasilievna não aprofundava tanto a qualidade misteriosa das cartas. Jacó Ivanovitch que desde há muito tempo compusera a sua atitude grave e filosófica, jamais se surpreendia ou se encolerizava; revestira contra a sorte aziaga, aquela armadura que era a sua norma: nunca ir além de quatro vazas. Era só, pois, Nicolau Demetrievitch quem se preocupava e afligia com o caráter caprichoso, com a inconsequência irônica das cartas. Quando estava deitado na cama, ainda voltava a pensar no seu ambicionado grande "slam" sem trunfo e achava a coisa fácil e possível; um ás, depois de um rei, depois outro ás… Mas quando cheio de esperança, se sentava a jogar na noite seguinte, os malditos seis lhe surgiam mais uma vez, arreganhando os dentes. Havia nisso algo de fatal e enigmático. Pouco a pouco, o grande "slam" sem trunfo foi-se tornando o sonho máximo de Nicolau Demetrievitch.

Outros acontecimentos se produziram, que nada tinham que ver com as cartas. O corpulento gato branca de Eufrásia Vasilievna morreu de velho e foi, com permissão do senhorio, enterrado no quintal do prédio, Nicolau Demetrievitch mais uma vez desapareceu, agora por duas semanas inteiras; não contente com isso, ausentou-se por outra semana ainda, e ninguém sabia que pensar de semelhante coisa nem que resolução tomar, uma vez que o "vint" com três pessoas era contrário aos hábitos daqueles jogadores e considerado sem graça. Quando Maslenikov reapareceu, notaram-lhe no rosto (outrora corado, tão em contraste com o tom grisalho do cabelo) certa palidez quej um pouco de magreza mais fazia ressaltar. Declarou que o filho mais velho fora preso por qualquer coisa e conduzido para S. Petersburgo. Os outros ficaram surpreendidos, pois ignoravam que Maslenikov tivesse filhos; com certeza, êle, alguma vez, devera ter aludido ao fato, mas a verdade é que os amigos já se havia mesquecido. Pouco depois, ausentou-se de novo esse homem incorrigível, faltando num sábado, que era o dia em que jogavam mais; em seguida, souberam, também com espanto que Nicolau Demetrievitch sofria, desde longa data, do coração, e que, nesse tal sábado, ficara retido em casa por motivo dum ataque cardíaco.

Sentaram-se, finalmente, os quatro, dispostos a recomeçar as partidas; o próprio Maslenikov, antes tão cheio de interrupções inoportunas, agora raras vezes conversava. Só se ouvia o fru-fru das saias da criada, enquanto na sala pomposa as cartas macias iam escorregando entre os dedos e vivendo sua existência repleta de silêncio e de mistério, em absoluto alheia à vida dos que jogavam com elas. Para Nicolau Demetrievitch continuavam a ser esquivas, senão maliciosa e trocista; dir-se-ia residir algo de fatalista no baralho.

Numa quinta-feira, 26 de novembro, produziu-se, enfim, uma alteração extraordinária nas cartas. Mal havia começado o jogo, e já Nicolau Demetrievitch obtinha a seqüência, fazendo não só as vazas prometidas, mas, ainda, um pequeno "slam", quando Jacó Ivanovitch exibiu um ás com que o parceiro não contava. Depois, durante certo tempo, foram aparecendo os seis do costume, mas, dum momento em diante, vieram naipes com-pletós, como se cada um deles estivesse ansioso de tomar parte, por sua vez, na alegria de Maslenikov. Assim cumpriu êle, jogo após jogo, as vazas prometidas, com grande pasmo dos outros, até do próprio Jacó Ivanovitch. A excitação de Nicolau Demetrievitch comunicou-se aos amigos; as cartas deslizavam-lhe rápidas, nos dedos gordos e suados, cujos nós tinham rugas salientes.

— Você, hoje, está com sorte, observou, com ar grave, o irmão de Eufrásia Vasilievna. Não acreditava, no entanto, na duração daquela súbita reviravolta. Por experiência própria sabia que o desastre não havia de tardar.

A dona da casa, por seu lado, regozijava-se com o fato de Maslenikov ter boas cartas, ao menos uma vez na vida. E como seu irmão formulasse suas dúvidas, ela fingiu cuspir de lado, a fim de conjurar a profecia.

Durante momentos, o jogo pareceu incerto. As mãos de Nicolau Demetrievitch foram para uns duques, que se mostraram com ar culposo; depois, com celeridade, surgiram ases, damas e reis. O afortunado mal tinha tempo de reunir as cartas e de falar. Quando era êle a dá-las, enganava-se, com freqüência. A felicidade bafejava-o; no entanto, o parceiro mantinha-se prudente. O espanto deste último, dera lugar à descrença naquela inesperada alteração da sorte e mais de uma vez lembrou a Maslenikov a sua norma fixa de não ir além das quatro vazas.

Nicolau Demetrievitch estava, agora, corado e anelante. O outro irritava-o. De maneira que, sem hesitar, começou a fazer promessas audaciosas, convencido de que teria as cartas todas de que necessitava.

Chegou a vez de ser Procópio Vasilievitch a distribui-las. Maslenikov verificou as suas, sentiu um baque no coração e a cabeça girar-lhe à roda. Ante os olhos passou-lhe uma nuvem. Tinha, na mão, copas e paus desde ás a dez, e ainda o ás e o rei de ouros. Se tirasse o ás de espadas, ficaria apto a fazer o grande "slam" sem trunfo.

— Duas sem trunfo, começou êle, dominando, a custo, a perturbação da voz.

— Três espadas, replicou Eufrásia Vasilievna que estava também excitadíssima, pois tinha quase todas as «spadas, incluindo o rei.

— Quatro copas, prometeu secamente Jacó Ivanovitch.

Nicolau Demetrievitch declarou, a seguir, um pequeno "slam" mas Eufrásia, fora de si, não quis renunciar, e, embora soubesse muito bem que não tinha probabilidades, falou logo em grande "slam" de espadas. Maslenikov hesitou nus segundos e, depois, em tom que se afigurou a todos vitorioso (mas que era só para iludir a desconfiança) pronunciou, devagar:

— Grande "slam" sem trunfo!

Nicolau Demetrievitch ia fazer o seu grande "slam" sem trunfo! Todos olharam assombrados, e o irmão da dona da casa exclamou: "Oh!"

Então, Maslenikov estendeu a mão para o baralho, mas esta tremeu e derrubou uma vela. Eufrásia apanhou-a e êle, por instantes, ficou hirto, imóvel, com as cartas em cima da mesa. De repente ergueu as mãos e tombou lentamente para o lado esquerdo. Na queda, arrastou consigo uma mesinha onde estava o pires de chá.

Quando o médico chegou, disse que Nicolau Demetrievitch morrera de síncope cardíaca e, para consolar os outros, acrescentou que o infeliz não devia ter sofrido nada. Deitaram o morto num divã, na mesma sala em que tinham estado a jogar, e cobriram-no com um lençol. O cadáver apresentava aspecto aterrador. Dobrado para um lado, um dos pés ficara descoberto, e parecia não lhe pertencer: era como se fosse de outra pessoa; na sola da bota preta, quase nova, tinha aderido um pedaço de folha de estanho, dessas com que se embrulham chocolates. A mesa do jogo conservava-se como a haviam deixado, com as cartas espalhadas e voltadas para baixo. Só as de Nicolau Demetrievitch é que estavam em monte, tal qual êle as tinha posto.

Jacó Ivanovitch começou a andar de cá para lá, na sala, em passos miúdos e incertos, fazendo o possível para não olhar o defunto nem pisar o chão fora do tapete, com receio de fazer barulho. Ao aproximar-se, numa das vezes, da mesa de jogo, pegou cuidadosamente nas cartas do seu falecido parceiro, examinou-as e colocou-as, outra vez, no mesmo lugar. Depois, verificou o baralho e encontrou logo o ás de espadas, a própria carta de que Nicolau Demetrievitch precisava para o seu grande "slam". Jacó Ivanovitch deu mais alguns passos no tapete e, depois, foi para a sala contígua. Abotoou o sobretudo até o pescoço e derramou algumas lágrimas de comiseração pelo pobre morto. Fechando os olhos, procurou recordar-se de como era a cara de Maslenikov, nos seus dias de bom humor, quando ria satisfeito pelas vitórias alcançadas. Comoveu-o, em especial a lembrança daquele desejo insatisfeito do grande "slam" sem trunfo, e pôs-se a recapitular as várias cenas dessa noite, desde a vaza de ouros que o parceiro fizera, até esse fluxo contínuo de cartas boas, que lhe apreceram, aliás, pre-nunciadoras de mau desfecho. Agora, Nicolau Deme-trievitch não era deste mundo; morrera precisamente quando ia fazer um grande "slam".

Então, uma idéia terrível na sua simplicidade, fez estremecer o corpo seco de Jacó Ivanovitch e obrigou-o a pular na cadeira. Perscrutou; em volta de si, como se o pensamento não lhe tivesse vindo do próprio cérebro, mas houvesse sido inspirado por outrem, e disse em voz alta: "Mas, afinal, êle não chegou a saber que o ás estava no baralho e que o grande "slam" era coisa garantida. E já não pode sabê-lo!"

E só nesse momento é que Jacó Ivanovitch se compenetrou do que significava, realmente, não existir. Compreendeu o que era a morte e a coisa apareceu-lhe horrível. Nunca poder chegar a saber! Ainda que fosse, agora, gritar ao ouvido de Maslenikov e meter-lhe as cartas pelos olhos adentro, nem assim este perceberia nada, porque estava morto! Mais um pequeno gesto, mais um segundo de vida, e Nicolau Demetrievitch teria visto o ás e sabido que tinha, de fato, o grande "slam". Mas sucedera aquela desgraça sem remédio, e o jogador não conhecera a sua sorte, não soubera quanto fora afortunado, nunca mais o saberia!

— Nunca, nunca… — repetiu Jacó Ivanovitch, soletrando a palavra, a fim de aprender melhor o significado.

A palavra existia, sim, e tinha significação, mas era tão estranha e tão amarga, que Jacó Ivanovitch se deixou cair, outra vez, numa cadeira e recomeçou a chorar. Lastimava o seu amigo por haver morrido na ignorância e lastimava-se a si mesmo e aos outros pela possibilidade

em que estavam de lhes poder suceder coisa análoga. Enquanto chorava o morto, ia imaginando que estava a jogar com êle, fazendo vaza após vaza até treze e calculando quanto deviam ter ganho, coisa que Maslenikov ignoraria também por toda a eternidade! Foi a primeira e única vez em que Jacó Ivanovitch pôs de parte a sua norma das quatro vazas apenas; e, em pensamento, jogou um grande "slam" sem trunfo, em honra do seu amigo.

— E você Jacó Ivanovitch? perguntou Eufrásia Vasilievna, entrando ali. Afundou-se numa poltrona ao lado dele e rompeu em pranto. — Que horrível que isto é!

Olharam-se mutuamente e choraram em surdina, lembrando-se de que na sala ao lado, sobre o divã, jazia o cadáver dum homem, corpo frio, pesado e silencioso.

— Mandou prevenir a família? inquiriu Jacó Ivanovitch, assoando-se com violência.

— Sim. Meu irmão e Anuska já partiram; mas não sei se encontrarão a casa, porque não temos o endereço.

— Não morava na mesma do ano passado?

— Não, tinha-se mudado. Diz Anuska que êle costumava mandar o carro seguir para qualquer parte da Avenida Novenski.

— Talvez descubram, através da polícia, volveu o velhote seco, para consolar. Creio que era casado; não era?

Eufrásia Vasilievna esgazeou os olhos para Jacó Ivanovitch e não respondeu. A êle, afigurou-se que nesse olhar se refletia o seu próprio pensamento, certa idéia que lhe ocorrera nesse instante. Tornou a assoar-se, meteu o lenço no bolso cio sobretudo, e indagou, com ar apreensivo:

— Onde arranjaremos, agora, um quarto jogador? Mas, Eufrásia Vasilievna, absorvida em pensamentos de outra natureza, relacionados com a sua qualidade de dona de casa, não ouviu o que êle dissera. Depois de Curtos momentos, inquiriu,-por sua vez:

— E você, Jacó Ivanovitch, ainda mora no mesmo lugar ?

(Tradução revista de Cabral do Nascimento apud Obras-Primas do Conto Russo).

mar 142008
 
maravilhas das antigas civizações

A FORMAÇÃO DO SUPER-HOMEM NIETZSCHEANO ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO PELO E PARA O ÓCIO

THIAGO FELIPE SEBBEN

Monografia apresentada à graduação do curso de Educação Física do Centro Universitário Positivo como requisito parcial à obtenção dos títulos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física.

Orientador: Mestre Alexandre França Salomão.

CURITIBA

2007
DEDICATÓRIA

Dedico a inspiração transcrita a seguir a todas as pessoas que aproveitam seu tempo livre com ócio; aos artistas; aos criadores; aos destruidores; aos transformadores; aos sábios; aos contempladores e aos professores – os portadores de toda a riqueza da humanidade.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à amiga Juliane, artista de incomparável vigor criativo – uma das poucas a entender a magnitude do transe criativo e o desfrutar desse prazer. A união levada ao extremo, um ambiente de intensidade descontrolada, o criar novas formas de convívio dia após dia: em tudo isso vejo a artista por excelência em ti – uma preocupação com a qualidade, acima de tudo. Da mesma forma que o filósofo degusta-se com o pensamento, o artista faz com sua obra – degustando-se em sua criação.

Agradeço ao amigo Manoel Roberto, um erudito original, perspicaz e visitador das entranhas de qualquer pensador. Obrigado pela sua propensão ao debate e por seus inúmeros questionamentos – sempre norteados pela coerência. É sabido que tu és um homem da teoria, meu caro erudito, deixando por muitas vezes de lado a própria prática dessa teoria. Mas é sabido também que o debate é ação – e ação da mais nobre: o agir político. E é aí que encontro a nobreza de teu caráter.

Agradeço ao irmão Ivan, um exemplo do constante auto-superar-se. Dentro de sua mente misteriosa residem as mais ácidas ironias e sarcasmos – produto de um misto de loucura e razão onde tramita o mais profundo de teu ser. Mestre no fazer-rir, sela cada momento com o riso de todos, e está dissipada qualquer gravidade – faça me rir!

Agradeço ao Salomão, mestre no maior discernimento do termo. Obrigado por ter permitido, confiado e encorajado o trilhar de meu próprio caminho, de meu próprio estilo. Tamanha dádiva revela o quanto de mestre há em ti, pois mostra sua intenção em permitir o “tornar-se quem se é”.

Agradeço ao pai Ivan, pelos contratempos mais preciosos de minha vida, verdadeiras jóias no corolário que compõe o amadurecer de si próprio. E também sugiro, querido pai, que preste atenção quando falo do último-homem: afasta-se dele, que do seu ocaso já está por surgir o teu verdadeiro ser.

Agradeço à mãe Hilda, por ser sólida como uma rocha, ao mesmo tempo em que é leve na eloqüência e nas relações humanas. Estimada mãe, em tal condição está o fechamento do círculo da contradição entre a gravidade e a leveza, e isso é só afirmar a própria vida.

Agradeço ao amigo Douglas, por ser parceiro das mais altas experimentações da loucura que vem da natureza. O medo, o susto, o desespero, ao mesmo tempo em que a vida é pulsar no mais alto grau, e que a exuberância transbordante da natureza mostra-se infinita – a entrada numa dessas portas da percepção. Aqueles momentos em que a “loucura-eterna” parece triunfante e, de repente, tudo se encaixa, tudo faz sentido e do caos surge uma nova ordem. Talvez seja isso o que os experimentadores possuem de melhor: cada vez que experimentam a loucura organizam tudo numa nova ordem, num novo entendimento da vida – e aí está a mais alta criação: o criar-a-si-próprio.

Por fim, agradeço aos companheiros dessa viagem – os primos, como dizia um amigo meu do Cabo Verde – que estão lá no final, arrolados sob o título de “Referências Bibliográficas”.

SUMÁRIO

 

 

DEDICATÓRIA

AGRADECIMENTOS

RESUMO

ABSTRACT

1  INTRODUÇÃO

2 METODOLOGIA

3 GENEALOGIA DO ÓCIO

4 (DES)EDUCAÇÃO: A EDUCAÇÃO E EDUCAÇÃO FÍSICA PELO E PARA O ÓCIO

5 INTERPRETAÇÕES DO SUPER-HOMEM: QUEM É ELE?

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

7 EPÍLOGO>

8 REFERENCIAL TEÓRICO


RESUMO

Através de uma perspectiva genealógica do conhecimento que se preocupa com o valor e o sentido das coisas, buscou-se experimentar o pensamento educacional, transvalorando-o por completo pelo conceito de (des)educação. Tal proposta vem acompanhada de outras duas: a transvaloração do ócio face à redução da valorização do trabalho, e a adoção do Super-Homem – o homem superado por si próprio – como figura apropriada para este novo paradigma educacional. No capítulo Genealogia do Ócio, discute-se como se procedeu a mudança de sentidos do ócio ao longo da história e, adiante, examinam-se os motivos do início da decadência da educação pelo e para o ócio na Grécia trágica. Traça-se, a partir disso, um esboço de como fazer para desconstruir a educação hoje existente, em favor da educação pelo e para o ócio. O método genealógico, levado a uma experimentação diferente e nova, coloca instrumentos variáveis na genealogia e investiga a noção de Super-Homem – o que é e como pode ser interpretada no contexto pedagógico. No aspecto normativo, a presente tese amarra o argumento com fortes nós – para aqueles que tentem desatá-los, que falhem em sua própria ruína.

 

Palavras-chave: Educação, Nietzsche, Super-Homem, Ócio, Educação Física.


ABSTRACT

 

 

 

Through a genealogical perspective of knowledge that is concerned about the value and the meaning of things, sought is trying out educational thought, transvaloranting it entirely by the concept of (un) education. That proposal is accompanied by two others: the transvaloration of idleness in the face of reduced valuation of the work, and the adoption of the Super-Man, the man overtaken by itself, as appropriate figure for this new educational paradigm. In Chapter Genealogy of idleness, discusses itself as if it senses a change in the idleness throughout history and, later, examine the reasons is the beginning of the decay of education by and for idleness in Greece tragic. Mapping is, as appropriate, an outline of how to unmake education exists today in favor of education by and for leisure. The method pedigree, taken to a different and new experiments, puts instruments variables in genealogy and investigates the concept of Super-Man – what is and how it can be interpreted in the context teaching. In the normative aspect, the present thesis moor the argument with strong us – for those who try unlace them, which fail in their own ruin.

Keywords: Education, Nietzsche, Super-Man, Idleness, Physical Education.

 


1 INTRODUÇÃO

 

 

Quando Aristóteles escreveu, em sua obra “Ética a Nicômaco”, que “trabalhamos para poder ter momentos de ócio” (2006, p. 229), ele acabou descrevendo e cunhando de forma universal a relação entre trabalho e lazer, já que àquela época o ócio era o próprio lazer – encontramos que “desde os primórdios da sociedade grega, os sentidos de lazer são atrelados ao ócio” (WERNECK, 2000, p. 27). Como o trabalho é “a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana” (WERNECK, 2000, p. 25) e servia para produzir somente o que era necessário e útil, e o lazer seria a libertação desse modo de vida, a relação trabalho e lazer, possui, também, uma inter-relação mais profunda e verdadeira – “a dialética necessidade-liberdade” (WERNECK, 2000, p. 27).

Porém, na sociedade atual o ócio deixou de ser o próprio lazer, através de um desvirtuamento. O raio que separou os dois conceitos e fez com que surgisse a dimensão do “lazer decadente/degenerado” na sociedade atual, foi a supervalorização do labor – e com a tecnologia e a mecanização do tempo como conseqüências desse mesmo raio.

Conforme encontramos em Camargo (1998, p. 32), essa supervalorização do labor obteve seu auge “na nascente sociedade industrial capitalista dos séculos XVIII e XIX, na qual a lógica era: produzir cada vez mais e em menos tempo e custo possíveis, para, claro, gerar mais lucros.” Essa lógica levou a uma exploração que beirou a escravidão, com jornadas de trabalho que totalizavam mais de 4.000 horas/ano. Ainda segundo o mesmo autor, graças à ação comum dos sindicatos de trabalhadores, aliada à pressão dos movimentos sociais da época e, ainda, à evolução das ciências da gestão e produtividade, iniciou-se um processo de diminuição da jo4rnada de trabalho. Nesse ponto, cabe ressaltar que houve também um paralelo aumento no desemprego – ou seja, na ociosidade -, tendo em vista o desenvolvimento tecnológico ocorrido. A esse respeito, cabe diferenciar conceitualmente ócio e ociosidade:

Enquanto ócio significa uma opção nos momentos de lazer; a segunda refere-se ao “nada fazer socialmente produzido”, seja por meio da exploração em diferentes âmbitos, como acontecia na sociedade grega; ou por meio da incapacidade do sistema produtivo de absorver todo o seu potencial humano, como acontece hoje, por exemplo, com os desempregados em nossa sociedade (MARCELLINO, 1987).

 

Voltando-se à discussão empregada por Camargo (1998, p. 32), temos que hoje, no Brasil, a jornada de trabalho é de, em média, 1.800 horas/ano; ao passo que na Europa é de, em média, 1.600 horas/ano. Consequentemente, um tempo livre praticamente inexistente no início da revolução industrial vem crescendo gradativamente, chegando a 35 horas/semana no Brasil e, nos países desenvolvidos, já sendo maior que o tempo de trabalho.

Esse tempo livre, pago pelo trabalho – fato o qual Bramante (1998, p. 11) chama de “tempo conquistado” -, foi basicamente ocupado com experiências de lazer, de modo que hoje tempo livre e lazer são tido como sinônimos. Esse processo foi denominado de “revolução científico-técnica” por Dumazedier. O ócio, neste contexto atual, é tido como apenas mais uma forma de experiência de lazer, em que o tempo conquistado é empregado numa atividade ociosa.

Para pensadores mais nefastos/trágicos, como PIEPER (2004), o ócio simplesmente deixou de existir na sociedade atual. Após uma exposição das três facetas do demônio da sobrevalorização do trabalho – a sobrevalorização da atividade em geral, a sobrevalorização do esforço e do difícil e a sobrevalorização da função social -, o autor revela:


Dirigindo o olhar, depois desta tríplice sobrevalorização do trabalho, ao conceito "ócio", nota-se logo: neste mundo do trabalho não há lugar para ele. Ele não é somente absurdo, mas moralmente suspeitoso. E, de fato, aqui existe uma incompatibilidade absoluta. A idéia do ócio é diametralmente oposta à idéia totalitária do "trabalho" e isto sob os três aspectos dos quais falei (PIEPER, 2004).

 

Pois bem, voltando à afirmação de Aristóteles, no qual claramente a dimensão do tempo de lazer/ócio é soberana para a existência humana – comparando-se com a dimensão do tempo de trabalho – e, tendo-se em vista as manifestações e formas decadentes de lazer que enfrentamos na sociedade atual – resultado da imposição da indústria cultural, no conceito dos filósofos da Escola de Frankfurt -, faz-se necessário o resgate praxiológico da forma clássica e superior de lazer: o ócio.

Mas o que vem a ser o ócio?

Para os filósofos gregos, o ócio é a vida contemplativa e, dessa forma, o caminho para obtenção da sabedoria, tão querida na sociedade grega. Porém, essa vida contemplativa traduz-se, segundo Aristóteles, num estado em que o indivíduo está livre da necessidade de trabalhar. Um autor mais atual que abordou de forma interessante o conceito de ócio, após revisão do conceito aristotélico, foi De Grazia (1966, p.4). Para ele, o ócio é o “estado de estar livre da necessidade de estar ocupado”. A ocupação é aqui uma atividade que persegue um fim, não sendo um fim em si mesma, e sendo o trabalho considerada a ocupação mais simbólica existente. A característica da atividade que é um fim em si mesma ficaria reservada ao ato de fazer o que apetece, ou seja, o que sente desejo – aqui empregado no sentido de “vontade”. Especificamente nesse estudo, a proposta é que essa vontade se expresse na “tarefa magna do humano, para dignificar sua humanidade: não é se autoconhecer, mas tornar-se o que se é” (ONATE, 2004, p.14) – sendo essa a essência da vida. Dessa forma, o ócio é tido como uma atividade libertadora da escravidão da humanidade: a necessidade de ocupar-se em atividades que não são e não levam à essência da vida, ou seja, que não ajudam a tornar-se quem é.

“Para cumprir essa tarefa – ajudar cada um dos indivíduos a tornar-se quem é – o humano deve converter-se em Super-Homem” (ONATE, 2004, p. 14, adaptado). O ócio configura-se, nessa perspectiva, como incentivo à existência de indivíduos contemplativos, criativos e sentimentais. Contemplativos na medida em que identificam e interpretam os sentidos e os valores da realidade – aqui manifesta como “vontades de potência que se constituem e se desconstituem constantemente, sendo, dessa forma, tudo o que existe” (SOUZA, 2006, p. 15). Criativos para que possam ter meios de superar os limites – “ir além”, sentido latino de “super” – semânticos desses valores e sentidos impostos pela própria humanidade a si mesma – permitindo o desabrochar do Super-Homem nietzscheano. Isto porque:

O Super-Homem nietzscheano não é o atleta da perfeita soberania sobre si, mas aquele que chega a um domínio suficiente para ser criador; assim é o artista na posse de seus meios, ou a criança, referência essencial em ‘Assim Falava Zaratustra[1]” (VALADIER, 2004, p. 6)

 

E sentimentais na medida em que os sentimentos revelam a máxima expressão subjetiva de qualquer indivíduo, sendo isso importante para que ele expresse toda a singularidade de sua existência. Através desses indivíduos, e, somente através deles – os Super-Homens – é que poderemos ter esperança de construir uma nova realidade no mundo, na medida em que novas interpretações dos sentidos e valores consagrados pela tradição ocidental surgirão, na freqüência diretamente proporcional ao número de Super-Homens existentes.

Dessa forma, quanto mais destes tiverem por aí, mais instável será o mundo, fruto de um “vir-a-ser” infinito provocado por eles, substituindo a noção tradicional de “ser”. Isto ocorreria, precisamente, conforme a interpretação da obra nietzscheana que se segue:

O sujeito unitário, idêntico, simples, permanente, protótipo das demais ficções erigidas pela longa tradição metafísica e cultural do ocidente, torna-se obsoleto perante as rigorosas exigências de um pensamento que procura acolher sem restrições a plenitude e a inocência do vir-a-ser (ONATE, 2004, p. 9).

 

E talvez aí exista um temor: o temor do diabólico, que separa, divide, aparta. Mas o que não é visto é a potencialidade do ser humano adentrar num novo conhecimento: a compreensão do infinito. E somente numa humanidade que compreende o infinito é que o ócio poderá manifestar-se de forma pura e real, incentivando a existência de mais Super-Homens, que existirão “pelo e para” o ócio, criando-se uma espiral infinita de conservação do ócio.

É interessante notar que esse infinito poderá ter duas formas: partilhada ou unida – e tudo só depende de qual visão pretende ter. Na verdade, o infinito possui e é as duas formas, como num mosaico em que existem milhares de pequenas peças que formam um todo unido e infinito; ou como na observação de uma sociedade constituída em nação, em que existem milhões de indivíduos que formam um todo unificado em pátria; ou, até mesmo, na contemplação de um ser vivo, constituído de bilhões de células microscópicas que, unidas, dão vida e uniformidade ao mesmo.

Dessa forma, resta a delimitação do problema em forma de pergunta norteadora desta pesquisa, coisa que faço abaixo:

De que forma a Educação e, especificamente a EDF, podem contribuir na formação de indivíduos que dedicam seu tempo livre ao ócio?

A forma mais elementar de resgatar praxiológicamente o ócio, e formar Super-Homens, é através da educação. Mas como uma educação que, atualmente, possui o interesse na formação de pilhas fornecedoras de energia para o sistema capitalista – a ironia é que ainda dizem querer formar “cidadãos” – pode contribuir dando forma ao resgate do ócio? A resposta a essa pergunta é a instauração de uma filosofia do inferno na Educação, baseada toda ela na filosofia experimental do pensamento criada por Nietzsche, e na qual temos que sua tarefa específica é:

Ser capaz de pensar o impensável, o intratável, o impossível, o não-pensado do pensamento educacional. Embaralhar a sintaxe e organizar o pensamento numa lógica ás avessas, constituindo-se como um pensamento outro da Educação. Pensamento que ignora as verdades recebidas, metamorfoseia o valor das opiniões estabelecidas, busca suspender e transvalorar o valor de todos os valores herdados. Liberta-se do culto à totalidade, transcendência, dialética, metafísica, humanismo, bem como dos casais de tensões certo/errado, culpa/castigo, bem/mal, morte/vida. Foge do pensamento único para tornar as singularidades possíveis, afirmar o múltiplo, multiplicar os devires (CORAZZA, 2002, p. 31).

 

E a isso, soma-se, ainda, a transdisciplinaridade, conceito que apresenta vantagem em relação ao conceito da interdisciplinaridade, conforme temos abaixo:

Sabemos cada vez mais que as disciplinas se fecham e não se comunicam umas com as outras. Os fenômenos são cada vez mais fragmentados, e não se consegue conceber a sua unidade. É por isso que se diz cada vez mais: “Façamos interdisciplinaridade”. Mas a interdisciplinaridade controla tanto as disciplinas como a ONU controla as nações. Cada disciplina pretende primeiro fazer reconhecer sua soberania territorial, e, à custa de algumas magras trocas, as fronteiras confirmam-se em vez de se desmoronar. Portanto, é preciso ir além, e aqui aparece o termo “transdisciplinaridade” (MORAN, 2001, p. 135)

 

Tendo esses dois conceitos como fundamentos desse formato de educação, parece ser possível essa transformação profunda e elevada, simultaneamente – de uma formação técnica para o trabalho mudar para uma formação para o ócio.

Nesse novo contexto, a Educação Física e seu acervo de conhecimentos, podem contribuir com o resgate das vivências lúdicas, numa expressão significativa de sentimentos naturais, estimulados pelos sentidos. Nesse contexto, o lúdico é uma forma de “fruir a vida social, marcada pela exaltação dos sentidos e das emoções” (RECHIA, 2004).

Mas por que através do lúdico e não de outra forma?

Porque essa é a forma de Educação Física, especificamente, que permite o desabrochar do Super-Homem nietzscheano. Conforme citação anterior[2], o Super-Homem é aquele que chega a “um domínio sobre si suficiente para ser criador; assim é o artista na posse de seus meios, ou a criança”. Ora, se o Super-Homem possui traços afins com as crianças – acrescento a inocência e a alegria perante a tragédia da vida -, e se as crianças gostam de brincar, imaginar e criar; temos que os Super-Homens gostam das mesmas atividades. Portanto, nada mais adequado e coeren444te do que proporcionar vivências lúdicas para esses indivíduos, já que essa é a forma de encarar a vida pelos Super-Homens: como um jogo. Nesse sentido, o “pai da criatura” revela que: “não conheço nenhuma outra maneira de se relacionar com grandes tarefas a não ser o jogo: ele é, como indício de grandeza, um pressuposto fundamental” (NIETZSCHE, 2003, p. 67).

A presente pesquisa justifica-se por tratar-se de uma alternativa a essa educação às avessas – em que forma-se para o labor com um conjunto de técnicas coercitivas que destroem o senso crítico, a manifestação criativa e a subjetividade dos indivíduos. Essa destruição e deformação dos indivíduos na sociedade atual encontram ecos em episódios depressivos cada vez mais freqüentes – que levam mais de 400 milhões de pessoas a ter insônia todas as noites e pensarem em dar fim às próprias vidas durantes todos os dias -, em pessoas que não possuem noção de seu próprio esquema corporal e acabam por desenvolver anorexia, entre outras patologias. Além dessa negação da vida, ainda temos a negação das condições necessárias à vida – como exemplo disso, existe milhões de pessoas que passam fome no mundo, apesar da quantidade de alimentos produzidos em escala global ser suficiente para suprir essa necessidade.

A correção e aniquilação desse pesadelo criado pelo próprio ser humano é a educação que visa formar o indivíduo Super-Homem, ou seja, aquele que procura ir além-do-homem – “envolvendo-se na exploração dos limites que o constituem e simultaneamente esperando pelo evento de sua superação” (ONATE, 2004, p. 14). Esse tipo é composto por três qualidades principais e fundamentais: contemplativa, criativa e sentimental.

Acreditamos que tentar localizar a EDF nessa perspectiva filosófica e educacional, em quê seu conteúdo pode favorecer e contribuir para a formação dos Super-Homens, parece ser interessante para o futuro da área, encontrando uma verdadeira causa para a EDF e, também, sua importância nesse cenário.

O objetivo geral dessa pesquisa é apontar caminhos para o resgate praxiológico do ócio como experiência de lazer na sociedade atual com a finalidade de formar o Super-Homem nietzscheano, através do acervo de conhecimentos que compõem o conteúdo da Educação Física, bem como dos conhecimentos que o nutrem – isso para não negar a característica transdisciplinar do conhecimento.

Já os objetivos específicos, elenco abaixo, a serem contemplados no decorrer da pesquisa:

·    Delimitar o sentido e o valor do conceito de ócio na contemporaneidade.

·    Articular o conceito de Educação e Educação Física pelo e para o ócio em seus sentidos e valores.

·    Considerar a formação do Super-Homem nietzscheano e sua importância para a Educação Física.

·    Caracterizar o Super-Homem nietzscheano, incluindo seus sentidos e valores.

·    Analisar imagens à luz do referencial teórico explicitando contradições, similaridades e complementaridades.


[1] NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra. São Paulo: Ed. Hemus, 2002.

[2] Na página 9 da Introdução da presente pesquisa.