Continued from: Vida de Pirro - Plutarco - Vidas Paralelas

XI. Gomo
não tivesse esquecido os serviços que lhe haviam prestado Ptolomeu e Berenice, deu
o nome deste príncipe ao. primeiro filho que teve de sua
mulher, Antígona, e denominou Berenícide a cidade que
mandou construir na península do Épiro. Logo depois, tendo
em vista dar início aos grandes projetos que concebera, e sendo ilimitadas as suas
esperanças, propôs-se conquistar primeiramente aquilo que estava mais perto dele,
e encontrou meios de intervir nos negócios da Macedônia. O filho mais velho de Cassandro, chamado Antípatro, provocara
a morte de sua própria mãe, Tessalônice, e expulsara do
país seu irmão Alexandre, tendo este mandado pedir a Demétrio que o auxiliasse,
o mesmo fazendo em relação a Pirro.
Como Demétrio se achasse ocupado com outras questões, e não pudesse ir prontamente em seu socorro, Pirro
seguiu ao encontro de Alexandre, de quem exigiu, como preço de sua aliança, a cidade
de Ninféia, e toda a costa da Macedônia, e, além disso, territórios que não faziam
parte do patrimônio dos reis da Macedônia, mas que a éie
haviam sido incorpadcs pelas armas: a Ambrácia. a Acarnânía,
e a Anfilóquia. Como o jovem príncipe tudo lhe cedesse,
Pirro tomou posse dos territórios, colocando guarnições
nas cidades. Conquistou depois o resto da Macedônia em nome de Alexandre, e exerceu
grande pressão sobre seu irmão Antípatro.

XII. Entrementes,
o rei Lisímaco estava dese-joso
de socorrer Antípatro com suas forças. Mas, tendo de resolver
outros assuntos, não podia fazê-lo. Sabendo, contudo, que Pirro
não se esquecera dos benefícios recebidos de Ptolomeu, a quem nada recusaria, decidiu
escrever-lhe, assinadas com o nome deste príncipe, cartas falsas, nas quais lhe
pedia pusesse termo à guerra contra Antípatro, e aceitasse
deste, como indenização às despesas porventura feitas, a Soma de trezentos talentos.
Pirro, abrindo as cartas, verificou lego que se tratava
de um ardil e de uma impostura de Lisímaco. Com efeito,
em vez da saudação empregada habitualmente por Ptolomeu, no começo de suas cartas,
que era: "A meu filho Pirro,
salve", havia esta; "O rei Ptolomeu ao rei Pirro, salve". Êle, no momento,
invectivou Lisímaco; todavia, fêz
depois as pazes com Antípatro, e os três reis acabaram
reunindo-se, para jurar, durante um sacrifício, as condições de seu acordo. Três
vítimas foram trazidas para ser imoladas: um bode, um touro e um carneiro. Mas este
último morreu subitamente, antes que nele tocassem, o que
provocou o riso dos presentes. Entretanto o adivinho Teodoto
fêz com que Pirro desistisse
de jurar, dizendo-lhe que o ocorrido pressagiava a morte súbita de um dos três
reis. E a paz não foi, assim, por êle concluída.

XIII, Não obstante os negócios de Alexandre já estarem em ordem,
Demétrio dirigiu-se para junto dele, e verificou logo que o príncipe não necessitava
mais de seu auxílio e que sua presença lhe inspirava medo. Poucos dias depois de estarem juntos, começaram as suspeitas
recíprocas, procurando um surpreender o outro desprevenido. Demétrio, porém, aproveitando-se
da primeira ocasião que se apresentou, matou Alexandre, que era ainda muito moço,
e fêz-se proclamar rei da Macedônia, Ora, êle já tivera antes algumas questões com Pirro, a quem censurava pelas suas incursões na Tessália, Além disso, a ambição de cada vez possuir mais, este
vício próprio dos príncipes e dos grandes senhores, fazia com que sua vizinhança
desse motivo a receios e suspeitas recíprocas, principalmente após a morte de Deidâmia. Mas quando, depois de ocupar, cada um deles, uma parte
da Macedônia, puseram-se ambos a disputar a posse de todo o reino, muito maiores se tornaram os motivos de suas divergências.

XIV. Diante
disso, Demétrio decidiu entrar com seu exército na Etólia,
e, após conquistar o país, nele deixou seu lugar-tenente Pantauco
com forças poderosas, marchando êle próprio contra Pirro, o qual, informado a respeito, também se pusera a caminho,
para enfrentar o adversário. Porém, errando ambos o caminho,
não se encontraram. Demétrio lançou-se através do Épiro,
de onde se retirou com uma grande presa; Pirro, de seu
lado, avançando até o lugar onde estava Pantauco, deu
início à batalha. O combate foi renhido entre os dois exércitos, mas ainda mais
vivo entre os dois chefes. Pantauco, que na opinião de
toda gente era o primeiro dos capitães de Demétrio, pela sua coragem, força e habilidade,
cheio de confiança em si mesmo, provocou Pirro, com quem
queria se empenhar num combate singular. Pirro que, quanto
ao valor e ao desejo de se assinalar, ocupava o primeiro’ lugar entre todos os reis
de sua época, e que desejava apropriar-se da glória de Aquiles, mais por imitação
de sua virtude, do que por ter saído de seu sangue, abriu caminho até à primeira fileira, a fim de atacar Pantauco.
Depois de lançarem ambos os dardos, aproximaram-se um do outro, e, utilizando-se
das espadas, trocaram golpes nos quais revelaram não somente agilidade como grande
força. Pirro recebeu dois ferimentos, e atingiu, por sua
vez, o adversário, duas vezes, uma na coxa e outra perto da garganta, obrigando-o
assim a voltar as costas; e, aproveitando-se da oportunidade,
derrubou-o por terra. Mas não pôde matá-lo, pois seus amigos acorreram e levaram-no.
Entrementes, os epirotas, encorajados com a vitória de
seu rei, e cheios de admiração pela sua coragem, redobraram,
de esforços, e romperam finalmente a falange dos macedônios. Lançando-se em seguida
na perseguição dos fugitivos, mataram grande número de inimigos, e fizeram cinco
mil prisioneiros.

XV. Esta
derrota não encheu tanto de cólera
cs corações dos macedônios pelas perdas sofridas,
nem de ódio por Pirro, quanto de admiração e
de
estima pela sua bravura; ela constituiu, para todos
os que no combate haviam sido testemunhas de seus
altos feitcs e tinham experimentado a força de suas
armas, um assunto inesgotável. Acreditaram ver nele
o olhar, a rapidez e cs movimentos de Alexandre, o
Grande, e como uma sombra, uma reprodução da
impetuosidade, da violência que tornavam este tão
temível no combate. Enquanto os outros reis imita
vam Alexandre somente através do uso de roupas
de púrpura, do número de guardas que os cercavam,
na maneira de inclinar a cabeça e no modo altivo
de falar, Pirro repetia-lhe os feitos e os atos de co
ragem.

XVI. Os livros que escreveu sobre a
arte mi
litar provam suficientemente a sua capacidade de
dispor as tropas para a batalha e de comandá-las.

Conta-se que. um
dia, o rei Antígono, interrogado sobre quem lhe parecia o maior capitão,
respondeu: "Pirro, mas cem a condição de que
envelheça". Referia-se êle apenas aos capitães
de seu tempo; mas Aníbal preferiu-o entre todos, colocando-o em primeiro lugar
no que se refere à experiência e capacidade militar, Cipião
em segundo, e êle próprio

em terceiro. Já o
dissemos na Vida de Cipião (1). Aliás, parece que Pirro jamais fêz outra coisa em
sua vida, senão estudar a ciência da guerra; era a única que julgava digna de
um rei, e considerava todas as outras ciências como objeto de puro divertimento,
que não mereciam nenhuma estima. Conta-se, a
propósito, que, um dia, num festim, perguntaram-lhe quem, na
sua opinião, era melhor tocador de flauta, Pitão
ou Cefésias, e êle
respondeu: "Po-liperchão, no meu modo de
entender, é o melhor capitão que conheço". Êle
quis dizer assim que a única arte digna de ser conhecida e sabida por um príncipe
era a da guerra.

(1) Essa
vida foi perdida.
Plutarco narrou de
modo diferente este julgamento
de Aníbal na Vida de Flamínino, (cap. XLIII).

XVII. Pirro era acessível e dócil com os parentes e amigos, perdeava com facilidade os que o encolerizavam e
mostrava-se sempre pronto a retribuir, com generosidade, os serviços que lhe
eram prestados. Assim foi que a morte de Eropo o
afligiu vivamente, não que deixasse de reconhecer no acontecido um fato
natural, inerente à condição humana, mas porque, censurando a si mesmo,
lamentava ter perdido, devido a adiamentos e dilações, uma ocasião de
recompensar os serviços dele recebidos. Com efeito, é verdade, sem dúvida, que um
dinheiro emprestado se pode devolver aos herdeiros dos que o emprestaram; mas,
para um homem de bons sentimentos, o não poder testemunhar o seu reconhecimento
àquele de quem recebeu benefícios constitui motivo de constante pesar. Certa
ocasião, estando ele em Ambrácia, alguns amigos o aconselharam a expulsar da cidade um maldizente, que não o
poupava. "É preferível, disse êle, que esse
homem fale mal de nós, aqui, entre um número reduzido de pessoas, do que, após
ter sido expulso, se ponha a espalhar a sua maledicência por toda parte".
De outra feita, levaram à sua presença alguns jovens que, bebendo juntos,
haviam proferido a seu respeito palavras das mais
ofensivas. Êle perguntou-lhes se, realmente, tais
palavras haviam sido pronunciadas. "Sim, príncipe, respondeu um deles, e
teríamos dito muito mais, se o vinho não tivesse faltado". Pirro pôs-se a rir e perdoou-os.

XVIII. Depois
da morte de Antígona, êle desposou várias mulheres, a
fim de aumentar, com suas alianças, o seu poderio. Assim é que se casou com a
filha de Auteleão, rei da Peônia, Bircena,
filha de Bardilis, rei da Ilíria, e Lanassa, filha de Agátocles,
tirano de Siracusa, que lhe trouxe como dote a ilha
de Corfu (1), da qual seu pai havia se apoderado. De
sua primeira mulher, Antígona, êle teve um filho, chamado Ptolomeu; de Lanassa, outro, que
recebeu o nome de Alexandre; e de Birce-na, Heleno, o
mais jovem de seus filhos. Por sua própria natureza e inclinação, eram todos
bravos; não obstante, Pirro cultivou a tendência
guerreira deles, educando-os na carreira das armas e estimulando sua coragem,
desde a infância. Conta-se que um deles, quando ainda muito
criança, perguntou-lhe a qual dos filhos deixaria seu reino.
"Àquele que tiver a espada mais afiada", respondeu. Esta resposta
pouco difere da imprecação trágica com que Édipo amaldiçoou seus filhos (2) :

Que a partilha laçam, com a espada
afiada,
De toda a herança que lhes foi deixada.

Assim é
insociável, cruel e bestial a natureza da ambição, a ânsia de dominar!

(1)
No grego, Corcira.

(2) Eurípídes, em sua tragédia intitulada "As Fenícias", v. 68.

XIX. Depois de sua vitória sobre Pantauco,
Pirro regressou ao Épiro,
cheio de alegria, de glória c de confiança. E, como os epirotas
lhe dessem o cognome de Águia, êle lhes disse;
"Se sou águia, isso o devo a vós, pois vossas armas são as asas que
tne permitiram voar tão alto". Passado algum tempo, tendo sido informado
de que Demétrio estava gravemente doente, correndo sua vida perigo, entrou
subitamente na Macedônia, com a intenção apenas de realizar uma incursão e
pilhar o país. Mas por pouco, sem desferir qualquer golpe, êle
não se tornou senhor do território macedônio, pois avançou até à cidade de Edessa sem encontrar
resistência; ao contrário, muitos filhos do país se juntavam voluntariamente
às suas forças, tornando-as mais fortes. O perigo forçou Demétrio a superar a
fraqueza e a ignorar o estado de sua saúde. Por outro lado, seus amigos,
servidores e capitães conseguiram, em pouco tempo, organizar um bom número de
combatentes, e marcharam ao encontro de Pirro,
dispostos a vencer. Este, que não penetrara no território macedônio senão para
pilhar, não os esperou, pondo-se

em
fuga. Na retirada, perdeu uma parte de seus soldados, pois os
macedônios os atacaram de perto, em vários pontos do caminho. Todavia, a
facilidade e a rapidez com que Demétrio expulsara Pirro
de seu país, não constituíram para êle uma razão para
desprezar este príncipe; e como ele se propusesse reconquistar o reino de seu
pai, com todas as suas terras, com um exército de cem mil homens e uma esquadra
dê quinhentas velas, não quis perder tempo com uma guerra centra Pirro, e nem deixar os macedônios às voltas com tão
perigoso vizinho. Deste modo, não lhe convindo empenhar-se numa guerra, fez as pazes com êle. a fim de poder
mais à vontade
marchar contra outros reis.

XX. O acordo que concluíra por este único
motivo, e os imensos preparativos que fizera, desven
daram os seus verdadeiros desígnios, e os outros
reis,
amedrontados, enviaram a Pirro cartas e embaixado
res, manifestando a sua surpresa pelo fato de deixar
ele escapar uma ocasião tão favorável, esperando
que Demétrio lhe fizesse guerra quando lhe convies-
se, e com maior facilidade; acrescentaram que lhe
seria fácil expulsá-lo da Macedônia enquanto esti
vesse empenhado em tão vastos empreendimentos, e
que, no entanto, queria dar-lhe tempo para aumentar
suas forças, para se ver depois atacado na própria
Molóssia, onde teria de combater para a defesa de
seus templos e dos túmulos de seus antepassados; e
isto tudo não obstante haver Demétrio se apoderado,
pouco antes, de uma de suas mulheres, juntamente
com a ilha de Corfu. Pois Lanassa,
queixosa pelo
fato de Pirro tratar melhor as suas outras mulheres,
preferindo-as, embora fossem de origem bárbara, ti
nha se retirado para aquela ilha. E como quisesse
casar-se de noyo com um rei, dirigiu-se a Demétrio,
que sabia ser, de todos os príncipes da época o
mais fácil de convencer a contrair matrimônio. De-
métrio, depois de se dirigir a Corfu,
colocou uma
guarnição na ilha.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.