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LXI Recorrendo à dissimulação e enganando
todos os que iam ao seu encontro, na estrada, êle
penetrou no território de Esparta, pondo-se, logo de início, a pilhar o país. E
como os embaixadores dos espartanos o censurassem e lamentassem o fato deêle começar a guerra sem a haver previamente declarado,
respondeu: "Sabemos perfeitamente que vós, espartanos, não tendes também o
costume de anunciar com antecipação o que pretendeis fazer". Um deles, Mandricidas, replicou-lhe, em sua linguagem lacônica:
"Se és um deus, nada temos a recear de ti, pois que não te ofendemos; se
és um homem, encon-trarás outros mais valentes".
Pirro continuou seu caminho e chegou diante de
Esparta; Cleônimo aconselhou-o a atacar
imediatamente, mas Pirro, receando, ao que se diz, que seus soldados pilhassem a cidade, caso nela
entrassem à noite, resolveu adiar o assalto, alegando que haveria tempo de
sobra no dia seguinte. Sabia que a cidade dispunha de pequeno número de
defensores, os quais, além de poucos, não estavam bem preparados para o combate.
O próprio rei Areus estava ausente, pois tinha
seguido para Cândia, para auxiliar os gortínios, que estavam guerreando. Mas foi o desprezo de Pirro pela fraqueza de Esparta e pelo número reduzido de
seus defensores que salvou a cidade; persuadido de que não haveria ninguém ali
em condições de combater, estabeleceu seu acampamento diante da cidade, no
interior da qual os amigos e servidores de Cleônimo
já haviam preparado e ornamentado a sua casa, certos de que Pirro
naquela mesma noite ali iria cear.

LXII. Quando chegou a noite, os lacedemônios reuniram-se e
decidiram enviar secretamente suas mulheres, acompanhadas de
seus filhos menores, para Cândia;
mas elas recusaram-se a partir. Arqui-dâmia, uma delas,
dirigiu-se ao Senado,
com uma espada na mão, e, fazendo
uso da palavra, em nome de todas as outras
mulheres, lamentou o
fato de terem os homens
acreditado serem elas tão covardes a ponto de desejarem sobreviver à ruína de
Esparta. Resolveu-se em seguida cavar um fosso paralelo ao acampamento do
inimigo, e enterrar, nas extremidades desse fosso, até a metade das rodas, um certo número de carros, a fim de conter e impedir a passagem dos
elefantes. Mal a
escavação havia sido começada, e surgiram, as mulheres, umas
com suas saias erguidas, outras trazendo apenas suas túnicas, para partilharem
do trabalho dos homens mais idosos. Ao mesmo tempo,
obrigaram os mais
jovens, que deviam combater, a
repousarem durante a noite; e, medindo o comprimento que deveria ter o fosso-,
elas se encarregaram de escavar a terça parte.
O fosso tinha seis côvados de largura, quatro de profundidade e oitocentos
pés de comprimento, segundo Filarco, ou
um pouco menos,
segundo Jerônimo. Quando, ao
amanhecer, o inimigo começou a se movimentar para dar início ao ataque, as
mulheres foram buscar as armas e as entregaram aos jovens, confiando-lhes a defesa
da trincheira, exortando-os ao mesmo tempo a defendê-la valentemente, e
dizendo-lhes que era doce morrer aos olhos de todos cs
concidadãos em defesa da pátria, e que era uma grande glória ter nos braços de
suas mães e esposas umamorte digna de Esparta. Celidônides, entretanto, retirou-se para um canto, e
amarrou um cordão no pescoço, a fim de estrangular-se, caso a cidade
fosse tomada, pois não queria cair nas mãos de seu marido.

LXIII. Pirro, pondo-se à frente de sua infantaria, avançou contra
os espartanos, os quais, com seus escudos cerrados, o esperavam do outro lado
da trincheira. Além de ser esta difícil de atravessar, a terra, revolvida
durante a noite, cedia sob os pés dos soldados, impedindo que se mantivessem
firmes nas bordas do fosso. Ptolomeu, filho de Pirro,
levando consigo os seus dois mil gauleses e os melhores combatentes caônios, decidiu, então, marchar ao longo da trincheira, e
tentou atravessá-la por uma de suas extremidades, aquela onde se encontravam os
carros. Mas estes estavam tão bem enterrados e tão presos uns nos outros, que
não somente continham o inimigo como impediam os próprios lacedemônios de se
aproximarem dos atacantes para se defender. Afinal os gauleses já começavam a
desprender as rodas dos carros e a lançá-los ao rio, quando o jovem Acrótato, vendo o perigo, atravessou rapidamente a cidade com trezentos guerreiros, jovens como êle. e envolveu, pela retaguarda,
Ptolomeu, sem que o pressentissem, pois se utilizara de caminhes escavados e
baixos. Atacando as últimas fileiras dos gauleses, obrigou-os a se voltarem a
fim de se defender, chocando uns contra os outros e caindo dentro do fosso e
sob os carros. Seguiu-se uma grande
confusão e
a carnificina foi grande, sendo os soldados de
Ptolomeu finalmente repelidos.

LXIV. Os anciãos e as mulheres, do outro lado da trincheira,
testemunharam os grandes feitos de Acrótato. Viram-no depois atravessar de novo a cidade, a fim de
reganhar o seu posto, todo coberto de sangue, e transbordante de alegria e
orgulho pela vitória. As mulheres de Esparta acharam-no então maior e mais belo
do que nunca, e todas julgaram Celidônides bem feliz
por ter um amante tão corajoso. E alguns velhos que o acompanhavam diziam-lhe
em altas vozes: "Vai, bravo Acrótato, e te delicies
com o amor de Celidônides, dando a Esparta filhos
generosos".

LXV. No lugar onde se encontrava Pirro
o combate foi também dos mais rudes, e numerosos espartanos deram provas de
grande valor; mas ninguém se distinguiu tanto quanto Filio, que, depois de
haver morto um grande número de adversários, sentindo que suas forças se
esvaíam em conseqüência dos numerosos ferimentos recebidos, chamou um soldado
que estava na fileira de trás, e, cedendo-lhe seu lugar, foi tombar morto entre
as armas dos companheiros, a fim de não deixar seu corpo.em
poder dos inimigos.

LXVI. O combate que durara todo o dia, Cessou ao anoitecer; e Pirro,
depois de conciliar o lono, teve uma visão, durante a
qual se viu lançando raios sobre a Lacedemônia, que se tornou inteiramente
presa das chamas; e tal foi sua alegria que acordou. Ordenou imediatamente aos
seus capitães que mantivessem as tropas prontas para recomeçar o ataque e
contou aos seus familiares o sonho, considerando-o um presságio, certo de que
tomaria a cidade de assalto. Todos concordaram entusiasmados com essa
interpretação, exceto um certo Lisímaco,
o qual dizia que a visão não lhes parecia favorável, e isto porque os lugares
atingidos pelos raios eram sagrados, e neles ninguém podia entrar; receava que
os deuses, com esse sonho, tivessem querido cientificar Pirro
de que êle não entraria na cidade de Esparta. Pirro respondeu-lhe: "Trata-se de um assunto
apropriado para se discutir nas assembléias populares, pois estas espécies de
visão são sempre cheias de obscuridades. Mas, agora, o que cada um deve fazer é
tomar as armas e dizer a si mesmo:

Melhor presságio não há que combater
A fim de que seu general possa vencer
(1).

Após proferir essas palavras,
nas quais fêz uma alusão aos versos de Homero, êle ergueu-se, e, ao clarear o dia, levou suas tropas ao
combate.

( 1) No original
grego lê-se «para
defender Pirro». Este verso é uma paródia do verso 443
do livro XII da «Ilíada» e

Pirro colocou o seu nome no lugar de
«pátria», que figura em Homero,
(C).

LXVIL Os lacedemônios fizeram maravilhas para se defender,
revelando uma coragem e um ardor superiores às suas forças; as mulheres
mantiveram-se ao seu lado, fornecendo-lhes os dardos com que combatiam, davam
de comer e beber aos que o pediam e retiravam da linha de combate os feridos a
fim de tratar deles. Os macedônios, por sua vez, faziam tudo o que estava ao
seu alcance para encher a trincheira com pedaços de madeira e outras coisas, que
lançavam sobre os corpos e as armas dos mortos. Os lacedemônios, de seu lado,
tudo faziam para impedi-lo, guando em determinado momento, viram Pirro a cavalo procurando entrar na cidade após ter
transposto a trincheira, do lado onde se achavam os carros. Os combatentes
encarregados da defesa daquele ponto começaram a soltar gritos, aos quais as
mulheres responderam com o seu clamor, pondo-se a correr como se tudo estivesse
perdido. Pirro continuava a avançar, derrubando com
seus golpes todos os que tentavam contê-lo, até que seu cavalo, atingido num
dos flancos per um dardo candiota, saiu do lugar de
combate, tal a dor que sentira, e ao expirar, lançou-o num terreno em declive,
expondo-o a uma perigosa queda. Seus servidores e amigos que se encontravam
nas proximidades acorreram para socorrê-lo, enquanto os espartanos,
incontinenti, atacaram-nos a. flechadas, repelindo-os para além da trincheira.

LXVIII. Pirro, persuadido de que os lacedemônios, que se
encontravam quase todos feridos e cujo número de mortos fora muito grande nos
dois dias de combate, acabariam se rendendo, ordenou a cessação do combate em
todos os pontos. Mas a boa fortuna da cidade, seja que ela tivesse querido por
à prova a virtude dos espartanos, seja que tivesse resolvido esperar até o
momento em que todas as suas esperanças estivessem desfeitas, a fim de mostrar
o que é capaz de fazer nas situações mais difíceis, neste mundo, fez vir de
Corinto, em seu socorro, Amínias, o Fócio, um dos generais de Antígono, com tropas
estrangeiras. Mal haviam estas forças entrado na cidade,
chegou também o rei Areus, procedente de Cândia, com dois mil combatentes. As mulheres, vendo que
não havia mais necessidade de participarem, dos combates, retiraram-se para
suas casas. Os anciãos, por sua vez, após terem sido forçados a tomar as armas
pela necessidade, foram dispensados a fim de que pudessem repousar,
ocupando os seus postes os recém-chegados.

LXIX. A chegada deste duplo reforço não fêz
senão inflamar ainda mais a ambição de Pirro e
inspirar-lhe um mais ardente desejo de se apoderar da cidade. Todavia, quando
viu que não sofreria senão reveses, deixou a posição que ocupava diante de
Esparta, e pôs-se a pilhar e devastar o país, decidido a nele passar o
inverno. Mas não pôde fugir ao seu destino.
Na cidade de Argos, verificou-se uma
divergência entre Aristéias e Arístipo;
e como acreditasse o primeiro que o segundo era apoiado por Antígono,
apressou-se

em chamar Pirro a Argos a fim de anular o efeito
desse apoio. A natureza de Pirro levava-o a conceber
sempre novas esperanças, e os êxitos que alcançava faziam-no aspirar a êxitos
ainda maiores; e procurava, invariavelmente, reparar as perdas com novos empreendimentos.
E assim, nem as suas derrotas, nem as suas vitórias assinalavam o termo dos
males que causava ou daqueles de que era vítima. Não hesitou por isso em seguir
logo para Argos. Areus, entretanto, armou-lhe
diversas emboscadas, e ocupou as passagens mais difíceis, atacando os gauleses
e mclossos, que formavam à retaguarda de seu
exército, dizimando-os.

LXX. Nesse dia, o adivinho de Pirro,
que encontrara no decorrer de um sacrifício um defeito no fígado da vítima
imolada, predissera-lhe a perda de uma pessoa que lhe era muito cara. Mas no
meio do tumulto e da desordem provocados pelo ataque, êle
não deu atenção ao augúrio, e encarregou seu filho, Ptolomeu, de ir, com um
contingente, em auxílio da retaguarda, enquanto êle
próprio se esforçava para tirar o seu exército daquele difícil desfiladeiro.
O combate foi dos mais vivos em volta de Ptolomeu, que teve de enfrentar os
melhores combatentes lacedemônios, comandados por um bravo capi-tão
chamado Evalco. No entanto, quando a luta ia mais
acesa, um soldado candiota, da cidade de Aptera, chamado Oreso, homem
ligeiro e ágil, deslisando-se até junto do jovem
príncipe, que combatia com o maior ardor, desferiu-lhe um golpe num dos
flancos, prostrando-o morto. Com a morte de Ptolomeu seus soldados puseram-se
em fuga, e os lacedemônios lançaram-se à sua perseguição com grande ímpeto; e
só perceberam que estavam a grande distância de sua
infantaria, quando já se encontravam na planície. Pirro
acabava de ser informado da morte do filho; cheio de ira e de dor, êle avançou contra os lacedemônios com seus cavaleiros molossos, e, tomando a iniciativa do combate, fez correr
muito sangue. Embora sempre temível, sempre invencível
quando com as armas nas mãos, êle se excedeu a si
mesmo nesta ocasião, dando as maiores provas de valor, força e audácia. Logo
que viu Evalco, lançou seu cavalo contra êle; mas o inimigo, desviando, desferiu-lhe um golpe de
espada, por pouco não lhe decepando a mão que segurava as rédeas, as quais
foram cortadas. Pirro aproveiteu-se
da oportunidade para nele cravar a sua lança, transpassando-lhe o corpo; e,
descendo do cavalo, dizimou, num combate medonho,
todos os lacedemônios, soldados selecionados, que procuravam defender o corpo
de Evalco.

LXXL Assim, foi a
ambição dos chefes que, estando já a guerra terminada, causou à Lacedemônia,
gratuitamente, esta perda. Pirro fizera deste
combate, por assim dizer, um sacrifício aos manes de seu filho, e como uma
espécie de embate fúnebre com que quis honrar seus funerais. Após aliviar sua
dor, transformando-a em ira e rancor contra seus inimigos, continuou em sua
marcha na direção de Argos. Ao chegar, foi informado de que Antígono já se
apoderara das alturas que dominavam a planície; e, tendo acampado perto
da cidade de Nauplia, enviou na manhã seguinte um
emissário ao encontro de Antígono, com a incumbência de censurar-lhe a perfídia
e de desafiá-lo a descer à planície para disputar, com as armas nas mãos, o
título de rei. Antígono respondeu-lhe que contava menos com as armas do que com
o tempo, e que, se Pirro estivesse cansado de viver,
tinha diante de si muitos caminhos abertos para ir de encontro à morte. Entrem
entes, de Argcs foram enviados embaixadores a ambos,
a fim de pedir-lhes que se retirassem, que
consentissem em que a cidade não pertencesse a nenhum deles e permanecesse
amiga dos dois. Antígono concordou, e deu seu filho como refém aos argivos. Pirro também prometeu
retirar-se; todavia, como não tivesse dado qualquer garantia de sua promessa,
suspeitou-se de sua boa fé.

LXXIL. Aconteceram, então, tanto a Pirro como aos argivos, prodígios
singulares. No decorrer de um sacrifício que o rei fizera, pusera-se de lado as
cabeças dos bois imolados, quando, subitamente, viram-se as línguas saírem para fora da boca e começarem a lamber
o sangue derramado

em redor.
No interior de Argos, a profetisa do templo de Apoio, chamada
Apolônida, pôs-se a correr pelas ruas dizendo aos
gritos que via a cidade cheia de cadáveres e de sangue, e que uma águia, por
ela vista no meio do combate, desaparecera subitamente, não sabendo para onde
tinha ido. Quando escureceu completamente, Pirro
aproximou-se das muralhas de Argos; e verificando que a porta chamada Diamperes lhe tinha sido aberta por Aristéias,
teve tempo de introduzir os gauleses na cidade, os quais ocuparam a praça
pública, sem que os moradores de nada percebessem. Mas como a porta era muito
baixa para dar passagem aos elefantes, foi preciso tirar-lhe as torres, e
recolocá-las depois. Esta dupla operação, feita tumultuosamente e no meio das trevas,
levou bastante tempo, e os argivos, vendo finalmente
o que se passava, correram à fortaleza denominada Áspis
e ocuparam outros pontos fortificados da cidade, enviando ao mesmo tempo
emissários a Antígono, a fim de que viesse socorrê-los. Este príncipe,
atendendo ao apelo, aproximou-se das muralhas, permanecendo do lado de fora em
observação; enviou logo depois seu filho ao interior da cidade, acompanhado de
seus principais capitães e de um’ numeroso contingente de soldados.

LXXIIL Areus, rei de Esparta, chegou ao mesmo tempo, com mil candiotas, e um grupo> de valentes espartanos; estas
tropas atacaram juntas os gauleses que se achavam na praça
pública, provocando grande confusão entre eles. Pirro, avançando pelo bairro denominado Cilabáris,
soltava brados de vitória; mas vendo que os gauleses não lhe respondiam com um
tom de confiança e audácia, conjecturou que eles estivessem sendo atacados e
enfrentassem dificuldades. Apressou-se assim em socorrê-los, levando consigo
sua cavalaria, a qual caminhava em terreno difícil e perigoso, devido aos
buracos dos esgotos subterrâneos e dos encanamentos de água.,
de que a cidade estava cheia. Era grande a confusão, como é fácil imaginar,
tratando-se de um combate travado à noite, e no decorrer do> qual os combatentes não viam as pessoas com quem se tinham
de haver e não se ouviam as ordens dos chefes. Os soldados, sepa-rando-se
uns dos outros, perdiam-se nas ruas estreitas; no meio das trevas e dos gritos
perplexos dos combatentes, os oficiais não podiam ordenar qualquer manobra; e
ambas as partes aguardavam o despontar do dia sem nada fazer. Ao amanhecer, Pirro viu a fortaleza de Ápis
cheia de armas do inimigo, e perturbou-se; e sua perturbação aumentou ainda
mais quando, ao atingir a praça pública, viu, entre as
obras de arte que a ornavam, um lobo e um touro de bronze, na atitude de
animais

em luta. Esta
visão lembrou-lhe uma antiga profecia segundo a qual o seu destino era morrer
quando visse um lobo lutar com um touro.

LXXIV Os argivos
contam que estas duas figuras foram colocadas no lugar onde se encontravam
para perpetuar a
lembrança de um acontecimento
de que fora outrora teatro o seu país. Quando Danao
entrou pela primeira vez na Argólida, passando pelo caminho da Tireatides, que vai de Pirâmia a
Argos, viu um lobo que enfrentava um touro. Supôs que o lobo estava de seu
lado, porque, sendo um estrangeiro, vinha fazer guerra aos naturais do país,
do mesmo modo como aquele animal. Êle parou para
assistir ao combate, e, tendo o lobo saído vencedor, dirigiu uma prece a Apoio
Lido; e, prosseguindo em sua empresa, provocou um levante contra Galanor, que reinava em Argos, e o expulsou do país. Eis
porque, segundo se diz, as figuras do lobo e do touro foram colocadas na praça de Argos.

LXXV. Pirro, desencorajado por esta visão, c vendo suas
esperanças se desvanecerem, pensou

em retirar-se. Todavia,
receando ser contido junto às portas da cidade, por serem muito estreitas,
mandou dizer a seu filho Heleno, o qual havia permanecido do lado de fora com a
maior parte do exército, que destruísse um lanço da muralha a fim de seus soldados
poderem sair, e que os recolhesse caso fossem perseguidos pelo inimigo.
Entretanto, devido à precipitação e ao barulho que se fazia,
o oficial encarregado da missão não ouviu bem a ordem que lhe fora dada,
relatando a Heleno o contrário do que Pirro dissera.
O jovem príncipe, diante do que ouvira, tomou consigo os melhores combatentes
de suas forças, e o resto dos elefantes, e entrou na cidade a fim de socorrer
seu pai, o qual já começara a retirar-se.

Na medida em que a largura da praça o
permitia, defendia-se bem, repelindo o inimigo enquanto se retirava, e contra
ele investia de quando

em
quando. Mas ao passar da praça para a rua estreita que
conduzia à porta da cidade, êle deu de encontro com
as tropas que vinham do outro lado em seu socorro, às quais gritou inutilmente
que deixassem o caminho livre a fim de poder passar. Os soldados não o ouviam
devido ao barulho; e mesmo se os primeiros o ouvissem, não poderiam
obedecer-lhe as ordens devido aos que, atrás deles, entravam em grande número
na cidade. Além disso, o maior dos elefantes caíra junto à porta, e, soltando
gritos medonhos, fechava a saída aos que queriam deixar o local. Com efeito,
um dos paquidermes que haviam entrado, chamado Nicão, querendo salvar seu condutor, o qual caíra no chão
em virtude de ferimentos recebidos, voltou-se contra aqueles que recuavam e
nele pisavam, derrubando tanto amigos como inimigos, até que, encontrando o
corpo do cornaca morto, ergueu-o com a sua tromba, e,
colocando-o sobre suas defesas, tomou, furioso, o caminho da porta, esmagando
com os pés tudo o que encontrava à sua passagem.

LXXVI. Os soldados de Pirro,
comprimidos uns contra os outros, não se podiam movimentar, e nem a si mesmos
podiam auxiliar. Todos eles formavam, por assim dizer, uma única massa, e tão unida que somente podia avançar ou recuar como se fosse apenas um corpo. Eles quase não lutavam
com os inimigos que os molestavam pela retaguarda, faziam uns aos outros mais
mal do que os argivos. Com efeito, se algum deles,
conseguia tirar a espada ou erguer a lança, não podia mais recolocar na bainha
a primeira arma e nem abaixar a segunda, e com elas atingia o primeiro que
tivesse pela frente, ferindo-se e matando-se, assim, uns aos outros. Pirro, vendo esta tormenta que desabara com violência sobre
suas tropas, tirou a coroa que distinguia seu capacete dos demais, e a deu a um
de seus amigos; e, confiando na bravura de seu cavalo, lançou-se sobre os
inimigos que o perseguiam de perto, recebendo então através de sua couraça um
golpe de lança, não sendo, no entanto, nem profundo nem perigoso o ferimento
resultante. Voltou-se incontinenti contra o adversário que o golpeara: era um argivo de família obscura, filho de uma pobre e velha
mulher, a qual naquele momento, estava sobre o teto de
uma casa, como todas as outras mulheres da cidade, para assistir ao combate. Ao
ver que era contra seu filho que Pirro investia, ela
apanhou uma telha com as duas mãos e a lançou sobre o rei, tal o pavor de que
foi tomada. A telha caiu sobre a cabeça de Pirro, que
no momento não se encontrava protegida pelo capacete, e deslisando
até o pescoço, partiu-lhe as vértebras. Sua vista perturbou-se imediatamente,
as rédeas lhe escaparam das mãos e ele caiu do cavalo perto
da sepultura de Licínio, sem ser reconhecido pela multidão. Todavia, um soldado
chamado Zopiro, que estava a soldo de Antígono, e
dois ou três outros, tendo corrido ao local reconheceram-no e o arrastaram até
a uma porta, no momento em que êle começava a recuperar
os sentidos. Zopiro já desembainhara a espada ilíria
que trazia, para cortar-lhe a cabeça, quando Pirro
lhe lançou um olhar terrível; Zopiro, amedrontado e
com a mão tremente, tentou degolá-lo; mas, na perturbação e no pavor em que se
encontrava, não desferiu o golpe com precisão, atingindo-o sob a boca e
partindo-lhe o queixo; e, após matá-lo, levou muito tempo para separar-lhe a
cabeça do corpo.

LXXVIL A notícia do ocorrido espalhou-se rapidamente, e Alciônio, filho de Antígono, dirigiu-se ao local, e pediu a
cabeça de Pirro, como se fosse para reconhecê-la;
mas, logo que a teve em suas mãos, foi a galope ao encontro do pai, o qual,
nesse momento, palestrava com alguns amigos, e a atirou ao chão, diante dele.
Antígono, reconhecendo-a, expulsou seu filho do local a bastonadas, chamando-o
de assassino cruel e bárbaro desumano; e, cobrindo os olhos com a capa, chorou
uma morte que lhe lembrava a de seu antepassado Antígono e a de seu pai
Demétrio, os quais eram para êle dois exemplos
domésticos dos caprichos da fortuna. Depois de haver preparado convenientemente
a cabeça e o corpo de Pirro, êle
os mandou queimar e inumar, de modo honroso.
Algum tempo depois, tendo Alciônio encontrado
Heleno, num estado miserável
e coberto com uma pobre capa, êle o
acolheu com muita humanidade e o levou à presença de seu pai. Ao vê-lo, Antígono disse:
"Meu filho, esta ação vale
mais e agrada-me mais do que a primeira; mas não fizeste tudo o que devias,
pois não tiraste de seus ombros esta capa que a êle
causa menos vergonha do que aos vencedores". Pronunciadas estas palavras, abraçou Heleno,
e, depois de
dar-lhe uma equipagem honrosa, mandou-o para o reino do Épiro. Quando, logo depois, apoderou-se do
acampamento de Pirro, e de todo o seu exército, êle tratou com grande humanidade os amigos e servidores
desse rei.

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