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XXI. Os outros reis, ao mesmo tempo que
escreviam a Pirro, advertindo-o, procuravam inquietar
Demétrio, o qual, não tendo ainda completado seus preparativos, adiava
continuamente a partida, Ptolomeu, após organizar uma esquadra considerável,
seguiu para a Grécia, sublevando várias cidades, que prestavam obediência
àquele rei; Lisímaco, por sua vez, penetrou na Alta
Macedônia, pela Trácia, devastando-a e saqueando-a. Qiante disso, Pirro armou-se
também, e movimentou-se para atacar a cidade de Beréia,
pois previu que Demétrio, para ir ao encontro de Lisímaco,
deixaria a Baixa Macedônia sem defesa. Na noite que precedeu sua
partida, êle julgou ver em sonho o rei Alexandre, o
Grande, que o chamava; aproximou-se, então, do lugar onde êle
estava, e o encontrou em seu leito, enfermo; foi no entanto,
bem acolhido pelo rei, que lhe dirigiu palavras de amizade, fazendo-lhe ao
mesmo tempo a promessa de auxiliá-lo. Pirro ousou
então dizer-lhe: "Mas como podereis auxiliar-me, príncipe, se estais
enfermo, no leito?" Alexandre respondeu-lhe: "Apenas com o meu
nome". E, incontinenti, montou um cavalo de Niséia
(1), e colocou-se à frente de Pirro, para mostrar-lhe
o caminho. Esta visão encorajou-o, anímando-o a
prosseguir em seu empreendimento.
Marchando rapidamente, em
poucos dias percorreu todo o caminho que o separava de Beréia, da qual se
apoderou; depois de
guarnecer a cidade com a maior parte de seu exército, enviou seus
capitães com as forças restantes para submeter as outras cidades da
região. Demétrio recebeu estas notícias
ao mesmo tempo que outras, segundo
as quais se esboçavam movimentos sediciosos entre os macedônios de seu
exército; não ousou por isso coninuar a conduzi-los, receando
que, ao se
verem perto de Lisímaco, também
macedônio, e que gozava da fama de ser um bom cabo
de guerra, aderissem a êle.

XXII Por este motivo,
decidiu mudar de direção e marchar ao encontro de Pirro, que era um príncipe estrangeiro, odiado pelos
macedônios. Enttretanto,
após estabelecer-se perto de Beréia,
várias pessoas, procedentes dessa cidade, ingressaram no acampamento, onde
fizeram os maiores elogios a Pir-ro, dizendo que se
tratava de um príncipe magnânimo, invencível na guerra, e que acolhia com
doçura e humanidade aqueles a
quem submetia. Outras pessoas, enviadas ocultamente por Pirro, e apresentando-se como macedônios apesar de não o
serem, diziam que havia chegado o momento de sacudir o
jugo tirânico de Demétrio, e de apoiar Pirro,
príncipe de índole dócil e bondosa, amigo dos soldados. Es-tas
palavras excitaram e impressionaram a maior parte do exército de Demétrio, e
os macedônios começa-ram a procurar Pirro com os olhos a fim de a êle
se entregarem. Pirro, por acaso, tinha tirado o seu
capacete; mas refletindo que os soldados desse modo poderiam deixar de
reconhecê-lo, recolocou-o na cabeça. E foi logo reconhecido, devido ao penacho
grande e brilhante e aos chifres de bode que lhe encimavam o morrião. .Os macedônics,
imediatamente, correram em grande número em sua direção, soli-citando-lhe
a palavra de ordem, tal como se dirigissem ao seu rei e general. Outros, vendo
os soldados de Pirro coroados com ramos e folhas de
carvalho, fizeram coroas idênticas, colocando-as em suas cabeças. Alguns
ousaram dizer ao próprio Demétrio que êle nada podia
fazer de mais acertado senão retirar-se e abandonar tudo a Pirro.
Demétrio, vendo que estas palavras eram apoiadas por movimentos de sedição em
seu exército, ficou de tal modo amedrontado que não viu outra saía senão fugir
às escondidas, envolvendo-se numa capa velha e metendo na cabeça um chapéu
macedônico, a fim de não ser reconhecido. Pirro, que
logo depois chegou ao acampamento, deste se apoderou sem resistência, sendo
proclamado rei da Macedônia.

XXIII. Entretanto,
chega também Lisímaco, que, alegando ter contribuído
para a fuga de Demétrio, reclamou a sua parte no trono da Macedônia. Pirro, como não confiasse ainda plenamente nos macedônios.
suspeitando mesmo de sua lealdade, atendeu ac pedido de Lisímaco: e assim as
províncias e as cidades do reino da Macedônia foram divididas entre ambos. Esta
partilha teve a sua utilidade no momento, pois evitou a guerra que estava para
ser iniciada entre eles; mas verificaram logo depois que o acordo concluído,
longe de atenuar a sua inimizade, não se tornou senão numa fonte de
divergências e de queixas recíprocas. Com efeito, príncipes cuja ambição nem cs mares, as montanhas e os desertos poderiam conter, e cuja cupidez nem as fronteiras que separam a Europa da Ásia
poderiam limitar, como haveriam de permanecer tranqüilos em suas possessões,
se seus confins se tocam? E poderiam recear a prática de injustiças para
usurparem os territórios alheios? Não, de nenhum modo isso seria possível;
pois, na verdade, o desejo de usurpar e a preocupação de se
surpreenderem mutuamente, mantinha-os Sempre prontos para o ataque. A
guerra e a paz para eles não eram senão palavras de que se utilizavam Como se
fosse uma moeda, de acordo com os seus Interesses, tendo em vista, não o dever,
a razão e a justiça, mas unicamente a sua conveniência. E eram mais dignos de
estima quando confessavam abertamente que estavam guerreando, do que quando
disfarçavam, sob os nomes de justiça ou de amizade, a trégua momentânea que
faziam com a injustiça.

XXIV. Disto
deu Pirro então uma prova impressionante: para
impedir que Demétrio se reergues-ie. para conter o seu poderio que se restabelecia como um
organismo após longa e perigosa enfermidade, correu em socorro dos gregos, e
dirigiu-se a Atenas. Subiu à cidadela e,
depois de fazer um sacrifício à deusa Minerva, desceu no mesmo dia à cidade,
onde disse aos atenienses quão satisfeito estava ante
a amizade e a confiança que nele depositavam. Disse-lhes ainda que, se
quisessem agir sabiamente, não abririam mais a nenhum príncipe ou rei as
portas de sua cidade. Concluiu em seguida um novo tratado de paz com Demétrio,
o qual poucos dias depois, seguiu para a Ásia a fim de se empenhar numa guerra.
Pirro, então, instigado por Lisímaco,
suscitou uma rebelião na Tessália contra Demétrio, e
atacou as guarnições que este tinha deixado nas cidades gregas; pois Pirro sentia-se mais senhor dos macedônios quando os
mantinha em guerra do que em repouso; aliás, êle
próprio não’ havia nascido para o repouso.

XXV. Finalmente,
tendo sido Demétrio completamente derrotado na Síria, Lisímaco,
que nada mais tinha a recear dele, e se achava desocupado, não tendo nenhuma
questão a resolver, marchou incontinenti contra Pirro,
então em Edessa, onde passava uma temporada. Em seu
caminho, encontrou um comboio com víveres destinados a esse príncipe, e atacou
e destroçou os que o conduziam. Com esta ação reduziu Pirro
a uma grande escassez de mantimentos. Em seguida, por meio de cartas e
mensagens, corrompeu as principais personalidades da Macedônia, às quais disse
que era grande vergonha para elas o terem escolhido para seu príncipe e senhor,
um estrangeiro cujos antepassados tinham sido súditos e vassalos dos
macedônios, censurando-os ainda por terem querido expulsar do país os
familiares e os amigos de Alexandre, o Grande. Pirro,
vendo que grande número de macedônios se deixava convencer, ficou de tal maneira impressionado que se retirou com suas forças,
constituídas de epirotas e combatentes aliados,
perdendo a Macedônia, do mesmo modo como a havia conquistado. Vê-se assim que
os príncipes e reis não podem censurar os particulares quando estes mudam de
partido para atender aos seus interesses; pois, assim agindo, não fazem estes
senão imitá-los e seguir a lição de infidelidade e traição que deles recebem
quando os vêem persuadidos de que o êxito pertence àquele que menos observa os
ditames do direito e da justiça.

XXVI. Pirro
retirou-se, assim, para o reino do Épiro, não se
preocupando mais com a Macedô-nia; e a fortuna oferecia-lhe então todos os meios para viver em paz
e sem aborrecimentos, desde que se contentasse
em reinar sobre os seus súditos e vas-salos. Mas este
príncipe achava que se não tivesse alguém para fazer-lhe mal, ou alguém que lhe
fizesse mal, não teria com que passar o tempo, tornando-se a vida insuportavelmente
enfadonha. Êle não podia permanecer inativo,
sentindo-se como Aquiles que, segundo Homero,

Cansado já de tanto vagar,

Não pensava senão em pelejar (1).

E,
como tinha necessidade de agir,
aproveitou-se da primeira ocasião que lhe ofereceu a fortuna.

(1)
Ilíada. L. I, v. 491.

XXVII, Os
romanos estavam então , em guerra com os tarentines,
os quais, incapazes de sustentar a luta, e não podendo pôr-lhe termo, dominados
que estavam pela insânia e maldade de seus governantes, decidiram chamar Pirro, para colocá-lo à sua frente, pois que nessa época
era o menos ocupado dos reis, sendo, além disso, considerado um grande
guerreiro. No entanto, entre os mais idosos e sensatos cidadãos, houve alguns
que se opuseram abertamente a essa resolução. Mas as suas ponderações foram
abafadas pelos gritos e pelo furor da pcpulaça, que
desejava a guerra; os demais cidadãos, afugentados pela desordem, desertaram
as assembléias. Mas ao chegar o dia em que esta questão deveria ser resolvida
pelo Conselho da cidade, e o decreto aprovado e ratificado, um
particular, chamado Metão, homem de bem e muito
honrado, colocou sobre a cabeça uma coroa de flores já mur-chas,
empunhou um archote, como fazem os que saem embriagados de um jantar, e,
precedido de um menestrel, dirigiu-se, em tal estado e dançando, até a
assembléia. Não reinava ordem no meio
da multidão, como acontece em geral nas reuniões populares, quando a turba se
torna dona de si mesma; e uns começaram a bater as mãos, ruidosamente, e outros
a soltar gargalhadas. E ninguém impediu que êle se
aproximasse e fizesse o que entendesse; ao contrário, pediam todos ao
menestrel, que tocasse e a êle que cantasse. Como se
demonstrasse disposto a fazê-lo, seguiu-se um grande
silêncio. Em voz alta e clara, Metão disse:
"Fazei bem, tarentinos, em não impedir, àqueles
que o desejem, tocarem seus instrumentos e dançarem,
na cidade, enquanto isso ainda pode ser feito. E, quanto a vós próprios, se
fordes sábios, devereis aproveitar, o mais que puderdes, a vossa liberdade,
enquanto ela subsistir; pois, quando o rei Pirro
chegar a esta cidade, êle vos fará levar um gênero de
vida bem diferente".

XXVIII. Estas
palavras de Metão impressionaram a maior parte dos tarentinos, e um rumor de aprovação percorreu toda a assembléia, asseve-rando-se de
um modo geral, que êle dizia a verdade. Mas aqueles
que receavam ser entregues aos roma
tios, por os terem ofendido, caso se fizesse a paz, insurgiram-se contra o povo,
censurando-o por tolerar gue o ludibriassem e dêle zombassem com tamanha audácia. Diante destas palavras voltaram-se os presentes contra Metão, que foi expulso do teatro. O decreto foi assim
aprovado, através dos votos dos membros da assembléia popular, e foram enviados
embaixadores ao Épiro, os quais levaram presentes a Pirro, oferecidos não somente pelos tarentinos,
mas também pelos outros povos gregos estabelecidos na Itália, os quais lhe
mandaram dizer que necessitavam de um general hábil e experimentado, frisando
que dispunham de um grande número de bons combatentes no país e que os lucanos, os messápios, os sanitas e os tarentinos poderiam
pôr em pé de guerra vinte mil cavaleiros e trezentos mil (1) soldados de
infantaria.

XXIX. Estas
palavras dos embaixadores entusiasmaram não somente Pirro

como
todos os epi-rotas, inspirando-lhes um grande e vivo
desejo de levar a efeito essa expedição. Havia, porém, na corte de Pirro, um tessálio, chamado Cíneas, homem de grande prudência. Fora discípulo de Demóstenes;
e, de todos os oradores de seu tempo, ninguém conseguia melhor do que êle, reproduzir, para seus auditores, a veemência e o vigor da oratória do mais eloqüente dos atenienses. Pirro, que o mantinha constantemente ao seu lado, costumava
enviá-lo como embaixador às cidades cujo apoio desejava obter. E Cíneas, com seu talento, confirmava o que dissera
Eurípides: (2)

Tudo aquilo que.
a força consegue fazer
Pela
eloqüência também se
pode obter.

(1) No original grego: trezentos e cinqüenta mil.

(2) Na tragédia "As Fenícias", 526.

Puro,
por esse motivo, costumava dizer que Cíneas tinha
conquistado mais cidades com sua eloqüência do que êle
com suas armas. Dedicava-lhe, por isso, grande estima, e o utilizava nas
questões mais importantes que tinha de resolver.

XXX. Cíneas, vendo que Pirro se
mostrava muito inclinado a guerrear na Itália,
disse-lhe um dia, ao apresentar-se a oportunidade: "Senhor, os romanos
passam por ser um povo muito belicoso e já colocaram sob seu domínio várias e
aguerridas nações: e, se os deuses nos favorecerem, para que nos servirá esta
vitória?" Pirro respondeu-lhe:
"Perguntas-me uma coisa, Cíneas, que me parece
evidente: pois, vencidos os romanos, não haverá mais nenhuma cidade grega ou
bárbara capaz de resistir às nossas forças; e poderemos então conquistar, sem
maiores dificuldades, todo o resto da Itáalia, cuja
grandeza, riqueza e poderio ninguém melhor do que tu próprio conheces". Cíneas, após breve pausa, replicou: "Mas, senhor, que
faremos depois de conquistada a Itália?" Pirro,
que ainda não percebera aonde êle pretendia chegar,
disse: "A Sicília, como sabes, está situada bem perto, e, por assim dizer,
estende-nos seus braços; é uma ilha rica e populosa, e fácil de ser
conquistada, pois,’ após a morte de Agátocles, todas as cidades, dominadas por oradores
inquietos, são presas da desordem e da anarquia". "Tudo o que dizes
parece verossímil, respondeu Cíneas; mas a ocupação
da Sicília assinalará o fim da nossa guerra?" "Que Deus nos seja
propício, que nos conceda a vitória e nos permita levar a bom termo tal
empresa. E este êxito não será senão um encorajamento para feitos ainda
maiores. Nada nos impedirá de passar em seguida para a África e Cartago, que
ficariam, por assim dizer, ao alcance de nossas mãos. O próprio Agátocles, que deixou secretamente Siracusa,
e atravessou o mar com poucos navios, por pouco delas não se apoderou. E,.depois de conquistarmos todas estas terras, nenhum sequer
de todos os inimigos que agora nos insultam e perseguem, ousará levantar a
cabeça contra nós". "Não, certamente, respondeu Cíneas;
cem um tão grande poderio, ser-vos-á fácil recuperar a Macedônia e reinar sem
qualquer oposição sobre toda a Grécia. Mas depois de todas estas conquistas,
que faremos?" Pirro
pôs-se a rir, e disse: "Repousar-nos-emos, então; não faremos outra coisa
senão organizar festas e banquetes, todos os dias, e entregarmo-nos às delícias
da conversação, tratando dos assuntos mais alegres e agradáveis". Cíneas, interrompendo-o, pois que o levara até o ponto que
desejara, disse-lhe: "E o que nos impede, senhor,
de repousar e nos banquetear, todos juntes, desde agora, pois que temos,
presentemente, sem que tenhamos de nos cansar, tudo aquilo que pretendemos
procurar, à custa de tanto derramamento de sangue humano e de tantos perigos?
E ainda que não sabemos se atingiremos nossos objetivos, não obstante tudo c
que teríamos de sofrer e fazer outras pessoas sofrerem".

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