Continued from:

XL. Após estas palavras de Ápio
não houve mais ninguém no Senado que não preferisse a guerra à paz, e Cíneas partiu de Roma com esta resposta: "Caso Pirro deseje a amizade e a aliança dos romanos, deverá,
antes de tudo, deixar a Itália; em seguida, poderá propor de novo a paz. Mas
enquanto permanecer com suas forças em nosso território, os romanos o
combaterão com todo o seu poderio, mesmo que êle conseguisse derrotar
dez mil generais como Lavino". Conta-se
que, enquanto Cíneas permaneceu em Roma, a fim de
negociar a paz, estudou com grande diligência os costumes e a maneira de viver
dos romanos, bem como a forma de seu governo, conversando freqüentemente com as
principais personalidades da cidade; e, depois, fazendo um relato a Pirrc acerca de tudo o que havia visto e aprendido,
disse-lhe que o Senado romano lhe parecera um consistório de reis. Acrescentou
que, diante do número de habitantes, receava terem de combater contra um
inimigo semelhante à hidra que vivia outrora nos lages
de Lerna, à qual, quando se lhe cortava uma cabeça,
nasciam-lhe sete: assim é que o cônsul Lavino já
havia conseguido organizar um novo exército, duas vezes maior do que o primeiro,
havendo ainda em Roma pessoas capazes de fazer uso das armas em número tal que
vários outros exércitos poderiam ser formados.

XLL Foram depois enviados ao encontro de Pirro embaixadores romanos, entre os quais Caio Fabrício,
com o objetivo de tratar do resgate a ser pago para a libertação dos
prisioneiros. Cíneas disse ao rei que Fabrício era um
dos homens mais estimados em Roma pelas suas virtudes e pelo seu talento
militar, não obstante a sua extrema pobreza. Pirro
tratou-o com uma distinção particular, e. chamando-o
à parte, ofereceu-lhe, entre outras coisas, ouro e prata, pedindo-lhe que as
aceitasse, não em troca de qualquer serviço desonesto, mas como um testemunho
de amizade e da boa hospitalidade que lhe queria proporcionar. Fabrício, no
entanto, recusou-se terminantemente a aceitar tais presentes, e Pirro não insistiu no momento. Mas, no dia seguinte, a fim
de surpreendê-lo e assustá-lo, pois sabia que êle
jamais havia visto um elefante, ordenou aos seus servidores que trouxessem o
maior desses animais ao lugar onde ambos estivessem conversando, em
determinado momento, recomendando que o ocultassem atrás de uma tapeçaria. A
ordem foi executada, e, a um animal combinado, a tapeçaria foi retirada; e o
animal, erguendo sua tromba sobre a cabeça de Fabrício, soltou um grito medonho.
O embaixador romano, sem dar qualquer sinal de emoção, voltou-se para Pirro, e disse-lhe, sorrindo: "Do mesmo modo como,
ontem, o vosso ouro, o vosso elefante, hoje, não me impressionou".

XLII. À noite, durante a ceia, vários assuntos foram
tratados, falando-se em particular da Grécia e seus filósofos. Cíneas referiu-se a Epicuro, e
expôs as idéias dos que seguiam este filósofo com relação aos deuses e ao
governo. Disse que os epi-curistas colocavam o bem
supremo do homem na volúpia; frisou que êles fugiam a
quaisquer encargos e à administração pública, pois que a consideravam como a
inimiga da verdadeira felicidade; e afirmou que consideravam os deuses
impassíveis, não se deixando mover nem pela piedade nem pelo ódio; e, não se incomodando com a sorte dos homens,
levavam uma vida ociosa, entregando-se a todas as espécies de prazeres. Êle ainda falava quando Fabrício, interrompendo-o, disse:
"Permitam os deuses (1) que Pirro e os sanitas tenham tais idéias na cabeça enquanto estiverem em
guerra contra nós.

(1)
Eis um dos maiores oráculos políticos que conheço e bem digno
dos mais belos tempos de Roma. Montesquieu não deixou de observar em sua
bela obra "

La Grandeur des Romains", onde escreve estás palavras memoráveis:
"Acredito que a seita de Epicm-o, que se
introduziu em Roma no fim da República, contribuiu bastante para depravar o
coração e o espírito dos romanos. Os gregos enía-tuaram-se
antes deles, e corromperam-se também mais cedo"’. (Cap. X).

XLIII. Pirro, tomado de admiração pelo caráter e pela grandeza de
alma deste romano, desejou mais do que nunca concluir um tratado de paz com
Roma. Dirigiu-lhe, então, a palavra em particular, e insistiu com êle no sentido de negociar, primeiramente, um arranjo com os
romanos, a fim de que, depois, pudesse vir viver em sua corte, onde seria o
primeiro de seus amigos e capitães. A essa proposta Fabrício deu a seguinte
resposta em voz baixa: "Senhor, o que acabais de propor-me não resultaria
em vantagem para vós, pois aqueles que hoje vos homenageiam e admiram, logo que
me ficassem conhecendo na ação, desejariam ter-me como seu rei,, de preferência a vós". Assim era Fabrício, e Pirro não se mostrou ofendido com essa resposta: e, longe de recebê-la com a irritação de um
tirano, elogiou diante de seus amigos e familiares a grande coragem e o
espírito magnânimo de Fabrício; e somente a este quis confiar os prisioneiros,
a fim de que, caso o Senado recusasse a paz, eles lhe fossem devolvidos, depois
de terem visitado e abraçado seus parentes e amigos e participado da festa de Saturno
(1). O Senado, com efeito, mandou-os de volta, após a festa, e propôs a pena
de morte paia todos os que deixassem de regressar ao acampamento de Pirro.

XLIV. No ano seguinte Fabrício foi eleito
cônsul; (2) e um dia em que estava em seu acampamento, um homem foi
entregar-lhe uma carta escrita pelo médico de Pirro,
o qual lhe propunha envenenar este rei, desde que os romanos lhe garantissem
uma recompensa à altura de tal serviço, pois a guerra terminaria assim sem
perigo para eles. Fabrício, indignado com a maldade do médico, e fazendo com
que seu companheiro de consulado partilhasse de seu sentimento, escreveu
imediatamente a Pirro, para dizer-lhe que se
acautelasse, pois estavam tramando a sua morte. Este era o teor da carta:-
"Caio Fabrício e Quinto Emílio, cônsules dos romanos, saúdam o rei Pirro. Ao que parece. não acertais nem na escolha de vossos
amigos, e nem na dos vossos inimigos: a leitura da carta que junto a
esta vos enviamos, escrita por um dos vossos, convencer-vos-á de que fazeis a
guerra a homens justos e bons e de que confiais em homens maus e

em traidores. Não
é para obter o vosso reconhecimento que vos denunciamos esta perfídia; mas
para que vossa morte não dê lugar a calúnias contra nós e para que não se diga
que, perdendo a esperança de vos vencer com o nosso valor, recorremos à traição
para pôr termo a esta guerra".

(1) As
Saturnais, que se celebravam no mês de dezembro.

(2) No
ano 476. de Roma

XLV. Pirro, depois de ler a carta e de certificar-se da verdade
do que nela se dizia, mandou castigar o médico; e, para testemunhar o seu reconhecimento
a Fabrício e aos romanos, enviou-lhes todos os prisioneiros, sem resgate, e
mandou de novo Cíneas a Roma como embaixador, para
ver se era possível concluir a paz. No entanto, os romanos não quiseram
qualquer recompensa da parte de um inimigo, pelo fato de não terem consentido
numa injustiça, recusando-se por isso a receber gratuitamente os prisioneiros,
e enviaram, assim, a Pirro,
um número igual de tarentinos e de sanitas. Quanto à paz, eles não consentiram nem mesmo que Cíneas tratasse do assunto, e nem o consentiriam enquanto Pirro e suas tropas permanecessem na Itália e não tivessem
tomado o caminho do Épiro, nos mesmos navios que os
haviam transportado. Entrementes, como a situação de seus negócios exigisse uma
segunda batalha, ele se pôs a caminho com. todo o seu exército e atacou os
romanos perto da cidade de Asculo (1). Comprimido num
lugar onde a sua cavalaria não podia agir, e contido por um rio cujas margens
pantanosas não permitiam a passagem dos elefantes, a fim de que pudessem juntar-se à infantaria, o seu exército teve grande
número de mortos e feridos. A noite veio separar cs
contendores, após um combate que durara todo o dia. Na manhã seguinte, para
obter a vantagem de combater num terreno mais plano, no qual os elefantes
pudessem atacar o inimigo, Pirro mandou alguns
contingentes ocuparem, logo às primeiras horas do dia, os lugares difíceis onde
tinha combatido na véspera.

(1)
Ascoli.

XLVI. Atraindo deste modo o inimigo para um terreno plano,
colocou entre os elefantes um grande número de arqueiros e lanceiros, e, com as
fileiras bem cerradas, marchou impetuosamente contra os romanos. Estes, que
não tinham, como no dia anterior, meios de envolver e tolher os movimentos do
adversário, foram forçados a combater num terreno
plano e igual. Como quisessem romper a infantaria de Pirro
antes da chegada dos elefantes, desenvolveram prodigiosos esforços para
inutilizar com suas espadas as compridas lanças dos inimigos; e, sem se pouparem
e sem se incomodarem com os ferimentos que recebiam, não cuidavam senão de
derrubar os combatentes que tinham pela frente. Finalmente, após um longo
combate, os romanos, já derrotados, começaram a recuar,
do lado onde se encontrava Pirro, pois não puderam
resistir ao ímpeto de sua falange e à força e à impetuosidade dos elefantes,
que completaram a sua derrota; o valor e os esforços dos romanos tornaram-se
inúteis diante destes animais, cuja massa os arrastava, do mesmo modo como a
violência de uma onda ou de um tremor de terra, ante a qual acharam melhor
ceder, pois de nada adiantaria esperar, sem poderem combater nem socorrer uns
aos outros, uma morte inútil e cruel, que os transformaria nos maiores mártires
do mundo.

XLVII. A perseguição não foi, entretanto, longa, pois que
eles tiveram apenas de reganhar o seu acampamento. O historiador Jerônimo diz
que os romanos perderam seis mil homens, e que, do lado de Pirro,
segundo os próprios registros deste rei, as perdas elevaram-se a três mil,
quinhentos e cinco. Todavia, Dionísio pretende que não houve duas batalhas
perto de Asculo, e diz que não se pode ter como certa
a derrota dos romanos. Segundo ele, foi travada apenas uma batalha, que durou
até o pôr-do-sol; e os combatentes se separaram, contra a sua vontade, depois
de Pirro ter sido ferido no braço por um golpe de
chuço e sua bagagem ter sido pilhada pelos sanitas. Diz ainda o historiador que mais de quinze mil
homens morreram nesta batalha, tanto do lado dos romanos como do de Pirro, retirando-se ambos, para os seus acampamentos, com
perdas iguais.

XLVIII. Conta-se que a uma pessoa que o
felicitava pelo seu triunfo, Pirro respondeu:
"Se alcançarmos outra vitória semelhante a esta, estaremos
irremediavelmente perdidos". Com efeito, esta batalha custara-lhe a parte
melhor das tropas que havia trazido do seu reino do Épiro,
bem ccmo quase todos os seus amigos e capitães, os quais não estava em condições de substituir; além disso,
o que é mais importante, verificara que os seus aliados, na Itália, estavam
desanimados. Os romanos, ao contrário, preenchiam com grande facilidade os
claros que se abriam em suas legiões, recrutando em seu próprio país, como de
uma fonte inesgotável, os novos combatentes; e, longe de se mostrarem abatidos
com as derrotas, extraíam de sua própria cólera novas forças e novo ardor para
continuar a guerra.

XLIX. No meio de suas dificuldades e inquietações, Pirro viu-se diante de novas empresas e novas esperanças,
que se lhe ofereciam, levando a hesitação ao seu espírito. De um lado, chegaram
da Sicília embaixadores que lhe propuseram colocar em suas mãos as cidades de Agrigento, Siracusa e Leontinos,
pedindo ao mesmo tempo que ajudasse a expulsar os
cartagineses da ilha e a libertá-la de seus tiranos; de outro lado, mensageiros
vindos da Grécia trouxeram-lhe a notícia de
que Ptolomeu, cognominado o Raio, (1) tinha sido morto numa batalha
contra os gauleses, e de que seu exército fora desbaratado, surgindo assim uma
ocasião das mais favoráveis para se apresentar aos macedônios, que
necessitavam, de um rei. Pirro maldisse então a
fortuna, que lhe apresentava ao mesmo tempo duas oportunidades para fazer
grandes coisas; e vendo com pesar que não podia optar
por uma sem perder a outra, hesitou durante muito tempo antes de fazer a
escolha. Finalmente, as dificuldades da Sicília pareceram-lhe muito mais
importantes, por motivo da proximidade da África, decidindo-se então per este
empreendimento. Assim, após tomar tal resolução, enviou Cíneas,
conforme costumava fazer, às cidades da ilha, a fim de entabular negociações.
Entrementes, a guarnição que colocara na cidade de Tarento,
a fim de mantê-la submissa, provocara grande descontentamento entre os seus
moradores. Estes mandaram-lhe dizer que, ou êle permanecia no país a fim de sustentar a guerra contra
os romanos, de acordo com o compromisso assumido ao dirigir-se à cidade, ou
caso decidisse abandonar a Itália, que deixasse Tarento
na situação em que a
havia encontrado. Pirro, porém, respondeu-lhes secamente, dizendo-lhes que
não lhe falassem mais em tal assunto, que esperassem por uma oportunidade. E,
dada esta resposta, seguiu para a Sicília, onde viu,
logo após a chegada, todas as suas esperanças se realizarem. Com efeito, as
cidades apressaram-se em se entregar, e, em todos cs
lugares onde teve de empregar a força, não encontrou nenhuma resistência
séria. Com um exército de trinta mil homens de infantaria e dois mil e
quinhentos cavaleiros, e uma esquadra de duzentos navios, êle
ia expulsando por toda parte os cartagineses e conquistando as regiões que
estavam sob o seu domínio.

(1)
Ptolomeu Cerauno, que foi morto no ano 474, de Roma,
no decorrer de uma irrupção dos gauleses, na Macedônia, sob a Chefia de Bélgio. A derrota de que fala aqui Plutarco não é, assim, a
de Ptolomeu, mas a de Sóstenes, um de seus
sucessores, e que ocorreu quando os gauleses irromperam de novo na Macedônia,
no ano 476 de Roma, chefiados por Breno.

L. A cidade de Erix (1), entre as que os cartagineses
conservavam em seu poder, era a dotada de melhores fortificações, e a que
contava o maior número de defensores; Pirro decidiu
ocupá-la pela força. Quando tudo estava pronto para o assalto, tomou todas as
suas armas, e, ao aproximar-se da cidade, prometeu a Hércules um sacrifício
solene, bem como jogos públicos, em sua homenagem, caso lhe concedesse a graça
de mostrar-se, aos olhos dos gregos que moravam na Sicília, digno de seu nascimento
e dos grandes recursos de que dispunha. Feito este voto, ordenou que as
trombetas soassem, dando o sinal de ataque. Quase todos os bárbaros que se
encontravam sobre as muralhas retiraram-se logo às primeiras flechadas. Foram em seguida colocadas as escadas,
sendo êle o primeiro a subir. No alto da muralha um
grupo de inimigos ousou enfrentá-lo; atacando-os, forçou uns a se atirarem de
ambos os lados da muralha, e abateu outros a golpes de
espada, sem que recebesse qualquer ferimento. Com efeito, êle
parecia tão terrível aos bárbaros, que estes não ousavam olhá-lo de frente e
sustentar o seu olhar; e êle provou que Homero julgou
a bravura como homem sábio e experimentado ao dizer que, de todas as virtudes,
era a única cujos transportes são de inspiração divina e que, por vezes se
aproximam do furor. Após a ocupação da cidade, êle fêz a Hércules um sacrifício magnífico e promoveu festas
com jogos e combates de todas as espécies.

(1)
Na costa ocidental da Sicília, hoje San
Giuliano.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.