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XXXI. Estas
palavras de Cíneas afligiram Pirro,
sem, todavia, convencê-lo ou fazê-lo mudar de
propósito. Êle sabia bem que ia abandonar uma
felicidade certa, mas não tinha a coragem de sacrificar seus desejos e suas
esperanças. Cíneas foi enviado a Tarento
com três mil soldados de infantaria. Em seguida, tendo os tarentinos
lhe fornecido numerosos navios, chatos ou com cobertas, e de vários outros
tipos, embarcou neles vinte elefantes, três mil cavaleiros e vinte e dois mil
infantes, juntamente cem quinhentos arqueiros e besteiros
(1). Após terem sido feitos todos os preparativos, Pirro
partiu. Mas apenas havia alcançado o mar alto, um extemporâneo vento do norte
começou a soprar com violência, arrastando seu navio. Todavia, os esforços dos
pilotos e marinheiros dominaram a impetuosidade do vendaval; e, depois de
passar por grandes sofrimentos e perigos, atingiu as costas da Itália. O resto
da esquadra foi impelido pelas vagas, dispersando-se os barcos: uns foram
atirados aos mares da Líbia e da Sicília, após terem sido desviados da rota da
Itália; outros, não tendo conseguido dobrar o promentório
Iápige, foram surpreendidos pela
noite, e o
mar, em fúria,
lançou-os violentamente contra as costas, em pontos eriçados de
rochedos. Com exceção do navio-capitânea, todos foram
destruídos ou danificados. Enquanto o navio-capitânea
teve de suportar apenas o embate das vagas que vinham do alto mar, resistiu
bem, pois era grande e poderoso; mas logo depois começou a soprar um vento
vindo do continente, e a galera, já batida, na proa, pelas ondas, correu o
risco de partir-se. Expô-la de novo a um mar agitado, a um vento que variava
incessantemente de direção, era, de todos os males que
se poderiam temer, o pior. Pirro, diante disso tudo,
não hesitou em atirar-se ao mar.

(1) No
grego: vinte e dois mil infantes,
dois mil arqueiros e quinhentos besteiros.

XXXII. Incontínenti,
seus guardas, servidores e amigos lançaram-se também ao mar, fazendo todos os
esforços para socorrê-lo; mas a escuridão da noite e a
violência das vagas que iam quebrar-se na costa com grande ruído, tornavam todo
auxílio difícil. Finalmente, ao amanhecer, o vento amainou, e o rei foi ter à terra. Seu corpo, de tão cansado, parecia exaurido, mas
seu espírito se mostrava sempre forte, sempre superior a todos os obstáculos.
Os messápios, em cujo território fora êle atirado pela tormenta, acorreram em seu socorro, e fizeram diligentemente tudo o que estava ao seu alcance para
salvá-lo; recolheram igualmente alguns dos navios que haviam escapado à
tempestade, nos quais não havia senão poucos cavaleiros e cerca de dois mil
soldados de infantaria, além de dois elefantes. Como
estas forças, Pirro pôs-se a caminho, dirigindo-se
por terra a Tarento; e Cíneas,
tendo sido avisado de sua chegada, foi ao seu encontro, com as tropas que
comandava.

XXXIII. Após
a sua chegada a Tarento, Pirro
nada quis fazer, de início, de modo autoritário nem contra a vontade dos
moradores, ficando à espera de que seus navios porventura salvos da fúria do
mar aportassem; e esperou também que se reunisse junto dele a maior parte de
seu exército. Depois disso, verificou que os tarentinos
não poderiam salvar-se a si mesmos e nem serem salvos por outrem sem a mais
severa coerção, pois supunham que, enquanto ele, Pirro,
estivesse combatendo em sua defesa, poderiam continuar a banhar-se e a ban-quetear-se tranqüilamente, em suas casas. Ordenou, por isso,
em primeiro lugar, o fechamento de todos os ginásios, de todos os lugares
públicos onde tinham o hábito de discutir, enquanto passeavam,
os problemas da guerra, limitando-se assim a agir por meio de palavras, sem
porem mão à obra; proibiu os festins, os bailes e todos os outros divertimentos
deste gênero, que considerava extemporâneos. Fêz com
que todos se exercitassem no manejo das armas e mostrou-se de uma severidade
inexorável quanto ao alistamento; de sorte que, muitos dentre eles, pouco
acostumados à obediência, e considerando como uma servidão a privação da vida
voluptuosa que até então levavam, abandonaram a cidade.

XXXIV. Entrementes,
tendo sido Pirro informado de que o cônsul Levino (1) marchava contra ele com forças muito numerosas,
e que já atingira a Lucânia, onde se entregava a
pilhagens, julgou que, sem desdouro, não podia deixar que o inimigo se
aproximasse ainda mais; e, embora seus aliados ainda não -tivessem chegado com
os reforços, pôs-se em marcha cem as tropas de que dispunha. Mandara na frente
um arauto encarregado de propor aos romanos que se tentasse, antes de se dar
início à guerra, resolver pelas vias da justiça, as pendências que tinham com
todos os gregos residentes na Itália, escolhendo-o como árbitro. O cônsul Levino respondeu-lhe que os romanos não o queriam como
árbitro, e que não o temiam como inimigo. Pirro
decidiu, por este motivo, continuar a sua marcha e foi acampar na planície
existente entre as cidades de Pandósia e Heracléia. Cientificado de que os romanos estavam acampados
bem perto, do outro lado do Siris, (2) montou a cavalo e foi até às margens
do rio, para ver o acampamento. Após examinar a disposição das tropas, os seus
postos avançados e as posições ocupadas pelos romanos, dirigindo-se a um
amigo, que estava ao seu lado, externou-lhe a sua
admiração pelo que acabava de ver:
"Mégacles, esta formação de bárbaros,
nada tem de bárbara. Vamos ver, na prática, o que sabem fazer". Depois
desta verificação, mostrou-se mais preocupado com o futuro, e decidiu aguardar
a chegada de seus aliados. Deixou, no entanto, um contingente de tropas às
margens do Siris, a fim de impedir que os romanos o atravessassem, no caso de
uma tentativa nesse sentido. E foi o que eles fizeram: a fim de impedir a
chegada dos reforços que Pirro esperava,
apressaram-se a cruzar o rio. A infantaria atravessou-o a vau e a cavalaria em
vários pontos onde a passagem era mais fácil. Os gregos, receando um
envolvimento pela retaguarda, retiraram-se.

(1)
No ano 474, de Roma.

(2)
O rio Serio, perto de Heracléia, no
golfo de Tarerto.

XXXV. Pirro,
informado do que ocorria, mostrou-se surpreendido, e ordenou aos seus capitães
que colocassem imediatamente a infantaria em ordem de
batalha, e que aguardasse, prontos para o combate, as suas determinações. Êle, por sua vez, com a cavalaria, formada por cerca de
três mil homens, pôs-se em marcha, supondo que ainda iria surpreender os
romanos às margens do rio, disperses e em desordem; mas quando viu, aquém da
torrente, rebrilhar grande quantidade de escudos e a cavalaria avançando em sua
direção, ordenou que se cerrassem fileiras, e deu início ao ataque. Pirro destacou-se logo pela beleza e magnificência de sua
armadura, ricamente estofada. Demonstrou, ao mesmo tempo, pelos seus feitos de
armas, que o seu valor não era de nenhum modo inferior à sua fama.

Entregava-se inteiramente ao
combate, e, embora expusesse o próprio corpo e se empenhasse em derrubar todos
os que se colocavam à sua frente, não deixava de mostrar-se prudente e nem
perdia o seu sangue frio, como convinha a um comandante de exército. E, como se
não estivesse empenhado na ação, dava ordens e previa tudo, animando os combatentes
com sua presença, correndo de um lado para outro, acudindo sempre aos lugares
onde era maior a pressão do inimigo. No auge do combate, Leonato,
o Macedônio, percebeu que um cavaleiro italiano estava empenhado

em atingir Pirro,
esporeando sempre seu cavalo para alcançá-lo, e mudando de direção sempre que êle mudava de lugar, seguindo todos os seus movimentos.
"Senhor, disse então Leonato ao rei, estais
vendo aquele bárbaro montado num cavalo preto de pés brancos? Êle está planejando alguma grande proeza: seus olhos estão
sempre fixados nos vossos e não tem outro objetivo senão a vossa pessoa; cheio
de ardor e coragem, êle ignora todos os demais;
portanto, tomai cuidado". "Leonato, respondeu o rei, é impossível ao homem fugir ao
seu destino; mas nem êle, nem qualquer outro
italiano, não sentirá muito prazer em medir-se comigo".

XXXVI. Pirro não
havia ainda terminado de pronunciar estas palavras, quando o italiano,
segurando sua lança pelo meio e esporeando o animal que montava, avançou sobre
êle, desferindo-lhe no cavalo um golpe com sua arma.
No mesmo instante. Leonato mergulhou sua lança no
cavalo do italiano. Os dois animais tombaram por terra, e os amigos de Pirro aproximaram-se e o puseram a salvo imediatamente. O
cavaleiro italiano foi morto, embora se defendesse com grande coragem. Era êle natural de Ferente, comandava
uma companhia e chamava-se Oplaco. O perigo a que se
expôs Pirro ensinou-o a melhor se precaver, no
futuro. Vendo que sua cavalaria recuava, êle fêz avançar a infantaria, lançando-a à
batalha. Em seguida, após entregar sua capa e as armas a um de seus
amigos, Mégacles, cuja armadura vestiu, para se
disfarçar, voltou a enfrentar os romanos, que o receberam valentemente. O
combate esteve durante muito tempo indeciso: os dois exércitos recuaram sete
vezes, e sete vezes voltaram ao ataque, segundo se conta. A troca de armadura e
de armas feita pelo rei foi das mais oportunas, no que se refere à sua
segurança, pois que assim salvou a vida; porém, por pouco não pôs tudo a perder
e não o privou da vitória. Um grupo de inimigos lançou-se sobre Mégacles, que trazia a armadura do rei; e o primeiro que o
atingiu com sua arma, prostrando-o morto, um romano chamado Dexous,
retirou-lhe rapidamente o capacete e a capa, e correu para junto de Lavino, gritando que havia morto Pirro,
e mostrando-lhe, ao mesmo tempo, os despojos. Estes, que passaram de mão em
mão, provocaram, entre os romanos
indescritível alegria., fazendo-os soltar brados de
vitória, enquanto que os gregos, ao contrário, caíram em grande abatimento e
tristeza. Pirro, tendo sido advertido do que se
passava, percorreu todas as fileiras com a cabeça descoberta, estendendo as
mãos aos soldados e falando-lhes, a fim de que todos, ao ouvirem a sua voz,
verificassem que era realmente êle.

XXXVII. Foram
os elefantes, finalmente, que decidiram do desfecho da batalha, rompendo as
unidades dos romanos. Os cavalos destes com efeito, não pediam suportar o cheiro daqueles animais,
e afastaram-se, assustados, para a retaguarda, com os cavaleiros, antes mesmo
de sua aproximação. Pirro, aproveitando-se da
desordem reinante no campo adversário, ordenou aos cavaleiros da Tessá-lia que avançassem. Estes atacaram vigorosamente,
pondo os romanos

em fuga. A
carnificina foi grande, pois Dicnísio conta que morreram pelo menos quinze mil romanos nesta batalha;
Jerônimo, no entanto, fala em somente sete mil. Segundo Dionísio, Pirro perdeu treze mil homens, e um pouco menos de quatro
mil, segundo Jerônimo; mas eram estes os melhores elementos de seu exército,
seus amigos e capitães mais bravos, aqueles que gozavam de toda a sua confiança
e eram por ele utilizados nos momentos difíceis. Pirro
apoderou-se, todavia, do acampamento dos romanos, que o haviam
abando nado. e fez com que várias cidades deixassem de
apoiá-los. Percorreu em seguida todo o país, pilhando-o chegando até um ponto
situado a trezentos estádios de Roma. Os lucanos e
os sanitas, que chegaram em
grande número após o combate, foram por êle
censurados, pela sua lentidão: mas via-se pela sua fisionomia, que estava
satisfeito, que considerava um motivo de glória, o ter somente com suas tropas
e os tarentinos, derrotado um exército romano tão
forte e numeroso.

XXXVIII. Por
outro lado, os romanos não quiseram destituir Lavino
de seu cargo, não obstante as perdas sofridas e o fato de Caio Fabrício ter
declarado publicamente que os romanos não haviam sido derrotados pelos epirotas, mas sim Lavino por Pirro, querendo dizer com estas palavras que esta vitória
havia sido alcançada mais em virtude da habilidade do chefe inimigo do que do
valor e da coragem de suas tropas. Os romanos procederam a novos recrutamentos
para completar as legiões desfalcadas e criaram outras, referindo-se com orgulho
e confiança a essa guerra, não se mostrando de nenhum modo abatidos. Diante
disso, Pirro, surpreendido, resolveu enviar uma
embaixada, para sondá-los c ver se estavam dispostos a receber pro-postas de paz. Êle sabia que
ocupar Roma e subjugá-la não era empresa fácil, e que não podia ser levada a
efeito com as forças de que então dispunha. Por outro lado, a conclusão de um
tratado de paz e de aliança, após a vitória por êle
alcançada, aumentaria sua fama e sua
glória. Cíneas foi assim enviado a Roma, onde visitou
as principais personagens da cidade e ofereceu-lhes, bem como às suas esposas,
presentes, em nome do rei. Mas recusaram-se a aceitá-los, dizendo todos,
inclusive as mulheres, que, caso a. paz fosse feita publicamente, não deixariam
então de manifestar o seu reconhecimento ao embaixador de Pirro,
cuja amizade aceitariam. Cíneas,
tendo sido recebido em audiência pública pelo Senado, pronunciou um discurso,
no decorrer do qual apresentou argumentos honestos e fêz
sedutoras propostas de paz; mas os senadores não se mostraram dispostos a
aceitá-las, não obstante Pirro ter mandado dizer que
entregaria, sem o pagamento de qualquer indenização, todos os soldados
aprisionados na batalha, e ter prometido auxiliar os romanos a conquistar a
Itália, pelo que não desejava outra recompensa senão a amizade deles e a
garantia, para os tarentinos, de que nada lhes seria
exigido em virtude do passado. Entretanto, vários senadores mostraram-se
impressionados e inclinados a aceitar a paz, alegando que já ha-viam perdido uma grande batalha e que
teriam de empenhar-se em outra maior, quando as forças dos povos
confederados da Itália se juntassem às de Pirro.

XXXIX. Mas Ápio Cláudio, uma das mais ilustres personagens de Roma,
que, em parte devido à velhice, em parte por ter perdido a vista, não mais freqüentava
o Senado, e nem cuidava das questões públicas, quando ouviu falar das propostas
feitas pelo rei Pirro, e soube dos rumores que
corriam pela cidade, segundo os quais os senadores estavam dispostos a
aceitá-las, ele não se pôde conter; chamou seus servidores e fêz-se conduzir, numa liteira,
até o Senado, passando pela grande praça da cidade. Quando chegou à porta do
edifício, seus filhos e genros, saindo ao seu encontro, tomaram-no pelo braço,
e levaram-no para a sala das reuniões. O Senado, em sinal de respeito e em
honra de uma tão notável personagem, manteve-se em profundo silêncio. Ápio Cláudio, logo após chegar ao seu lugar, começou a
falar: "Romanos, até o presente momento vinha suportando com dificuldade
a perda de minha vista; agora, porém, lamento não ter perdido também a audição,
a fim de não tomar conhecimento das vossas indignas e desonestas resoluções,
tomadas em vossos conselhos, bem como destes decretos vergonhosos que macularão
toda a glória e a reputação de Roma. Onde estão aquelas palavras altivas que
proferíeis antigamente, e que repercutiam em todo o mundo? Dizíeis então que,
se Alexandre, o Grande, tivesse vindo à Itália quando nossos pais estavam na
força da idade e nós no vigor de nossa juventude, não seria êle
hoje decantado como invencível, mas teria aqui permanecido,
morto em combate, ou teria sido forçado a fugir, e, com sua morte ou sua fuga,
teria aumentado o renome e a glória de Roma. Tornais agora evidente que não se
tratava senão de palavras vãs e de arrogante presunção, pois que receais os molossos e os caônios, que sempre
foram a presa dos macedônios, e temeis um Pino, um cortesão, um bajulador
assíduo de um dos satélites deste mesmo Alexandre. Êle
veio agora guerrear destes lados, menos para socorrer os gregos residentes na
Itália, do que para fugir dos inimigos que tem em seu reino; êle vos propõe conquistar a Itália com um exército que lhe
não bastou para conservar uma pequena parte da Macedônia. Assim, não podeis
acreditar que, concluindo a paz, ficareis livres dele; ao contrário, atraireis,
contra vós, os seus aliados, que vos desprezarão e vos considerarão uma presa
fácil ao verem Pirro se retirar da Itália sem ter
sido punido de .sua audácia, e levando consigo, como recompensa, esta
superioridade: a de fornecer aos tarentinos e aos sanitas um motivo, para zombar, de agora em diante, dos
romanos".

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