Vida de Pirro – Plutarco – Vidas Paralelas
LI. Havia nas imediações de Messina uma nação de bárbaros chamados mamertinos, que causavam grandes tribulações aos povos gregos, obrigando mesmo alguns deles a lhes pagarem impostos e tributos. Estes bárbaros, numerosos e aguerridos, deviam ao seu valor a denominação de mamertinos, que, em língua latina significa marciais. Pirro chefiou suas forças contra eles e os derrotou num renhido combate, arrasando várias de suas fortalezas; além disso, mandou matar todos os que entre eles se encarregavam da coleta dos impostos. Os cartagineses, que desejavam fazer as pazes com Pirro, cfe-receram-lhe, como prova de amizade, prata e navios; mas, como visava a coisas ainda maiores deu-lhes uma breve resposta, dizendo que havia um único meio de ser estabelecida a paz: a evacuação de toda a Sicília, de modo que o mar da África passasse a constituir a zona de separação entre os gregos e eles. Os êxitos alcançados e a confiança que depositava em suas forças encorajavam-no e o incitavam a tornar uma realidade as esperanças que o tinham levado à Sicília; e aspirou, assim, em primeiro lugar, a conquista da África. Para levar a efeito esta vasta empresa ele possuía um número suficiente de navios; mas faltavam-lhe marinheiros e remadores. Entretanto, para obtê-los das cidades, em vez de agir com habilidade e brandura, passou a tratá-las com excessivo rigor, constrangendo seus moradores e castigando com severidade os que não obedeciam às suas ordens. Éle não agira desse modo ao.chegar; soubera então, melhor do que ninguém, conquistar a boa vontade de toda gente, dirigindo palavras cativantes a todos, mostrando-se confiante e não molestando ninguém. Porém, transformando-se, subitamente, de príncipe popular em tirano violento, êle adquiriu, em conseqüência de sua severidade, a reputação de homem ingrato e pérfido. Entretanto, por mais descontentes que estivessem, eles cediam à necessidade e lhe forneciam tudo aquilo que deles era exigido.
LII. Mas a sua conduta em relação a Tenão e Sóstrato fêz com que todos se voltassem contra êle. Eram os dois principais capitães de Siracusa, os quais tinham sido os primeiros a chamá-lo à Sicília. À sua chegada, entregaram-lhe a cidade e, em seguida, secundaram-no com todo o seu prestígio em todos os seus empreendimentos. Pirro, nutrindo suspeitas contra ambos, não queria nem levá-los em sua companhia, nem deixá-los em Siracusa durante a sua ausência. Sóstrato, que receava ser vítima de alguma cilada, saiu da cidade; quanto a Tenão, Pirro mandou matá-lo, pois temia que êle fizesse a mesma coisa que Sóstrato. Tudo então se modificou, generalizando-se a oposição contra êle; e isto não se verificou aos poucos, cada coisa por sua vez. Ao contrário, subitamente, todas as cidades, tomadas de um violento ódio, aliaram-se, umas aos cartagineses, outras aos mamertinos, para lutar contra o inimigo comum. Toda a Sicília era teatro de rebeliões, defecções e conspirações, quando Pirro recebeu cartas dos sanitas e dos tarentinos, nas quais diziam estes que, tendo sido expulsos dos campos, e não podendo mais defender-se nas cidades e praças fortes, necessitavam com urgência de seu auxílio.
LIII Estas cartas, chegando num momento oportuno, forneceram-lhe um pretexto para justificar a sua retirada, pois pôde dizer que não era a impossibilidade de realizar os seus projetos que o levava a deixar a Sicília. Mas, na verdade, êle não conseguia manter esta ilha sob seu domínio, a qual parecia um navio batido pela tempestade; e, desejando abandoná-la, estava à procura de uma desculpa, e este foi o motivo verdadeiro por que voltou à Itália. Conta-se que, ao partir da Sicília, voltou os olhos para a ilha e disse àqueles que o rodeavam: "Meus amigos, que belo campo de batalha deixamos aos romanos e aos cartagineses, para nele lutarem uns centra os outros!". Isto aconteceu pouco tempo depois, realizando-se assim a sua previsão. Os bárbaros, no entanto, coligaram-se contra ele, e os cartagineses, que ficaram à sua espera, ofereceram-lhe batalha no mar, no estreito de Messina. Pirro perdeu vários navios e com cs que lhe restavam fugiu para as costas da Itália. Os mamertínos, em número de dez mil combatentes, que já ali se encontravam, não ousaram enfrentá-lo em campo raso, aguardando-o em certas passagens da montanha e em lugares difíceis, de onde o atacaram de improviso, levando a desordem às suas fileiras. Perdeu nesse combate dois elefantes e a maior parte dos combatentes da retaguarda. Pirro teve então de deixar a vanguarda e correr em socorro dos que ainda combatiam e, arrostando todos os perigos, lançou-se no meio dos bárbaros, homens destemidos e cheios de valor; recebeu, no entanto, um golpe de espada na cabeça, e foi obrigado a afastar-se üm pouco do local do combate. Com sua ausência tornou-se ainda maior a ousadia dos adversários, um dos quais, homem de grande estatura, que se distinguia entre os demais, saiu das fileiras, todo armado, e, com uma voz cheia de audácia, chamou o rei e o desafiou para um combate, homem contra hemem, caso ainda estivesse vivo.
LIV. Pirro, irritado ante tal atrevimento, não obstante os rogos de seus oficiais, voltou ao local do combate, acompanhado de sua guarda. Com o rosto coberto de sangue, seu aspecto era terrível; e, inflamado de cólera, avançou através de suas fileiras e aproximou-se do bárbaro que o havia desafiado, e desferiu-lhe na cabeça um golpe tão violento que, em conseqüência tanto da força do braço como da excelência da tempera do aço da arma, fendeu-lhe o corpo de alto a baixo, caindo as duas metades, uma de cada lado. Um tão terrível feito conteve os bárbaros, impedindo que avançassem. Paralisados pelo terror e pela admiração, eles olharam Pirro como* a um deus, e não o molestaram mais em sua marcha.
LV. Prosseguindo em seu caminho, sem perda de tempo, êle chegou à cidade de Tarento, com vinte mil homens de infantaria e três mil cavaleiros; com essa força, e com a parte melhor dos combatentes tarentinos, êle marchou incontinenti contra os romanos, que estavam acampados em terras dos sanitas. Encontravam-se estes em situação das mais desfavoráveis: derrotados em várias batalhas pelos romanos, mostravam-se desencorajados. Estavam, por outro lado, descontentes com Pirro, a quem não perdoavam a viagem a Sicília. Por este motivo, não foram muitos os que se dirigiram ao seu acampamento. Pirro, após dividir as suas tropas em dois corpos, "enviou o primeiro à Lucânia para conter um dos cônsules de Roma (1), que ali se encontrava, e impedir que socorresse seu colega; chefiando o outro corpo, marchou contra Mânio Cúrio, que, ocupando uma posição das mais vantajosas perto da cidade de Benevento, estava à espera de reforços enviados de Lucânia. Havia ainda os prognósticos dos adivinhos, através de pássaros e sacrifícios, os quais o aconselhavam a não afastar-se dali. Pirro, ao contrário, ansiava por combater esse exército, antes da chegada dos reforços esperados; pondo-se à frente de suas melhores tropas, com seus elefantes mais aguerridos, iniciou a marcha ao cair da noite, a fim de atacar o acampamento de Mânio. No entanto, como era muito longo o trecho a ser percorrido, numa região toda coberta de florestas, as tochas, utilizadas para alumiar o caminho vieram a faltar, e a maior parte dos soldados se extraviou. O tempo necessário para reuni-los consumiu o resto da noite; e, ao amanhecer, o inimigo avistou-os quando desciam as montanhas, mostrando-se, de início, perturbado. Mânio, entretanto, diante dos presságios favoráveis e, forçado pelas circunstâncias, saiu de seu acampamento, e atacou os primeiros adversários que teve pela frente, pondo-os em fuga; os outros foram tomados de tal pavor que deixaram grande número de mortos no local, tendo sido, ainda, capturados alguns elefantes.
(1) Cornélio Merenda, que foi cônsul, juntamente com Mânio Cúrio Dentato, no ano 480, de Roma.
LVI. Esta vitória fez com que Mânio saísse de suas posições e fosse combater com todo o seu exército em pleno campo; êle deu início ao combate, conseguindo romper uma das alas do inimigo; mas foi repelido na outra, devido a uma violenta investida dos elefantes, sendo forçado a recuar até o seu acampamento, onde tinha deixado numerosos soldados encarregados de guardá-lo. Enviou então estas tropas, que se achavam bem armadas, ao campo de batalha, onde atacaram os elefantes com uma chuva de dardos, forçando-os a fugir; os animais, atirando-se sobre as próprias unidades a que pertenciam provocaram grande desordem e confusão, resultando a completa vitória dos romanos e, com esta vitória, a consolidação da grandeza de seu império. Com efeito, com os êxitos alcançados, a confiança em seu próprio valor aumentou ao mesmo tempo que suas forças, e, adquirindo a reputação de combatentes invencíveis, eles conquistaram logo depois o resto da Itália, e, em seguida, a Sicília.
LVIL Foi assim que Pirro viu desvanecerem-se todas as suas esperanças de conquista da Itália e da Sicília. Consumiu nestas guerras seis anos inteiros e seu poderio enfraqueceu-se consideravelmente; entretanto, no meio das derrotas a sua coragem permaneceu invencível, e adquiriu a fama de ultrapassar em experiência, valor e audácia, todos os reis de seu tempo. Mas o que êle ganhava com seus feitos, perdia com sua ambição; e o desejo daquilo que não possuía impedia-o de assegurar a posse do que tinha. Antígono, por este motivo, comparou-o a um jogador de dados muito favorecido pelos lances, mas que não sabia aproveitar-se de sua boa fortuna. Tendo regressado ao Êpiro com oito mil homens de infantaria e quinhentos calavei-ros, cs quais não podia pagar, ele pôs-se à procura de uma nova guerra, a fim de conseguir recursos. Após receber o refôrço de certo número de gauleses, entrou com suas tropas no reino da Macedônia, onde reinava Antígono, filho de Demétrio, sem outra intenção senão pilhar e levar uma grande presa de guerra do país. No entanto, a conquista de algumas cidades e a defecção de dois mil macedônios, que se juntaram às suas forças, fizeram-lhe conceber mais altas esperanças, e decidiu marchar contra Antígono. Atacando-o num desfiladeiro, provocou grande confusão em suas fileiras, pois os gauleses que o rei da Macedônia colocara na retaguarda de suas tropas, e que eram muito numerosos, ‘após sustentarem valentemente o primeiro ataque, foram quase todos dizimados, após rude combate. Em seguida, os soldados que dirigiam os elefantes, tendo sido cercados por todos os lados, renderam-se com seus animais. Pirro, vendo suas forças assim reforçadas, confiando mais nos favores da fortuna, do que na voz da razão, decidiu atacar a falange macedônia, a qual, após ‘a derrota de sua retaguarda, ficara desorganizada e amedrontada. Os macedônios, porém, não quiseram combater contra Pirro, que, por sua vez, estendendo-lhes as mãos, e chamando pelos seus nomes os capitães e chefes de grupos, fêz com que a êle aderisse toda a infantaria de Antígono. Este, que se pôs rapidamente em fuga, com alguns cavaleiros, ficou apenas cem algumas cidades marítimas do reino.
LVIII Pirro, nesta fase de prosperidade, considerava a vitória, sobre os gauleses como o mais glorioso de seus feitos, e, por este motivo, ofereceu os mais belos e os mais ricos de seus, despojes ao templo de Minerva Itonéia, com esta inscrição:
Vencedor dos gauíeses,
Pirro, agradecido,
A Minerva oferece estes ricos escudos
Depois de abater, de Antígono, o poderio,
Os seus mais valentes soldados derrotando.
E que esta bela vitória, após tantos feitos,
Não seja motivo de espanto ou maravilha,
Pois rio coração dos nossos soberanos
Vive ainda o valor dos filhos de Éaco.
LIX. Após esta batalha, Pirro reccupou as cidades da Macedônia, e, entre outras, a de Egas, cujos moradores tratou com muita severidade, nela colocando uma guarníção constituída pelos gauíeses que tinha a seu soldo. Os gauíeses, gente ávida e sedenta de dinheiro, deram disto uma prova ao violar os túmulos dos reis da Macedônia, sepultados naquela cidade; depois de se apoderarem de todas as riquezas que encontraram, agindo de modo insolente e sacrílego, dispersaram os despejos. Pirro foi disso cientificado, mas não deu muita atenção ao ocorrido, nem mesmo se manifestando a respeito, seja porque as questões do momento o levassem a adiar a punição, seja porque não ousasse castigar aqueles bárbaros. Mas esta indiferença desagradou muito aos macedônios, que o censuraram vivamente. Embora o seu domínio no país não estivesse ainda bem assegurado, o seu cérebro começou a elaborar novos planos; e, caçoando de Antígono, dizia que êle era um desavergonhado, pelo fato de vestir-se de púrpura como um rei, quando deveria trazer a simples capa dos particulares.
LX. Nessa época, Cleônimo, rei de
Esparta, convidou-o a seguir com seu exército para a Lace-demônia,
convite este que aceitou sem hesitar. Cleônimo era
de família real; mas sendo um homem violento e despótico, não gozava nem da
afeição, nem da confiança dos espartanos; e por isso Areus
reinava tranqüilamente, em seu lugar. Era este o seu velho motivo de queixa
contra seus concidadãos; mas, nesta oportunidade, apresentava êle outro motivo; tinha casado, em sua velhice, com uma
bela e jovem mulher, chamada Celidônides, também de
sangue real, filha de Leotiquides. Apaixonou-se ela
perdidamente por Acrótato, filho do rei Areus, príncipe de grande beleza e na flor da. idade, paixão esta que o
encheu de desespero, pois muito a amava, e, ao mesmo tempo, de vergonha, pois
ninguém ignorava em Esparta o desprezo que a mulher lhe votava. Suas
desventuras domésticas juntaram-se assim, às desventuras políticas, e, não
dando ouvidos senão à sua cólera e ressentimento, foi, com a intenção de vingar-se,
pedir a Pirro que se dirigisse a. Esparta, ã fim de
colocá-lo em seu trono; e, com efeito, Pirro para ali
o levou com seus vinte e cinco mil homens de infantaria, dois mil cavaleiros e
vinte e quatro elefantes. Com uma força tão fcrmidável
não era difícil chegar à conclusão de que Pirro tinha
em vista menos proporcionar a Cleônimo a posse do
trono de Esparta do que tornar-se êle próprio senhor
do Pelo-poneso. É verdade que negava que essa fosse a
sua intenção, em todas as respostas dadas aos lacedemô-nios,
os quais lhe enviaram uma embaixada quando se encontrava
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