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A VERDADE SOBRE OS ANOS 60
Published: May 25, 2008 - 08:55 PM
Nei Duclós
Tudo o que é relacionado, hoje, aos anos 60 era, nos
anos 60, considerado um horror. Por exemplo: cabelo comprido. Nas
capitais provocava apenas xingamento, má vontade, deboche. Mas no
interior a punição era o apedrejamento. Outra: rock. Ligado à sujeira e
à vagabundagem, rock era coisa de pessoas desviadas do rumo. Dava
cadeia. Mais: ser de esquerda. Ninguém tolerava um esquerdista. As
bocas se inflavam com o xingamento gritado: comunista! O chic, o
elegante, era ser de direita. Ser reaça era o fino. Comunista era morto
a paulada.
Em relação às mulheres, a barrava
pesava ainda mais. Não havia mulher liberada. Existiam as casadas e as
solteiras. O resto era uma pouca vergonha. Sexo livre tinha outro nome.
Querem mais? Cinema de vanguarda: Godard esvaziava os cinemas. Filme
com gente de olho parado era recebido aos pontapés. Vi gente sair
berrando das sessões de Glauber Rocha. Ingmar Bergman? Piada de
intelectual. Dava sono. “Não entendi”: eis a frase mais ouvida depois
de um Antonioni.
Poeta lido chamava-se J.G. de
Araújo Jorge. A vanguarda seca e granítica, João Cabral, os Irmãos
Campos, os transgressores Mario e Oswald de Andrade, o tísico Bandeira
ou o desencantado Drummond não faziam parte das prioridades nacionais.
Romances, os de Sidney Sheldon ou algo parecido (não sei, agora tudo se
embaralha). No máximo um Jorge Amado. Revista impressa: ainda imperava
a Seleções, com suas seções “Piadas de caserna, Rir é o melhor remédio,
Meu tipo inesquecível”. Quando surgiu a Realidade, já no fim da década,
com um sucesso estrondoso, a censura caiu matando. A mesma coisa
aconteceu com o Pasquim. Com uma agravante: mais tarde, tiraram o
crédito do Tarso de Castro como fundador do jornal alternativo, que
chegou a vender 200 mil exemplares por semana. Os que se atribuíram o
feito hoje estão milionários, já que “lutaram contra a ditadura”.
Quem
lutou de fato contra a ditadura, morreu. Os sobreviventes dançaram
conforme a música. A repressão, assim como a escravidão, foi instalada
em rede por todo o tecido social. Não havia como escapar. Protagonistas
tardios fizeram carreiras batendo no peito. A verdade é que a ditadura
não foi derrotada ainda. Costumam esquecer que o movimento das
Diretas-Já perdeu a batalha no Congresso em 1984. O primeiro presidente
civil depois do regime militar era vice de uma chapa que não tinha
assumido. Não poderia, portanto, ascender ao cargo. A política
econômica é praticamente a mesma, tanto é que os velhos tzars da
economia continuam pontificando.
Ok, mas e o
voto? Considero o voto útil o novo voto de cabresto. Nossos governantes
são eleitos num sistema político engessado, onde um voto na selva
(derrubada) vale dez das grandes cidades. Nesse quadro, a classe
política não se renova. Sobrevive ainda a Medida Provisória, invenção
da ditadura que permite o Executivo legislar.
O
passado nos escapa porque elegemos algumas certezas como definitivas.
Nestes 40 anos desde 1968 o tema se gastou com tanto documentário e
tanta saudade fajuta. Em qualquer resgate audiovisual dos 60, o sonho
sempre acaba. Isso foi sendo aos poucos substituído pelo ano que não
terminou. Engraçado, comemorei o fim de 68 no dia 31 de dezembro. Como
assim não acabou?
O que fica dos 60 é essa
defasagem entre as versões oficiais, as que geram grana, e a grande
periferia dos acontecimentos, onde tudo foi decidido. A revolução do
comportamento não foi exclusivo da época, mas uma herança. As mulheres
sempre trabalharam, com dupla jornada de trabalho ou não. Parece que
hoje há um consenso, expresso em contundência fanha, de que a
“mulhééérrr” só deu a volta por cima nos 60. E aquelas mulheres
liberadas dos anos 20, estavam “adiante do seu tempo”?
O
cosmopolitismo, a vida boêmia, a libertação das amarras dos
relacionamentos, a insurgência da juventude (antes conhecida como
mocidade) já existiam, minoritárias, antes que a histeria dos 60
gerasse a ilusão de que tudo mudou só ali, naquela quadra de tempo.
Mudou,
nada. Continua a mesma coisa: a poderosa sacanagem sendo estocada pela
guerrilha da coragem e da vontade de viver. Hoje, o que há de mais
concreto sobre os anos 60 é que minha geração chega enfim aos 60 anos.
Como diria Mário Quintana: por favor, não me chamem de sexagenário.

