News
ANOS 60 SEM SAUDADE
Published: Dec 09, 2007 - 04:40 PM
Nei Duclós
Incentivar a saudade dos anos 60 é uma das muitas formas de enterrar
a época em que o enfrentamento coletivo contra a ditadura do Império (
que se desdobrava planetariamente, do Vietnã a Brasília) lançou os
fundamentos de uma nova civilização. Esse projeto não fazia parte da
oposição conservadora de esquerda, que no fundo é o clone do Mesmo,
como provam os governos socialistas europeus e o governo Lula.
Os anos 60 são muito mais perigosos do que qualquer guerrilha,
porque criou a plataforma completa de uma alternativa real ao horror da
direita. Caíram de pau nesse projeto e vivemos o tempo em que a reação
brutal ao esboço da nova era tornou-se muito mais sofisticada e
profunda. A principal arma dessa desconstrução da utopia é desmoralizar
a revolução da qual fizemos parte, nós daquele geração privilegiada,
que incorporou completamente o sopro de luz que não foi apenas sonho,
mas a nossa carne.
Matar quem levantou a bandeira mais alto foi só um detalhe. O mais
importante veio depois, ou seja, agora: repetir à exaustão que aquilo é
passado, que jamais voltará. Só que os anos 60 são o futuro e por isso
não podem fazer parte da saudade.
ABC – Daniel Duclós nos envia o álbum completo do Submarino Amarelo.
Todos juntos agora: a, b, c,d; um, dois, três, quatro; nada do que você
vê será impedido de mostrar, nada do que você quer deixará de ser
feito, é fá-cil. It´s easy: os Beatles não são os anos 60, apenas fazem
parte dele. Sobrevivem como o iceberg maior, integralmente à tona,
navegando no mar dos buracos. Eles respondiam ao clamor das ruas, eles,
como todos nós, éramos o que um dia seremos. Lennon dizia para um
admirador pirado: faça suas canções, não perca tempo com as nossas.
Assuma, porra, senão vão nos matar. Lennon viu que a barra ficou preta
e lançou a frase que todos repetem à exaustão.
Mas no Submarino Amarelo tem tudo: o anúncio estridente dos navios
transformado em música, a música incidental da navegação no Mistério, a
constatação de que tudo é demais, ou sejam, colocamos o pé na Maravilha
e sossega que a viagem é sem fim. Cante conosco, crie sua vida, saia do
cerco, rompa. Essa é a fonte da alegria, o de criar sempre, o de
reiventar-se, o de construir o sossego por meio de uma luta que mexe
com teu corpo e teu coração. Parece fácil entender, mas é complicado.
Não se trata de algo que mudou o mundo, já que o mundo continuou igual,
ou seja, a mesma choldra de sempre, cada vez pior. Não tem nada a ver
com a força do rock transformando nerds em muito loucos, como dizem
sempre os documentários execráveis.
Trata-se de um fundamento, de um mapa, de uma criação gigantesca de
uma enorme população, da qual Woodstock era só um ponto. Foi um
exercício de imaginação que deu certo por alguns anos em uma parte da
humanidade e quase foi vitorioso. Perdeu a batalha, mas não a guerra.
CABEÇA - Para mim, há muitos anos 60. Primeiro, nossa mudança da
grande casa da esquina para o subúrbio, quando descemos alguns degraus
da escala social. Depois, o golpe de estado de 64, que me tirou todo o
gosto de ficar em Uruguaiana. E terceiro, Porto Alegre, a cidade da
cultura, onde entrei menino e saí guerreiro. Assumir os anos 60,
naquela época, equivalia uma pena de morte. Não era como hoje, em que
tudo é badalado na televisão mesquinha e comprada.
Não se tratava de sacudir os braços e a cabeça ou simplesmente
consumir drogas. Era enfrentar o ódio de quem nos via quebrando todas
as regras, em todos os lugares. O ódio profundo daqueles olhares, que
cercaram minha juventude de desespero. Era viver perigosamente: expor
poema na praça, usar qualquer roupa, jamais pentear o cabelo, sorrir
para todos, fazer a cabeça com a música tratada como mero produto
comercial. Era realmente cultura e filosofia.
A última fase dos 60 para mim foi a visita que fizemos ao Rio de
Janeiro em 1969, quando nos lembraram que dez anos antes o verso chega
de saudade tinha sido proferido como uma revelação. Éramos o futuro, e
sempre seremos. All together now.
ROTEIRO - O que são hoje os anos 60? Um roteiro, um sinal. Youssuf,
saia dessa mesquita e cante como Cat Stevens. Desça pela Internet todos
aqueles sons, inigualáveis e jamais superados. Ninguém tocará como
Hendrix, ninguém cantará como Janis. Não se trata de saudade, mas de
constatação. Não se trata de ficar preso ao passado, mas de enxergar o
óbvio: bombardearam a revolução com todas as armas e agora repetem no
Iraque a brutalidade do Vietnã. O Brasil continua preso pelo cangote ao
arrocho financeiro comandado pelos Estados Unidos, como sempre foi o
projeto da ditadura.
Quem é saudosista? O conservadorismo. A revolução não sente saudade.
A luta é com qualquer palavra, é com a palavra carregada pela poesia, é
com a poesia feito flecha e não esse mar de trocadilhos dos poetastros
trocaletras. É fácil fazer, basta querer. É difícil entender, porque
sempre existe alguém para sorrir de lado, como um palhaço. Tem saudade
da juventude, é normal, é normal, diz o abombado. Quem falou em
juventude? Nasci com a eternidade.

