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ANTES DO BAILE
Published: Nov 06, 2007 - 04:00 PM
Nei Duclós
As multidões não estavam soltas, impregnando cidades, ou forrando
estradas, como agora. Eram reunidas em lugares fechados, e na maior
parte do tempo ficavam em repouso. Pessoas de todos os tipos e lugares
obedeciam a fila, ou permaneciam lado a lado, mudas, extáticas, a um
braço de distância uma da outra. Usavam uniformes de cores neutras, um
azul marinho nas blusas e casacos, um filete branco nas mangas. Golas
engomadas exageravam na pontualidade.
Os olhares eram duros, fixos, e os corpos se submetiam à posição de
sentido ou se debruçavam sobre carteiras, mesas, balcões. Somavam
centenas, milhares, milhões, mas eram invisíveis. Onde se escondiam,
enquanto a sesta devorava a tarde, ou os descampados sofriam o jugo dos
nossos passeios secretos, quando praticávamos tiro nas andorinhas?
Embaixo de qual pedra se situavam? Fugiam dos nossos crimes que
atulhavam quintais imensos sem testemunhas? As massas habitavam lugares
excêntricos, longe de nossa vista, à espera de um sino, um alarme, um
bater de palmas, para se desencadearam em ruidosa e irresistível
avalanche.
Ocupávamos então nossos postos na saída dos colégios das freiras.
Sapatos de seda, adornados por laços de fita violeta, transportavam as
meninas. Pernas amaciadas por meias de puro cetim marchavam sob o surdo
farfalhar de saias cada vez mais próximas do sonho. Aquele mar de
mulher saía compacto abraçando cadernos e livros e tapando a boca na
hora das confidências. O riso era abafado, como é comum até hoje entre
garotas chinesas e coreanas. Tínhamos algo de oriental. O cabelo
escovinha coroava a rigidez dos pescoços. Os guarda-pós desciam até os
pés.
A reunião do estado-maior era ao redor de uma garrafa de
soda-laranja, depositada sobre um tampo de mármore ou fórmica. O garçom
às vezes chegava perto para oferecer algo ou simplesmente recolher os
copos. Exibia distinção envergando gravata borboleta, enquanto o grande
guardanapo pendia no braço como um pingente de ouro. Moleques, pedíamos
mais uma "dose" e assim corriam as horas até chegar o momento da súbita
procissão dos habitantes.
Aglomerações bem vestidas saíam dos estádios. Uma recorrente fábrica
de gritos encerrava as sessões de cinema. Comícios desaguavam num
tropel de votantes convictos. Um deslizamento silencioso tomava conta
de calçadas e praças depois da missa matinal. Grandes brigas atraíam
gigantescos ajuntamentos. E os corredores improvisados dos parques de
diversões tinham o poder da imantação coletiva.
Em todo lugar havia gente saindo pelo ladrão. Mas o planeta estava
vazio. O vento batia nos eucaliptos no colégio abandonado. O melhor
amigo se mudara para sempre. O professor insubstituível não voltaria no
fim das férias. A menina dos olhos namorava firme com alguém.
À tardinha, as multidões se recolhiam, para depois sentarem na
frente das casas, a receber visitas. Saíamos então em direção ao
centro, contando cadeiras preguiçosas. Em cada uma delas, alguém iria
dar um aceno. Pois esse era o nosso objetivo. De toda aquela imensa
quantidade, uma só pessoa sairia do miolo do devaneio para chegar até
nós. Pisaria macio como fada em baile de formatura. Nosso único
trabalho era tirá-la para dançar.

