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EM NOME DO TEMPO

Published: Aug 22, 2008 - 09:07 AM

Nei Duclós

Deveria haver um mandamento para não tomar o nome do tempo em vão. Evitaria um massacre, gerado por vícios como achar que existem pessoas à frente do seu tempo, como se o passado sofresse de um pecado original que não o habilita para o gênio. Ou dizer que o tempo atual é definido pelas celebridades, como se o interesse excessivo por elas passasse um atestado de idiotia ao presente. Ou sustentar que não sobreviveremos a este século, por força do aquecimento global, ou da nova era glacial, dependendo da moda, o que é uma forma de enterrar o futuro, que ficaria assim excluído da esperança, sua velha moeda corrente.

Não faz sucesso contrapor a esses maus hábitos a lógica e o bom senso, atributos desmoralizados pelo pragmatismo, cada vez mais envernizado pela pose e a má assimilação das ideologias. Não convenceremos se dissermos que cada tempo produz o pacote completo e que, merece, portanto, figurar ao lado de outras épocas igualmente generosas em produzir o que existe de melhor e pior na humanidade. Ou que o comércio das celebridades é apenas uma perversão da sociedade do espetáculo e não pode definir a multidão mal servida de fama, mas dedicada ao talento, à vocação, ao suor e à grandeza. Ou ainda que seria muita pretensão achar que as próximas décadas vão se comportar conforme os interesses hegemônicos de hoje.

O previsível é que os jargões alimentados pelos equívocos voltem sucessivamente às manchetes, num círculo mal-assombrado de esqueletos que empurram a Terceira Idade para níveis gigantescos de irritação e impaciência. Passar uma vida inteira ouvindo abobrinhas serem incensadas pela mediocridade no poder é mais do que uma pessoa normal consegue suportar. Especialmente quando essas palavras de ordem se voltam para o divertimento favorito de enquadrar as pessoas em modelos hierárquicos da aparência e da massa muscular.

Como a cultura e o conhecimento entraram no ralo da indiferença, tendo sido substituídos pela performance e a reportagem “humana” (a que arranca sorrisos melosos dos apresentadores), caímos no leito anunciado pelo nazismo. “O jovem alemão precisa ser magro e forte”, disse Hitler num discurso. Isso eliminaria os gordos, os fracos, os avessos aos exercícios. Sabemos o que provocou essa eugenia de resultados, que negou a diversidade e tentou impor as certezas raciais. O perigo é que temos exemplos passando por nossos olhos a todo instante, insuflados pelas manipulações perversas de nível planetário.

O anacronismo, que é ver o passado com os olhos do presente, é uma pandemia, que se espalha à medida em que cresce a ignorância sobre a ciência histórica. Como não há vacina contra isso, a não ser o estudo árduo, é costume anexar países usando escudos como sabedorias e provérbios milenares. Ou manter feroz ditadura convivendo com manifestações da indústria do espetáculo, que dublam cantoras mirins ou inventam fogos de artifícios inexistentes, exatamente para reiterar a falsa imagem de potência. Ou projetar um perfil de gigante enquanto aumenta a produção de lixo industrial, as quinquilharias que sugam recursos enquanto sucateiam fábricas nacionais.

É proibido falar dessas coisas quando há deslumbramento pelo que não existe de fato. O que temos é um vasto painel de seduções variadas, enquanto a escola humanista da arte e da cultura, a que desdramatiza, desaliena, denuncia e liberta, continua sob feroz garrote.
Foot notes: Crônica publicada no dia 19 de agosto de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.
 

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