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ESSE ESTRANHO AMOR

Published: Aug 17, 2008 - 09:27 AM

Nei Duclós

O amor à Pátria é um sentimento estranho. Não faz sentido amarmos algo que não tocamos, já que nação é mais do que paisagem geográfica, é um pedaço inacessível de pano, longe, ao vento. É um começo de hino, um sotaque, um andar, um reclame. Não implica rebento, não faz parte do mundo animal, não tem ligações de sangue. País é como um parente distante, sobre o qual desconhecemos a origem, não reconhecemos laços, desconfiamos. Não está incluído na natural proteção que damos ao objeto amado, quando agarramos, beijamos, suamos, lambemos o que gruda e arranha .

Pátria não tem corpo, é mais um acordo, uma idéia, no máximo duas cores (as outras são coadjuvantes). Então, que estranha compulsão é essa que nos inunda quando abraçamos a bandeira e gritamos o nome do país que imaginávamos não amar mais? Talvez porque o amor à Pátria, ao contrário do egoísmo dos amantes, seja aberto, amplo, generoso, que se espraia pelo tempo, praias, horizontes. E volte, sempre que houver motivo ou o dever nos chame.

O amor à Pátria é o primeiro a ser negado quando nosso representante, no lugar de evitar o gol do adversário, contribui com ele por omissão ou soberba. Quando a reiteração dos crimes compõe a identidade do país que deveríamos amar. Basta o galo cantar uma só vez para trairmos a devoção cívica que deveria nos nortear. No varejo, nos dias que se sucedem sem nenhuma graça, vemos o amor à Pátria escoando pelo ralo. É o Brasil, dizemos, e damos o assunto por encerrado.

Chegamos até a admirar os outros, que por suas pátrias possuem um amor sem dúvidas, já que vivem batendo no peito as heranças, como se o sentimento fosse invisível e precisassem, a cada momento, confirmá-lo diante de todos. Nós somos diferentes. Nosso amor à Pátria é muito mais estranho. Perdemos a pista de suas fontes. Não há o que amar, pensamos, num país tão próximo e distante. Por isso, talvez, emigramos. Queremos esquecer a exclusão, a violência, o vexame.

Mas basta um garoto desconhecido, vindo do Brasil profundo, com família tão comum, como a nossa, um garoto pouco explícito, já que a mídia aposta sempre no mesmo, que rompe a barreira com sua musculatura de escamas, ganhe um suado ouro no mais extremo Oriente, para que, pronto, o estranho amor volte à tona como um náufrago dado por perdido. Tínhamos esgotado a cota de esperança. Estávamos mortos, abraçados a poucos bronzes. Veio César, de um céu limpo, para chorar o que negamos.

Talvez pelo peso excessivo dessa responsabilidade, que a nação inteira, com um pé atrás, torta de tantas derrotas, tenha colocado sem querer em seus ombros, fez com que César Cielo Filho desandasse a chorar sem consolo. Como se recuperássemos as cachoeiras que matamos, como se voltassem os rios que se tornaram espaços sedentos. Foi a água limpa do seu choro o sintoma de algo maior que nos transcende. Foi vergonhoso, reconhecemos. Onde se viu um país chorar por um pedaço de ouro, depois de tanto que tivemos em nossas entranhas e que foram espalhados pelos esgotos da História e do mundo?

Nem devíamos estar escrevendo essas coisas. Não merecemos esse ouro. Essa medalha pertence ao garoto e seus pares, sua modalidade, sua família. No máximo à sua cidade, jamais ao país que, no entanto, amamos. Estranho, é possível que não seja a Pátria o algoz que tememos. Talvez tenha conserto, e seja bom e certo bater no peito e nos insurgir quando ameaçam berço e destino, o único lugar do qual jamais escaparemos. Será esse o caminho, depois de tanto erro?

Não sabemos, César, Cielo, Filho. Saberemos quando tivermos tua garra e chorarmos a alegria de sentir esse amor estranho, o amor ao Brasil, a nação soberana. Queremos fazer parte desse ouro. Acolha-nos, César, com teu poder mutante. O que chora quando a bandeira, majestosa, sobe e o Hino Nacional nos toca, como um tiro certeiro.
 

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