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HIPÓTESE DÁ TRABALHO
Published: Dec 08, 2007 - 02:03 PM
Nei Duclós
A polícia costuma "trabalhar com a hipótese" de alguma coisa. Sugere
esforço em fabricar pensamento, ligar uma atividade silenciosa, pensar,
ao suor. No país ágrafo, trabalhar é fazer barulho. Muita gente tem o
costume, nos cumprimentos ruidosos, de gritar que "estão trabalhando!".
Só assim poderão escapar do anátema de passar por desocupadas, e de
ficar a um passo do encarceramento, como acontecia antigamente, quando
prendiam por vadiagem.
Nas obras, vê-se que não basta levantar tijolo e colocar telha, ou
cortar cada peça sob o massacre de silvos agudos intermináveis ao longo
do dia. É preciso que os aboios entre os pares, os que estão no batente
e os que passam, difundam a boa ação que ali se desenvolve.
Certa vez, em São Paulo, levantaram, perto de casa, três edifícios
de uma hora para outra. A empresa, bem sucedida, usava blocos
pré-moldados. O material, de qualquer tamanho, vinha sob medida. Em
compensação, num outro prédio em construção bem em frente onde morava,
uma serra elétrica funcionou por três anos cortando tocos de madeira
das sete da manhã às oito da noite. Como se o concreto dependesse do
desmatamento.
Até que a construtora faliu, deixando por todo o país um rastro de
esqueletos urbanos, entre eles o monstro do meu bairro. Esses fantasmas
eram os monumentos à incapacidade de planejar, ou seja, de trabalhar
sem romper os tímpanos da vizinhança.
Antes dos computadores, o batucar da máquina de escrever fazia parte
do mundo reconhecível das virtudes. Hoje, época dos teclados, que
deslizam sem que ninguém perceba, ficou mais difícil. Trabalha-se com a
hipótese de que você não ocupa seu tempo com algo decente. Você é
suspeito, pois passa as horas que deveriam ser dedicadas ao eito sem o
hábito de arrastar correntes. E não adianta surrar o equipamento na
hora de escrever. Não convence.
É necessário que todos se enquadrem nos lugares comuns da linguagem,
como ser chamado de homem-forte de algo importante ou participar de uma
força-tarefa. Funciona assim: as idéias prontas são o insumo da
inteligência engessada, a que jamais muda e que é transmitida pelos
gens. Nascer sabendo significa dispor do destino manifesto de não ter
de aprender, como o resto.
É por isso que a servidão cala a boca (para aprender) e a sabedoria
usa bota de cano alto (porque sabe). O silêncio é escravo do bater de
pés no portal, quando um poderoso anuncia sua presença. A desculpa é
sacudir o pó acumulado na caminhada, mas sabemos que é a maneira de
deixar claro quem manda. Bater palmas fortemente é outro caminho
manjado. Faz parte da cultura da varanda, que serve para chamar os
criados. Hoje, ainda se usa muito, principalmente para lembrar que você
desligou a campainha da porta da frente. As palmas aos poucos estão
sendo substituídas pelo estalar de dedos, que é o chicote auditivo
utilizado para alertar os subalternos.
Mas a realidade é outra. Os chefões da máfia, por exemplo, ouvem
mais do que falam. E só dão as ordens num sussurro mortal, como Don
Corleone, personagem de Marlon Brando no clássico de Francis Ford
Coppola, "O Poderoso Chefão". No fundo, o barulho é a verdadeira
servidão. Num país de escravos, onde todo mundo quer ser senhor, o
martelar incessante é o recado explícito da falta de liberdade.

