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O DESTINO É COMO AS DUNAS
Published: Jul 15, 2005 - 11:12 AM
Nei Duclós
O destino é como as dunas: define a paisagem humana, mas pode mudar
de lugar. Composto de areia e vento, ele migra e nessa viagem, às
vezes, aproveita a chance de desaparecer. O tenente inglês T. E.
Lawrence tinha o destino marcado: era filho bastardo de um nobre e por
isso não estava em condições de subir na pirâmide social (não existe
ascensão quando a marca da nobreza define a posição na vida; foi por
isso que a elite da Inglaterra recebeu friamente a celebridade
milionária Charles Chaplin, que sempre seria o filho pobre de artista
de variedades).
Era também um intelectual franzino, não tinha como se impor na
carreira militar, ainda mais em época de guerra. Mas ele guardava um
trunfo: era inglês, portanto fazia parte desse tipo de gente que saía
para torrar ao sol do meio-dia, junto com os cachorros loucos, como
definiu Noel Coward em inesquecível canção que virou hino patriótico.
David Lean, o mestre que foi formado na equipe do compositor,
dramaturgo, poeta e cineasta Coward, interessou-se por esse perfil do
tenentinho marginal que enfrentou o destino.
O resultado é Lawrence da Arábia, o melhor e maior filme de todos os tempos, a obra magistral até hoje não superada por nada nem ninguém.
ÁKABA, POR TERRA - A narrativa do filme, composto de imagens
inesquecíveis, destaca a luta do protagonista contra a mutante paisagem
do destino. Ela é estruturada como se fosse a versão oficial de
autoridades, mas isso é só um gancho para o espectador entrar no mundo
complexo do anti-herói. A primeira aparição do personagem é a sua prova
de que pode resistir à dor de um fósforo aceso sobre o dedo. Significa
que está disposto a contrariar a própria natureza para chegar onde
quer. Sua postura diante do general (Jack Hawkins, magnífico como o
gorilão sem escrúpulos) é descosturada, anárquica, dispersa. Significa
que não tem o perfil de um oficial do exército britânico.
Sua viagem para o coração do deserto é feita entre dunas que se
movem com o vento. Representa a procura de um lugar naquela paisagem
misteriosa. Tudo é pontuado por sua reflexão obsessiva que deságua na
decisão de atacar os turcos de Ákaba por terra, o ponto alto de uma
trajetória que se coloca como uma opção guerreira, uma visão
estratégica inovadora, impulsionada por uma coragem suicida. Há a
argumentação para conquistar o apoio das tribos do deserto (lideradas
por Anthony Quinn, no seu mais contundente papel no cinema), onde
mistura versões e fatos para destruir a neutralidade dos potenciais
aliados. Significa que o tenente tem condições de desviar o curso dos
acontecimentos.
Sua vitória em Ákaba, sua travessia de volta pelo Sinai até o bar
dos graduados no Cairo (a cena mais impressionante do filme, em que
convence os ingleses de que realmente tomou a cidade à beira bar que
estava na mão do inimigo): é quando ele assume a vanguarda da guerra,
virando a maré a seu favor. E finalmente a queda, quando descobre que
está sendo manipulado.
LOUCURA - Seu último esforço, ao tomar Medina, acaba em fuga e
tragédia: o herói não consegue dobrar o destino, já que este é formado
de todas as dunas e não de uma só. A cena mais explícita é quando ele é
obrigado a fazer justiça numa briga entre tribos e vê que a sua vítima
é o mesma pessoa que salvou do deserto, quando quis provar que nada
estava escrito e que as pessoas podem decidir o que vai acontecer. Seu
pânico diante do homem de joelhos é o início da loucura.
O tenente Lawrence não consegue dobrar o rumo de sua vida, pois não
passa de um imperialista em terras miseráveis e toda a sua luta é
encampada pela falta de escrúpulos de políticos e generais. Em pleno
descenso, ele fustiga o destino ao se expor numa cidade tomada pelos
turcos. Ali cai nas garras de um oficial (José Ferrer, terrível,
monumental) que buscava carne fresca para seu prazer.
O fim de Lawrence, na versão oficial (que é contestada) é que ele morreu num acidente de moto no interior da Inglaterra. Li A revolta do deserto, livro posterior à sua grande obra, Os sete pilares da sabedoria,
um dos livros prediletos de Winston Churchill. É quando Lawrence muda
de nome para entrar novamente nas forças armadas. Foi seu último
esforço para recompor seu destino.Lá sofre horrores. Estava louco.
Estava só diante da própria vida, feita de lágrima e pó. Ficam seus
textos e este filme, que levou David Lean, e o ator Peter O'Toole (o
definititivo Lawrence) para a imortalidade.

