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O FILME PERFEITO
Published: May 23, 2005 - 10:42 PM
Nei Duclós
"Chuvas de Verão" (1977), de Cacá Diegues,
continua sendo uma obra-prima do cinema nacional. Em cada cena de
clássico acabamento, numa trama de grande complexidade e transparência,
vemos neste filme maravilhoso quem realmente somos e aprendemos a
admirar nossa capacidade de alcançar o mais alto nível da criação
cultural. Com essa revelação, resgatamos o país mergulhado dentro de
nós. Fica assim mais fácil suportar e entender a carga de realidade que
nos desafia e que costumamos ignorar.
MILAGRE – Ao filmar
o Rio de Janeiro e deixar de lado a Zona Sul, Cacá Diegues captou o
milagre da civilização brasileira, que se estende por vasto território
com as mesmas características ("milagre de português", segundo Paulo
Vanzolini). O aposentado que sonha em nada fazer descobre nos vizinhos,
amigos e parentes a sombra pesada de uma vida em todos mal resolvida, e
por isso mesmo, humana. O admirável é que não há lamentações nesse
impacto composto de pedofilia, homossexualismo, deduragem, assassinato.
O olhar ao mesmo tempo triste e resignado de Jofre Soares (o ator a
quem o Brasil jamais poderá agradecer o suficiente) sabe abrir-se nos
momentos mais cruciais, quando a lucidez sobre o horror escancara uma
janela para a alegria. A vida e seus espinhos passam rapidamente como
chuvas de verão. O que fica é a tenacidade da sobrevivência, o convívio
trepidante entre os despossuídos, a dignidade que prescinde da moral
conservadora, a glória da ingenuidade que enfrenta a violência e sai
ganhando. A rua de casas que serão demolidas para uma futura obra do
metrô é pintada como uma paisagem única, onde a decadência da
modernidade superpõe-se à seqüência de cores e formas da tradição
pictórica brasileira. Como se os séculos anteriores servissem de amparo
para a trama que se desenrola entre paredes velhas, com fotos e
cartazes antigos, móveis obsoletos. O corpo humano é moldado por essa
paisagem e seus gestos são limitados pela penúria da geografia que o
circunda. Torna-se patética a justificativa do palhaço criminoso
(Rodolfo Arena) que tenta disfarçar a culpa do estupro com o simulacro
de um exercício físico. A imagem da solidão absoluta é o aposentado que
leva sua cadeira desconfortável para a calçada numa tentativa de fisgar
a vizinha. E a precariedade do caráter revela-se na camisa aberta ao
peito de Juracy (Paulo César Pereio, absolutamente impossível na sua
genialidade).
CIRCO - Há também camadas superpostas de
artes populares, como é o caso da cena do teatro de revista que vira
drama de circo de subúrbio. O mais impressionante neste filme
antológico é que Cacá, como os grandes romancistas, expõe as feridas
mais profundas dos personagens como se estivesse narrando uma anedota.
E conta uma história aparentemente banal com todos os elementos do
grande teatro. Ali está a relação edipiana entre adolescente tardio e a
estrela decadente; a morbidez do velho (Sady Cabral) que tenta
descobrir o estado terminal dos amigos; a senhora muito antiga (Lourdes
Mayer) que faz revelações pornográficas e consegue rir do seu fracasso;
o almofadinha (o magnífico Daniel Filho, ator infelizmente pouco
presente no nosso cinema) que conseguiu escapar da miséria e entrega-se
a orgias homossexuais; a filha (Marieta Severo) que nunca vê o pai para
poder escapar de suas raízes.
Mas não se entenda essa galeria de
horrores como uma entrega da obra às facilidades da desgraça. Sem cair
no otimismo – que é a esperança pulando o Carnaval – Cacá Diegues
aposta na dignidade de uma vida escassa, mas cheia de grandeza. O
final, que são as pessoas indo para o trabalho ao som de um chorinho,
nos mata de emoção. A solteirona (Miriam Pires) que ao redescobrir o
sexo usa sua saia amarela ao voltar para o batente, o operário que
antes de pegar o trem é acompanhado pela mulher e filhos fazem parte de
um hino camerístico, a majestade informal de uma cultura que soube
encontrar sua identidade e deixa sua marca para ser vivenciada e
admirada.
SOMOS ASSIM - Dificilmente "Chuvas de Verão"
deixará de ser a obra- prima que é. Por ser um filme perfeito, já
nasceu clássico. Por ser a soma da nossa coragem, veio para ficar. Por
falar a verdade sem nos humilhar, é um amigo eterno. Por nos abraçar
sem nos paparicar, faz parte da família. Por isso é muito mais do que
um drama ou uma comédia de costumes. A obra não se enquadra em qualquer
moldura. É o que temos para mostrar a nós e ao resto do mundo: somos
assim. Por isso somos os melhores.

