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O PRESENTE SECRETO
Published: Dec 24, 2007 - 11:22 PM
Nei Duclós
Custei a descobrir que o presente de Natal não era o tanque de
guerra feito de plástico verde, que disparava luzes e sabia voltar ao
bater na parede. Ou o pião de lata que mudava de cor ao toque da mão e
emitia um zunido quando deslizava pelo piso. Também não era a árvore
artificial, portentosa, com pingentes idênticos ao cristal, cheia de
enfeites dourados e uma grande estrela pontificando no alto. E não era
o presépio, candente em sua cena de terna imobilidade. Custei ainda
mais a perceber que o verdadeiro presente não era despertar na manhã
sagrada para ver brinquedos, depois de uma ceia festiva e cheia de
encantos. Foi toda uma vida para tocar no segredo do dia 25 de dezembro.
Foi
preciso também entender, depois da segunda infância, que igualmente não
era almoçar peru frio amanhecido com champanhe ou curtir a ressaca de
uísque legítimo servido na véspera. Ou comentar os pileques, às
gargalhadas, no sofá. Nem a sesta que recompunha tudo para enfim sermos
livres a partir daquela noite, o princípio de uma corrida que iria
desaguar no Reveillon, quando vestíamos branco para nos despedir da
inocência.
O presente secreto cruzava as festas,
o verão e nos acompanhava no inverno. A certa altura, quando deixou de
ser entregue no reduto familiar, manteve-se firme, como o morro no
pampa frio, uma ilha no horizonte amargo. É o que carregamos quando
tudo perde seu encanto. Ele nos gruda a um acervo de ganhos, o que nos
dá poder de enfrentar a maldade e a burrice. O que nos alimenta sem
cessar vem de lá, daqueles Natais que jamais voltarão. Era a graça que
inaugurava em nós o que temos de humano.
É uma
espécie de ímã, anterior a tudo, ao almoço exercido com liberdade (no
tempo em que, durante o resto do ano, obedecíamos a rituais rígidos nas
refeições). Estava na base que nos fazia sentir felizes em nossos
minúsculos pijamas de algodão, era anterior às posses que viabilizavam
as comemorações, estava acima da confraternização ou das brigas entre
primos, irmãos, pais, vizinhos.
Ele contém o
segredo de uma felicidade possível, que nos parecia eterna. Vimos
depois que era precária, mas ainda faz parte de nós, como uma raiz,
como um choro diante da perda total, como a alegria que nos deita em
segurança e nos desperta em esplendor. Graças a esse tesouro, oculto e
explícito, somos o que nosso destino nos reserva: criaturas completas
que não se rendem ao roubo do coração.
Quem
inventou dentro de nós essa atração, esse fisgar, essa comunhão? Dizem
que foi a família, a educação, a quadra do país que experimentava uma
época mais equilibrada. Mas talvez a origem não se situe nesses redutos
conhecidos da razão. Ou não esteja nos confins dos sentimentos. É o
Mistério, que aperfeiçoamos enquanto nos é dado a glória suprema de
viver.
É o que escondemos na casa antiga, atrás
do canteiro, num vão da parede desmanchada, junto com a pedra lisa e
transparente, um carretel que servia de roda, um pedaço de madeira que
imitava uma arma. Coloco a mão nesse reduto e de lá se solta o teto da
Via Láctea, que se retirou do Céu por ter encontrado, no esconderijo
indevassável, o seu pouso e a sua grandeza.

