News
OS ANJOS RESISTEM
Published: Dec 15, 2006 - 01:34 PM
Nei Duclós
O espectador é o menos privilegiado dos autores. Quase nada sobra
para quem vê um filme, a não ser o olhar sobre o que já foi decidido.
Não há abstração no cinema, diz o cineasta maior, Sergio Rezende, a
mais sólida obra do cinema brasileiro contemporâneo. Tudo tem de ser
posto para ser visto. Nessa participação escassa, o espectador veste a
beca da percepção para enxergar o que por anos foi preparado, suado,
criado, tirado a fórceps, imaginado, feito, abraçado, chorado. É o
momento de gala, quando somos convocados para que enfim o filme cumpra
o seu destino. Nada mais podemos fazer, porque tudo nos é servido de
bandeja. Isso intensifica nossa responsabilidade. Não podemos devolver
ao que vemos o que temos de pior, a indiferença, ou o de mais precário,
a emoção que se perde já quando os letreiros enfim sobem. Somos
responsáveis pelo filme que nos é entregue como a carta do maratonista
que morre ao cumprir a missão. Estourou a guerra, diz a mensagem.
Convoque o que você tem de melhor.
ESPÓLIO - Quando o filme é Zuzu Angel, que se soma à galeria de
grandes personagens de Rezende, junto com Mauá, Tenório Cavalcanti,
Antonio Conselheiro, Lamarca, já começamos em dívida desde o início. Em
dívida porque Rezende traz para a tela o que é profundamente poderoso
no Brasil assassinado e que ficou fácil de esquecer depois de décadas
de ditadura. Para isso foi feito 1964: para abandonarmos o Brasil
Soberano. Rezende vai lá e pega de volta algo que pertence a esse
espólio e joga a nossos pés, jamais na cara. Rezende tem a delicadeza
dos fortes, a contundência dos bravos, o fôlego dos sobreviventes. Ele
traz, com equipe formada ao redor da esmerada produção de Joaquim
Carvalho, não apenas uma personagem, que por tanto tempo ficou oculta
(Zuzu Angel era um sussurro nas redações contaminadas pelo medo). Não o
Brasil, que se foi para sempre. Mas o sentimento que deixamos de ter
quando os fatos aconteceram. Nosso alheamento, nosso pavor, nossa fuga.
Ele faz Zuzu Angel sentar na sala e então podemos compartilhar desse
terror que é o esquecimento, e o que é mais importante, a noção exata
de quanto isso nos fez mal e o quanto é importante trazer de volta a
emoção que não tivemos.
TRIBUNAL - Isso ele faz recuperando as pessoas que conviveram com
Zuzu Angel, por meio de representações possíveis, quase próximas. Essas
personagens são vividas por Ângela Vieira (essa solidez suave que a
tudo costura), Luana Piovani (atriz de verdade, quando um diretor de
primeira está por perto), Leandra Leal (o talento que tem a delicadeza
de implodir para não assumir o próprio excesso), Regiane Alves (o
conforto de quem aparentemente fica na sombra). Todas cercam Patrícia
Pillar, uma solidão seduzida pela luz. O amor pelo filho, Stuart
(interpretado por um brasileiríssimo Daniel de Oliveira, biotipo oposto
ao original - de estampa americana - a revelar a opção feita a favor do
país onde nasceu e se criou) desencadeia a reação. Quando Patrícia
peita o tribunal, o cinema brasileiro levanta de uma só vez, como se
estivesse homenageando um rei que volta ferido da guerra. Pois é ao
cinema que esta cena pertence, mais do que à História. O cinema precisa
desse reconhecimento, para que a História sobreviva. Para chegar a esse
momento supremo da sétima arte entre nós, foi preciso que Patrícia
fosse cevada pelo Mal, encarnada pelo gênio. Pois é de gênio que
falamos quando temos Othon Bastos com seu duro olhar diante da tortura,
um olhar que movimenta o circo da maldade encarnado por vários atores
que estão perfeitos em seus papéis de algozes (com destaque para Aramis
Trindade, assustador como o Tenente que se vinga da ditadura, e Flavio
Bauraqui, o torturador que mostra as várias faces da brutalidade). O
Mal sem caricatura amadurece o país quando é mostrado em toda sua
crueza.
SUSTO - Um filme como Zuzu Angel elimina qualquer possibilidade de o
Brasil repetir seu velho papel de palhaço. Não se enquadra nos
adjetivos que acompanham os lançamentos para ajudar a esquecê-los. Não
se trata de uma obra-prima, de um grande filme ou algo parecido. Mas da
ponta mais evidente de uma descoberta ainda submersa. É uma obra
sólida, de narrativa enxuta, que convoca nossa omissão e nos abraça com
seu drama. É um filme para ser visto com a parte de criação que nos
toca: o de reinventar o que nos é mostrado na tela, resgatar (para quem
viveu a época) o tempo perdido, descobrir do que foi feito de nós e
avançar na arte que o cinema proporciona ao envolver tanta gente.
Precisamos dizer: é o filme de um cineasta maior. Fruto de um país que
amadurece aos trancos, como tudo na vida. E que ajuda a compor um
conjunto de trabalhos que Rezende produz como se nos sacudisse pelos
ombros, falando diretamente nos olhos, no momento em que recebemos uma
carga de artilharia no front e achamos que tudo se perdeu.
Acordamos do susto com Sérgio Rezende falando para nós, quando vemos
que já amanheceu e que todas as lições da longa escuridão precisam
ficar conosco para que não possamos repetir a tragédia. Resista, diz
ele, resista. Os anjos ainda estão do nosso lado. Acordamos então ao
som de Angelica, de Chico Buarque, a canção feita para a coragem punida
pelo horror.

