OS ESPAÇOS FATIADOS
maio 25th, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: CinemaNei Duclós
O ator move a cabeça lateralmente em ângulos bem determinados, como faz Michael Keaton e Kiefer Sutherland. A tela da TV, pequena para definir espaços maiores, e mesmo a atual tela de cinema, infinitamente menor do que o velho cinemascope, obriga o ator a fazer esse movimento que, para quem não domina o ofício, fica artificial demais. Quem é do ramo sabe que assim pode fatiar o espaço em vários pedaços de percepção. O que ele pretensamente enxerga em cada movimento é um compartimento à parte, que pode sugerir espanto, dúvida, entendimento.
Mas há os grandes canastrões, como Andy Garcia, que mexem lentamente a cabeça para o alto e depois, num gesto que pretende ser imperceptível, fixam o olhar num vazio onde parece existir algo. O truque fica óbvio demais. No fundo, o ator cubano acreditou que possui uma estampa imbatível e as pessoas pagarão só para vê-lo levantar a cabeça, talvez para dizer que lembra que um dia foi dirigido por Coppola e depois nunca mais fez alguma coisa. Garcia também tem o dom de carregar levemente (para evitar rugas) o sobrolho ou dobrar o indicador no queixo para expressar concentração. Keaton e Kiefer, atores médios que se especializaram no artesanato da interpretação, quebram o galho em filmes de ação, onde os gestos laterais da cabeça ajudam a multiplicar a cena.
Há atores melhores, como Morgan Freeman, que ao interpretar um detetive concentrado na tela do computador coloca a cabeça um pouco em diagonal com o micro e nos surpreende quando levanta subitamente os olhos. A cabeça levemente inclinada já cria alguma coisa em relação ao brilho e à superfície da tela; o levantar de olhos nos leva para o núcleo da sua investigação. Sabemos que ele desconfiou de algo, que ele está pronto para descobrir, que ele aponta uma pista e que a partir desse gesto, tornando significativo pelo seu grande talento, os atores coadjuvantes vão vestir a idéia com movimentos, diálogos e ações. Um crime corre agora o risco de ser desvendado.
O roteiro pode ser fraco, mas um grande ator salva a obra toda. Há ainda o mistério dos monstros como Marlon Brando, que transforma sua cabeça num monumento iluminado pelo gênio de Coppola e que torce a boca ou apenas fala e tudo funciona de maneira magnífica. Sobre essa arte nós, que estamos fora desse ofício, fechamos a boca. Vai lá saber o que eles realmente fazem para nos assustar.