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PEDRA NO REGATO

Published: Sep 14, 2008 - 09:39 AM

Nei Duclós

Pedra lisa, quase transparente, brilha no fundo de um regato, aquela porção de água pura que desce a montanha tecendo a aventura. Mais preciosa que ametista, mais vistosa que pepita, mais valiosa que diamante bruto. Perdida entre tantas, se deposita sem esperança de ser colhida. Tem apenas a beleza exposta no barulho da pequena correnteza, mudando de lugar conforme a chuva, ameaçando despencar na primeira cascata e que se encolhe ao toque quando a descobrimos quase sem querer, numa curva tomada pelo pedregulho.

A mão em forma de luva despenca para apanhá-la antes que flutue, ou suma, ou faça qualquer coisa louca, típica das criaturas do sonho. A mão cruza o filete de água em movimento perdendo a direção. A prata do sol, filtrado por nuvens pálidas, gera a confusão do gesto feito de improviso. O resultado é apanhar pó do leito do riacho, milhões de partículas que por instantes escondem o objeto de desejo, agora impossível de ser localizado diante da escassez dos cinco sentidos.

A paisagem conspira para manter a prenda grudada ao seu ambiente. Quer evitar que ela sofra de súbita demonstração de assombro e depois seja depositada no fundo da mochila, na parte inacessível dos bolsos, no forro de jaquetas abandonadas e por lá fique para sempre, exilada da missão que a natureza, portanto, o destino, lhe reservou. Se o viajante tem pressa, e está ali para bater recordes, ou simplesmente foge do iminente despencar do dia, se quer alcançar a cabana mais próxima antes que a coruja pie, então o tesouro será preservado.

Mas se quem estiver passando for mulher, tudo muda. A pedra é vista como a âncora de um amor que está por vir, o fetiche de uma declaração eterna, o início de um namoro, o presente que jamais se esquece. Mas há um problema: mulher não colhe a pedra, e sim a recebe de alguém que talvez ainda nem saiba que foi escolhido. É preciso então desafiar os planos e gerar uma artimanha. Torcer o pé para chamar o príncipe, envolto em brumas lá adiante. Mal sabe ele que já está sendo encaminhado para a gruta, o ninho, o momento fecundo. Por um milagre, ou talvez porque a mulher saiba gritar em direção do amado sem que ninguém mais escute, ele se precipita para ver o que é. A princesa finge a dor e dirige o olhar pânico para a água.

É quando ele vê, no fundo do rio, a pedra mais valiosa do que dobrões de ouro. Sem atinar direito, pega o que está sendo ofertado pela liquidez do entardecer. Pois agora ficou claro que pássaros, folhas, ciscos, pétalas estão carregando o espírito do rapaz para dentro do mistério. Ele acha que ninguém pensou antes no que surge em sua mente tomada por um breve susto. Assim como colhe a pedra, a estende em direção à moça, já refeita do tombo e pronta para receber a esperada aliança.

É assim que funciona esse expediente maroto que o amor prega nos garotos expostos à esperteza feminina. A pedra colhida no fim-de-semana, quando todos fingiam divertir-se, é o fundamento de uma relação que deve perdurar. Porque é impossível evitar. Assim como existe a certeza de que tudo passa e que o romantismo foi pura perda de tempo dos nossos ancestrais, há também o inevitável arranjo dos pares que jamais tomam caminhos opostos e se unem para uma vida a dois, contrariando os fuxicos, as tendências e até mesmo as celebrações de bodas intermináveis.

Mais do que uma festa ou um bolo de 50 andares, um para cada ano da relação, o que existe é a pequena cesta de vime em frente ao espelho do quarto. Lá, entre agulhas, lantejoulas, brocados, fotos, jaz a pedra lisa colhida um dia no fundo de um regato em flor. A mulher pega a prenda, aperta-a contra o coração e sorri. E lembra a cara de espanto do futuro marido, quando lhe alcançou a jóia. Era o rosto dos predestinados. Os que foram ungidos pelo privilégio de compartilhar o amor na longa trajetória sobre a terra. Ele sabe que participa de uma viagem sagrada, que nasceu num entardecer na serra. Foi quando o brilho da pedra única transformou o regato numa fonte de sentimentos que costuram uma civilização perdida.
Foot notes: Crônica publicada no dia 14 de setembro de 2008, na revista Donna DC, do Diário Catarinense.
 

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