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RECEITAS CONTRA O CORPO
Published: Sep 19, 2007 - 09:45 AM
Nei Duclós
Sobra programa e reportagens sobre
como devemos nos alimentar. Mudar de dieta é o maior crime que podemos
cometer contra nosso corpo. Se você sobreviveu tomando café com pão de
manhã, arroz/bife/feijão/salada ao meio dia e sopa à noite, não vá
querer virar zen-budista da alimentação ou macrobiótico, substituindo
proteína por acelga, carboidrato por alpiste, macarrão por gelatina. É
o politicamente correto do bucho. Estarás frito se fores nessa onda.
QUIABO
- A indústria alimentícia adora te assustar para que percas
completamente a noção do que precisas para continuar em pé. Te impõe
coisas sem saber onde o bicho pega na tua vida diária, no teu país ou
região. Nada sabe da tua biografia, das tuas doenças, de teus temores,
da tua memória. Mas a toda hora colocam um monte de elefantes na tua
cara e te dizem: se você não correr todos os dias, se você não subir
montanhas, se você não assumir teu lado jóóvem, se continuares sendo tu
mesmo, vais escapar das nossas garras, por isso te horrorizamos com
pessoas de avental dizendo sandices, com gordalhões andando
penosamente. Coma muita nectarina, nabo e quiabo. Devore hectolitros de
suco de pena de ganso. E minta, minta muito que você cuida de sua
alimentação, porque sabemos: queres mesmo é fazer aquela boquinha na
madruga. Contrarie para ver a gastrite que vai acontecer.
LATA
- Para te encher de culpa, os programas turísticos mostram como no
Exterior se come bem e como as pessoas lá são felizes. Aquele
pastelzinho português, aquele strudel alemão, aquela raviolada em
Nápoles. Aqui, é só tristeza: dê-lhe sanduíche e comida de brasileiro.
Pois cansei de tudo isso. Perdi a forma do meu corpo de tanta dieta que
fiz (300 gramas no almoço, farelo matinal, sopinha rala à noite). Foi
uma sanfona só. Acabei maior do que antes. Dez anos de insistência e
chega. Uma boa goiabada com queijo depois do feijão com lingüiça às
segundas-feiras, um cafezaço com queijo branco de manhã, um churrasco
de vez em quando, uma cuca caseira antes do anoitecer chuvoso. Agora
que está tudo perdido, tento voltar a mim mesmo.
Lá em casa, em Uruguaiana, o café da manhã era esplendoroso. Nada
tinha a ver com os breakfest de hotéis (que adoro) de hoje, mas era
aquele pãozinho honesto com leite idem e café quase forte. Ao meio dia,
o guisadinho com purê e sala de alface (para que mais?) e tomate. As
quatro da tarde, mais café, junto com a gurizada da vizinhança.
E à noite, qualquer coisa boa para a gente cruzar o que faltava da jornada. Sempre havia a hora do tô-com-fome,
em que batíamos a lata de pão aí pelas onze. Mas a lata fazia barulho e
bastava destampar a bicha para algum adulto acordar e dar o flagra. O
melhor era a bolacha Argentina, de massa branquíssima e que ficava
melhor a cada dia. Bolacha mesmo, daquelas batutas, com miolo
inesquecível. Aliás, os argentinos sempre foram bambas em comida.
Duraznos em calda La Dona, caramelos de leche, carne recém abatida,
tudo era festa com los hermanos. Vínhamos de Libres carregados.
FORTE
- Quando hoje comentam minha aparência (que é a maior grosseria que
pode ser feita para uma pessoa) , gosto de lembrar que, quando tinha aí
uns 70 quilos, ninguém elogiava, todo mundo dizia: que horror, estás
doente, não comes. Mas sempre tive, como dizia meu pai, ácido de
bateria no estômago. Nesta altura do campeonato, quase completando 57
anos, o tal ácido faz falta. Gostaria de digerir mais para enfrentar os
outros. Ei, como estás forte. É verdade, tão forte que te darei agora mesmo uma bolacha nessa cara lambida.
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a aparência é exercer a máxima: todo elogio traz embutido um esculacho.
Estás bem, dizem, estás bem. E te olham com pena. Bleargh. A aparência,
por não ser notada por quem aparece, deve ser de foro íntimo, e não
propriedade alheia. Olhe nos olhos. É lá que pessoa se encontra. Só que
vivemos na barbárie das superfícies e não na civilização dos mergulhos.

