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A ARTE DE SER APROVADO
Published: Jun 21, 2007 - 09:26 AM
Nei Duclós
Aprovar é fácil: é só deixar o sujeito ajoelhado no
milho, manter uma cara impassível enquanto lê a matéria, fazer gestos
de impaciência no uso compulsivo da caneta, dar mais atenção a qualquer
interferência, especialmente se for insignificante e, no final, soltar
um quase imperceptível ok. O díficil é ser aprovado, convencer o editor
que o texto que ele tem nas mãos é o menor dos seus pesadelos.
Ser aprovado é agir estrategicamente. Não basta escrever “bem”. Não
basta “gostar” de escrever (essas duas coisas brandidas como
definitivas para a escolha da profissão). Precisa ser uma espécie de
dramaturgo, incorporar linguagens alheias, acertar nos detalhes,
encarar cada frase como se fosse a mais importante de todas. Não passe
ao largo de uma oração, mesmo de uma palavra. Cada letra conta. Não se
concentre no que você tem a dizer, mas no que você está escrevendo de
fato.
Quem é mídia (meio) não “diz” nada, pelo menos não dá bandeira do
que está dizendo. Quem é mídia constrói arduamente sua ponte, coloca o
granito e o asfalto na sua estrada, abre túnel em montanha, leva saco
de sessenta quilos nas costas. Quem é mídia escuta, e escreve não
aquilo que escuta, mas o que produz de pensamento orientado pela
escolha das palavras.
Pode parecer esotérico, mas a advertência aqui é você não perder
tempo com a tralha da matéria, aquilo que deve ser jogado no lixo antes
que o editor o faça. Surpreenda-o colocando apenas o essencial. Um
truque é evitar coisas como “dão-conta-de-que”. Como tem gente
dando-conta-de-que ultimamente! Acho que nada no mundo dá-conta-de-que,
só nas construções medíocres dos textos dispensáveis e ilegíveis.
Notem
como nos títulos da imprensa todos “sinalizam”. Esse é o tipo de verbo
recorrente horrendo, porque serve para qualquer coisa. Um verbo
verdadeiro, que esteja à altura da sua matéria, é pepita rara que exige
garimpo. Exercite-se na busca da palavra certa. Mas não vá usar
“exatos” tantos-anos. É outra mania, essa de “exatos”. É como usar “a
rigor”: imediatamente, a matéria ficaria rigorosa, pois não? Para
escolher a palavra adequada (não a mais bonita, a mais estilosa, a mais
explícita do seu infindável e ainda não reconhecido talento), é preciso
raciocinar escrevendo.
Sabemos o que estamos pensando ou percebendo se conseguirmos
formatar o texto certo. O que você cria na linguagem é o que você
consegue produzir de pensamento. Se você entender realmente o que está
produzindo, o leitor irá também entender. Não transfira enigmas para o
leitor. Não diga: ah, isso todo mundo sabe. Todo mundo não existe.
Nem
o leitor, nem as palavras são seus escravos. As palavras não obedecem
ao que você previamente fica matutando. Você tem um insight, uma frase
forte de abertura na cabeça, ou o perfil do seu esqueleto imantado, a
prévia estruturação do texto vista através da névoa. Pois coloque no
papel, no micro, e deixe que essa idéia te leve no colo. Para isso,
precisa não só gostar de escrever ou escrever bem. Precisa ser soldado
na guerra, aquele recruta faminto e solitário depois do bombardeio, que
descobre uma batata num monturo e a devora antes que soe novamente a
metralha.
Se você for um desses, nenhum editor irá desprezá-lo. Quando você
chegar com o texto, ele vai suspirar de alívio. “Enfim”, pensará, “algo
publicável”. Mas não espere sorrisos dele. Um editor é, antes de tudo,
um general que viu sua tropa morrer em seus braços. Ele sempre espera o
pior.

