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LIVROS DE MEMÓRIAS
Published: Jun 29, 2007 - 10:50 AM
Nei Duclós
Tenho predileção pelos livros de memórias, sejam quais forem. Meu Érico Verissimo favorito é Solo de Clarineta, apesar de O Continente ocupar
o pódio das minhas leituras mais importantes. Mas meu favoritismo se
inclina menos para os grandes memorialistas. Gosto mesmo é de memórias
de pessoas que sumiram do mapa da memória coletiva, principalmente os
que enfrentaram alguma guerra. Sinto grande sensação de vitória quando
consigo um exemplar de um lutador muito oculto, tenha alcançado a fama
um dia ou não.
Gosto de lembrar o dia em que
minha professora Nanci Leonzo, da USP (e mais tarde, minha orientadora
do doutorado) lamentava que não existia mais em lugar nenhum as
memórias de João Alberto, o militar revolucionário dos anos 20 e mais
tarde interventor em São Paulo e ministro da Era Vargas. Como eu
freqüentava os sebos que existem perto das Arcadas, no centro de São
Paulo, garanti que eu possuía o tesouro. A professora Nanci é uma das
mais brilhantes e contundentes historiadoras do Brasil (seu livro,
jamais publicado devidamente, Forças Armadas no Brasil Colonial, é um
clássico). Vi como, com sua figura pequena e aparentemente frágil, ela
esmagou com argumentos os historiadores militares de um seminário, sem
confrontá-los, apenas exibindo a força do seu conhecimento. Pois bem:
ela fez pouco do que eu disse sobre João Alberto. Deves ter o livro do
João Neves da Fontoura, falou, certa de si. Esse eu também tenho,
repliquei. Então me mostre, disse, me desafiando.
SETEMBRINO
- Na aula seguinte levei um xerox vistoso daquelas andanças de João
Alberto, o cara que se despediu da esposa e do filho pequeno em
Alegrete, onde estava servindo, no ano de 1924, e foi fazer a revolução
fora da cidade. Era da Artilharia e apontou o canhão para a cidade,
tendo o cuidado para que as balas chegassem bem longe da família.
Guardei o xerox na pasta e mostrei o original para ela. Você tem mesmo
o livro! exclamou a professora. Você me empreste que eu vou xerocar.
Não precisa, já xeroquei, disse eu, enquanto pegava de volta o livro
precioso. Quanto custou? perguntou, objetiva. Nada, respondi, fazendo
pose de cdf. Esse é um presente para a senhora. É um dos meus orgulhos.
Depois
de anos procurando, li, a partir do xerox de um exemplar existente no
Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP (lá tem tudo!),
Memórias: apontamentos para a história do Brasil, do uruguaianense
Marechal Setembrino de Carvalho, o ministro da Guerra da República
Velha. Sua descrição da estratégia que usou no Contestado é uma aula de
História Militar. Gosto também de livros de viagem que são,
praticamente, memórias, como Viagem ao Rio Grande do Sul, do Conde
D'Eu, que fala detalhadamente sobre a paisagem uruguaianense antes da
rendição da cidade, na guerra do Paraguai. A viagem de navio pela Lagoa
dos Patos, depois a pé e a cavalo, os detalhes do percurso de Dom Pedro
II (que depois usei num poema), tudo é extremamente saboroso, pois o
município é visto ali de uma maneira única, e vale a pena ser lido
hoje, especialmente pelos conterrâneos. Li um livro de viagens de um
estrangeiro que visitou São Paulo, de onde tirei a informação que no
Jaraguá, nos arredores da cidade, foi descoberto ouro no Brasil pela
primeira vez. São informações que vemos ali, naquelas páginas antigas,
pela primeira vez.
REVOLUÇÃO - As memórias de
João Neves, que citei acima, é um esplendor: tudo sobre Porto Alegre no
inicio do século vinte e final do 19, quando se formou portentosa
geração de estadistas. As memórias do Almirante Custódio de Mello são
exemplares na descrição de fatos que eu nunca tinha entendido antes
direito. O que houve afinal na década de noventa do século 19, quando
irrompeu a guerra da degola? Custódio decifra o engima. Um pequeno
livro, que me custou uma nota, com fotos sobre a revolução de 1924,
escrita por um padre, é uma das minhas raridades. Sob a metralha,
narração tendenciosa sobre o mesmo evento, escrito por dois
jornalistas, também com fotos incríveis, é outro destaque. Um dia
ampliei essas fotos e fiz um seminário na Licenciatura da USP sobre
essa guerra. Ninguém sabia de nada. Todo mundo acha que no Brasil nada
acontece, é tudo arreglo. Houve guerra adoidado. E as memórias, tão
esquecidas, daqueles guerreiros, ainda pulsam, como um sol obscuro
irradiando um passado pouco compreendido.
LUSARDO
- Faltou dizer o mais importante. Em 1980, quando li primeiro volume de
Lusardo, o Último Caudilho, de Glauco Carneiro, é que comecei a ir
atrás das memórias. Foi fácil: rastreei a bibliografia do livro de
Glauco, a quem agradeci anos mais tarde pelas revelações contidas
naquela obra. Para mim, Lusardo inaugura minhas leituras sobre fatos
históricos. Descobri nesse livro o quanto eu nada sabia de Brasil.
Glauco dá uma bela aula sobre o país na primeira metade do século 20. É
claro que quando li Joseph Love em O Regionalismo Gaúcho, citado por
Glauco, entre outros livros, entendi melhor o processo revolucionário
que levou Vargas ao poder. Mas Lusardo é um livro fundamental, porque
descreve com minúcias, num texto maravilhoso, aquele tiroteio todo. Foi
muito criticado, claro. Bons escritores, que são grandes repórteres e
que se debruçam sobre vidas valorosas, acabam batendo de frente na
parede nua da indiferença e da idéia pronta. Mas existem nós, os
leitores, gratificados por trabalhos como esse, e é isso o que conta.

