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O LEITOR NEM IMAGINA
Published: Jun 06, 2005 - 09:47 PM
Nei Duclós
É costume abrir reportagens ou artigos
apostando na ignorância de quem lê ou na sua incapacidade de imaginar
qualquer coisa. Isso também se estende aos personagens da matéria. O
jornalista que comete essa gafe "não imagina" que informação não pode
servir de demonstração de força, nem que a articulação do pensamento
não pode ser vista como uma exclusividade de quem escreve, ou que o
leitor não merece ser tratado como um indigente mental.
FÓRMULAS –
Uma das construções escolhidas é "Fulano jamais poderia imaginar
que..." É uma conclusão vazia colocada no início de um texto
jornalístico, o que é uma contradição, pois como você pode concluir
antes de propor? Normalmente, o repórter não pergunta se o Fulano
imaginou ou não. Não se trata de um fato, mas de solução de linguagem,
de pseudo-criação. Outra coisa recorrente é o "leitor desavisado". Como
você pode garantir que o leitor não está prevenido? Acho que não
existem leitores desavisados, eles estão bem conscientes que estão
lendo a matéria, super atentos aos seus erros e normalmente informados
sobre o assunto. Pois informação não é mão única, é algo compartilhado.
Não existe, portanto, motivos para arvorar-se numa ascendência sem
base.
Mais uma: o repórter propõe uma pergunta que em tese
demandaria uma resposta óbvia. Então ele tasca: "Certo?" E depois surge
com sua magnífica intervenção: "Errado!". Com perdão da palavra, acho
esse tipo de coisa de uma babaquice total. Sempre me irrito com isso.
Por que não fala logo em vez de tentar criar suspense e demarcar bem o
território do gênio que escreve e o bobalhão que lê? Na televisão,
esses lugares comuns são um assombro de redundância. Sem falar no
dedinho apontado para o telespectador e o sarrinho implícito que há
quando se referem ao "sofá". Com o se o telespectador quisesse apenas
folgar, estivesse ali no sofá à mercê dos jornalistas que levam sua
comidinha informativa na boca. Quando falam em sofá, tenho urticária.
Depois da invenção do zap, as pessoas que aparecem na TV deveriam ter
mais compostura.
ESCUTAR - Fala-se muito que o jornalista
precisa escutar, que todo mundo precisa ouvir, mas não dizem como.
Escutar é uma atividade em desuso. As pessoas falam ao mesmo tempo e
estão sempre pensando no que vão dizer, por isso fecham-se em copas. O
que há são falsas expressões de atenção, enquanto o pensamento voa
longe. Numa sociedade de escravos como a nossa (em que todo mundo é
senhor) escutar é encarado como um ato passivo de servidão. O escravo
escutava o feitor de cabeça baixa e nem abria a boca. Para insurgir-se
contra essa herança até hoje vigente – o da servidão absoluta em plena
ditadura – as pessoas se revoltam abrindo o bico a toda hora. Escutar é
como escrever um texto, é compartilhar com o leitor, ou com quem fala,
de algo que é comum à humanidade. Para escutar é preciso limpar a mente
de todo pensamento, exercitar-se em entender o que o Outro está
dizendo, abrir-se com vontade, apostando que você vai aprender com ele,
ou também como uma forma de boa educação. Não se deve cair na armadilha
de ficar repetindo o que o outro diz simplesmente para esvaziar a frase
dele de qualquer poder, para checar se o interlocutor está dizendo
agora o que disse ontem ou há alguns minutos.
Escutar é um
exercício ético. É preciso, por isso, deixar de tentar completar as
frases do Outro, como se você fosse um serviço digital automático, como
se a pessoa que fala não tem mais nenhuma surpresa para você.
APROPRIAÇÃO DA FALA
- Muita gente só escuta se consegue apropriar-se da fala. Funciona
assim: um diz e o outro boceja. De repente, algo parece ser muito
interessante. Finge-se que não se está prestando atenção, mas daí a
pouco a pessoa vem e aplica exatamente o que foi dito. Como se o Outro
jamais tivesse dito nada. Se você reclamar, aí mesmo que não será
escutado. E se você espernear, fica com fama de reclamão. Isso acontece
todo o dia. Sinal de que vivemos no meio do desprezo à pessoa humana,
como acontece em todos os setores da atual ditadura civil em que nos
encontramos. O rapaz que foi assassinado depois de derrubar o radar,
diz uma testemunha, levou o tiro de alguém que nem mostrou
arrependimento. "Matou como se tivesse matado um passarinho" disse a
testemunha. Pois não escutar e apropriar-se da fala alheia é também um
crime contra as pessoas. Gente da elite intelectual faz parte da
ditadura quando se apropria da fala dos outros. São os mesmos que
desmoralizaram o termo Direitos Humanos no Brasil, deixando que a
direita tome conta desse assunto
Comments
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Anonymous
Jan 27, 2006 |
Re: O LEITOR NEM IMAGINA
ainda bem q eu sou surdo e vivo tambem com um zumbido no ouvido esquerdo. numa sociedade capitalista como a nossa onde todo mundo fala e ninguem quer escutar o importante escrever para que o surdo e o mudo possa entender! abraos fred. |

