Welcome Anonymous User  

News

Front Page | Archive ]

O pesadelo da linguagem

Published: May 13, 2005 - 11:02 AM

A praga das consultorias abateu-se sobre a comunicação para fazer o serviço: reacomodar o poder, selecionando os quadros que mais atendam às necessidades da nova censura, a que se pauta pelos negócios que mandam nas empresas jornalísticas. A metodologia escolhida foi por meio da arma mais poderosa, a linguagem. Quem sabe escrever foi substituído pelos que não sabem. O primeiro sintoma do mal que se aproximava foi a proliferação dos lugares comuns, que impuseram-se em todos os veículos, a saber:
- na verdade, a rigor, de todo modo, a nível de, por outro lado, resta saber e afinal: bengalas pôdres do texto mal estruturado, ou seja, o que serve aos propósitos de um jornalismo feito por escravos, que não pode ousar, nem incomodar, a não ser como contrafação – basta notar o denuncismo como substituto do jornalismo sério e conseqüente, e a putaria explícita como alternativa à legítima libertação sexual;
- confira, veja, venha, olhe: imperativos que tentam levar o leitor/espectador para a ausência de conteúdo;, e assim ficar à mercê das “novidades”, ou seja, as mercadorias, conforme conceituação de Guy Debord em “A Sociedade do Espetáculo”;
- não é para menos, afinal, só para ter uma idéia, não pensou duas vezes: impedimentos pseudo-filosóficos que convidam o público a não pensar e ao mesmo tempo servem como muleta para uma comunicação comprometida, mas que precisa mostrar-se racional e correta.

Esses pesadelos da linguagem, gerados nas redações, nem chegam aos pés do que aprontaram as consultorias, que serviram-se de instrumentos de burrificação poderosos, como a praga do gerundismo acompanhada dos neologismos roubados da tecnologia da informação. A síntese desse jargão asqueroso é a expressão “vamos estar estartando”, que revela a força do analfabetismo a serviço da limpeza do talento e da ética dos quadros da comunicação.

O resultado é que sobra talento e experiência fora das redações e dentro delas acumula-se o ranço da comunicação mal resolvida, o que se reflete nas vendas e portanto nos negócios. A anti-ética dá prejuízo e ajuda a sucatear os veículos – que agora ficam à mercê dos aventureiros. O grupo de jornalistas que continuaram no comando nesta época tenebrosa para o jornalismo brasileiro, e que fizeram o jogo das consultorias e portanto dos equívocos do poder, serviu para colocar na rua gerações sucessivas de profissionais preparados.

O que falta é a percepção para a hecatombe em plena atividade e a coragem de mudar completamente o foco das atividades jornalísticas – que devem resgatar seu papel de utilidade pública, norteada pela ética. A mesmice do noticiário é fruto da incompetência que restou nas redações, onde a mediocridade manda e o talento obedece para não perder o emprego.

O furo principal desse mal estar geral é a pauta rotativa, a cargo da covardia alimentada pela má fé. As mesmas matérias exaustivamente repetidas, e as mesmas abordagens de temas recorrentes provocam um grande bocejo no leitor e reaproximam perigosamente a sociedade para a ameaça de mais uma época ditatorial.
Foot notes: Reda��o sem m�scara - textos de mem�ria sobre jornalismo
 

Comments

Add a new Comment





Novo Livro

  • O Refúgio do Príncipe (2006)
    O Refúgio do Príncipe
mais...

Outros Artigos

Sunday, November 16
Sunday, November 10
Sunday, November 04
Sunday, November 28
Sunday, November 22
Sunday, November 15