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Quem tem área é futebol

Published: May 13, 2005 - 11:00 AM

Nei Ducós

O jornalista que cobre economia tem pinta de Ministro da Fazenda; quem cuida da política parece um senador; o repórter de polícia tem a cara de quem dá plantão na delegacia - com exceção do Caco Barcelos, que tem aparência de filho de milionário fazendo inventário de terremoto; os jornalistas culturais - ou de variedades - são todos artistas. Assim fica difícil encontrar alguém que assuma ser apenas jornalista.

O jornalista é um outsider entre os profissionais, é uma figura maldita porque trabalha em território minado. Pois, toda profissão é o exercício legal de uma linguagem cifrada. Quem não domina uma linguagem corporativa, quem não exerce um jargão - como na advocacia, engenharia ou medicina, por exemplo - é visto como alguém que não tem competência profissional. É por isso que o jornalista acabou criando uma linguagem própria, para igualar-se em importância aos outros e, não satisfeito, acabou assumindo as linguagens de cada "área" do noticiário.

A clássica divisão de editorias entre política, economia, polícia, esportes, variedades - que, com nomes diferentes, continuam vigorando na imprensa - criou uma especialização prejudicial porque confunde a verdadeira função do jornalista.

O jornalista não é aquele que sabe, é o que procura saber. Quem sabe é a fonte. O jornalista precisa fazer a fonte decodificar a linguagem cifrada e veicular a informação com eficácia. Não está a cargo, portanto, do jornalista, vulgarizar a linguagem, torná-la acessível artificialmente. Ele precisa arrancar da fonte a chave do enigma.

Para isso precisa perguntar. E para perguntar, precisa assumir que não sabe. Cansamos de ver repórteres de televisão fazer a pergunta - normalmente, sempre as mesmas - e, na hora de passar a palavra para o entrevistado, sacode a cabeça afirmativamente. Ou seja, o jornalista já sabe tudo com antecedência, ele está ali pró-forma, só para confirmar o que já sabe - pois ele acha que deve fazer pose de que tudo sabe, para não passar por incompetente.

Mal sabe ele que essa é a sua principal incompetência.

A pauta fechada é um dos muitos vícios da imprensa nacional. O repórter já vai orientado sobre o que vai encontrar na rua e deve trazer para a redação as declarações e informações previamente determinadas pela editoria. Não há curiosidade porque não há humildade, e como não há mais humildade não há informação. O que vemos e lemos é redundância, porque descuidou-se da linguagem.

A imprensa abandonou o texto também por motivos de vaidade. Padronizou-se o texto jornalístico para quer todos escrevam igual, da mesma forma - e assim, sem concorrência, abram espaço para os medíocres, os destaques das edições, os cronistas, articulistas, editores e donos do jornal possam brilhar com suas informações de cocheira, seu brilho falsamente intelectual.

Ou seja, seus textos medíocres.

Redação bem feita é, portanto, revolução.
 

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