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SINISTRUS JOE NO DIÁRIO DA FONTE
Published: Oct 26, 2007 - 04:57 PM
Nei Duclós
ENTREVISTA COM SINISTRUS JOE
Quando todos se mandaram do sonho de viver na praia, aí pela grande
crise do Plano Cruzado, ele permaneceu. Foi se afastando de todos os
expedientes e hoje vive só, numa casa de pau-a-pique, ao lado de
gigantesco menir arqueológico, na ponta de uma praia oculta. É direto e
definitivo sobre todos os assuntos. Usa longo cabelo crespo branco
revolto e vive de pequenos peixes que lhe atiram. Tem o olhar azul
furibundo. De perto parece assustador. Mais de perto, sai da frente.
Olha agora as pessoas que, cansadas das megalópoles, voltam a sonhar à
beira do mar, e sacode a cabeça. Fui entrevistá-lo. De longe, aos
berros. As respostas serviram para me deixar desconfiado: estaria ele
me tirando um sarro?
P - Ei, Sinistrus, quando é que você vai voltar para a civilização?
R - Tomorrow after rain, responde, recompondo em inglês fajuto o clássico "amanhã depois da chuva".
P - Como você consegue sobreviver nesta ilha?
R - Killing dog screaming (matando cachorro a grito), continua o ermitão.
P - Você torce para qual time?
R - O da véia, sempre torço para o time da véia.
Ele estava mesmo me gozando. Mas não desisti. Subi mais alguns
lances da pedra para vê-lo melhor. Usava roupa de papel crepom
desbotado e segurava um cajado de osso. De baleia, possivelmente.
P - Você já viu uma baleia?
R - A toda hora. Elas engordam na civilização e chegam aqui para
suar um pouco. Sempre penso que é para perder peso, mas é só para abrir
o apetite.
P - Falo das baleias mesmo, as do mar.
Não me respondeu. Parece que gritava, não dava para ver. Um eco me trazia um
-...a senhora sua mãe...
mas não deu para saber se era dele mesmo.
P - Sinistrus (eu não desistia), você acha que o Brasil tem jeito?
R - Claro que tem. O Brasil sempre fica no jeito. Primeiro foram os
espanhóis, depois os franceses, mais tarde os ingleses, depois os
americanos, agora os chineses, os ucranianos, os trogloditas e os
saramagos. O Brasil sempre dá um jeitinho de ficar no jeito. É o único
país do mundo que, onde estiver, sacode as tetas.
P - Você é nacionalista, Sinistrus?
R - Nada. Sou de antes da nação. Sou do Brasil antes do Brasil. Nasci para enfiar esse cajado na costa brasileira.
E sacudiu o osso gritando para as nuvens.
Sinistrus Joe estava mesmo em forma. Quem mandou entrevistá-lo?
BACIA - Os barcos ficam lado a lado na pequena bacia. O mar deveria
ser calmo aqui, mas ronca. São pequenas ondas que lambem a costa.
Estariam sendo geradas por algum pesqueiro no horizonte? Não há
pesqueiros hoje em toda a ilha. Estão recolhidos. Os pescadores se
reúnem nos bares que só funcionam na temporada e exibem esqueletos do
que foram ou serão (coisas cheias de gente bêbada). Os pescadores estão
sóbrios. Parecem sérios, mas gritam quando você passa. Estão, claro,
tirando uma de turistas de inverno. Um deita atirado na areia e te olha
de soslaio. Massas de terra ao longe fundem-se com a maresia, que aqui
possui carne grossa. Serão ilhas? Será o continente? Não sabemos. Não
temos rosa dos ventos. Somos náufragos desse pedaço do planeta terra,
escolhendo pequenas conchas, pequenas pedras. Todas as casas estão
vazias. O sol a pino diz que é verão no corpo. Basta bater no morro aí
pelas quatro da tarde, o gelo começa a descer. O sul me ensina a
solidão do inverno. Debaixo de placas proibitivas, o dono solta seus
três cachorrões. Eles descobrem a felicidade. Chama-se liberdade, fica
na areia e na beira da água. É assim o planeta onde vivemos. Alguém
deve ter puxado a descarga para que pouca gente o veja assim. Em cima
de um morrete, colocaram algumas estacas e sobre elas um estrado.
Alguém do povo brasileiro dorme sobre esse estrado. Viajo no tempo e
aguardo. Sonho com algumas providências. O corpo pede ação. Os pulmões
se recuperam. A lua nova virou mocinha. Está enfeitada, brilhante, à
espera do tempo novo que chega. Lua nova não é só promessa, é feitio de
oração. Desce, Mãe de Deus, teu manto sobre nossas vidas e nos proteja.
Queremos aquele Brasil, o que nossos pais e avós construíram, e nos
legaram. Ele continua aqui, mas precisamos saber viver nele de novo.
Mutuca, Zé Gomes, toquem aquelas velhas e inéditas canções. Irei até os
anéis de Saturno, para encontrar objetos perdidos...O vento é uma pedra
polar...
10 de Julho de 2004
Diário da Fonte
UM PASSEIO EM PARATY
Nosso correspondente em Paraty, surpreendentemente, é Sinistrus Joe,
aquele que, quando todos se mandaram , aí pela grande crise do Plano
Cruzado, permaneceu na ponta de uma praia oculta aqui de Floripa. Como
vive só, numa casa de pau-a-pique, ao lado de gigantesco menir
arqueológico, achava que jamais se daria o trabalho de viajar. Pois ele
foi para a Flip e já voltou. Fez tudo de avião. Ganhou a mesada de um
milionário, ex-companheiro de viagens dos anos 60, que é herdeiro de
fortuna, um espólio meio escandaloso de indústrias sucateadas. O longo
cabelo crespo branco revolto de Sinistrus Joe realçava seu olhar de um
azul furibundo. Fiz nova entrevista. Desta vez, ele estava mais
acostumado comigo.
TITÃS ? Perguntei pelo encontro literário internacional e Sinistrus Joe, direto como sempre, interrompeu-me pelo meio da frase:
- Tem sempre um Titã no meio!
É verdade. Se é festival de música, lá estão eles. Se é matéria
sobre filhos recém nascidos, manda-lhe um Titã. Se é livro, de novo
eles. Parecem até aquele magrinho de Porto, que foi comprar um
cachorro-quente. O hot-dog portoalegrense é pioneiro nessa história de
colocar um monte de coisa junto com a salsicha, desde salsinha, queijo
e até milho. Vai milho? perguntou o cachorreiro. Sóóó, respondeu o
magrinho, completamente pronto naquela hora do dia. Aí o ambulante fez
de propósito: colocou só milho. Pois é assim que parece a Sinistrus
Joe: onde acontecer qualquer coisa, só tem Titã. Aliás, eles estavam na
festa gigantesca da Tim esses dias.
- Mas Arnaldo Antunes é um bom poeta, argumento.
- Sol a sós é dose, grunhiu o ermitão.
Ele se referia a um verso do badalado Titã.
- Os não-livros não se satisfazem em ser o que são, disse. Agora
estão diminuindo de tamanho. Dizem que ninguém lê. Claro, não-leitores
não lêem, só os leitores mesmo. Daqui a pouco todos vão se abaixar bem
para ver o que está escrito naqueles minúsculos produtos de
entretenimento e vão acabar achando só aquela síntese total da língua
portuguesa.
- Qual é, Sinistrus?
Como é um cara antigo, ele sussurrou o palavrão de duas letras no meu ouvido.
- ??? pasmei
- Sim, sim. Os livros de verdade ficam para os estrangeiros. Os de
fora fazem livros grossos, até mesmo livros grossos infantis, como os
do Harry Potter. Mas não cai a ficha dos caras.
LIVRISMO - Lembrei então do livrismo:
- Tinha muita criança lá, Sinistrus?
- Muita, muita. E não tinha o Mauricio de Souza, mas o Jaguar. Todos
livristas. E mais o Cae, que publicou aquele Noites Tropicais, por isso
também é autor.
- Mas Caetano é gênio, Joe. Por que a implicância?
Ele então me segredou que foi lá levar seu romance inédito para ver
se encontrava editor. Mas o confundiram com um catador de papel, e lhe
deram umas esmolas. Ele mostrava as resmas de folhas escritas em papel
de almaço, jurando que era um romance inédito, mas ninguém deu bola.
Perguntei do que se tratava o livro.
- Sobre os gigantes, respondeu. Os gigantes que me aparecem ao vivo
e às vezes em sonho. Eles existem, estão aí, são criaturas-montanhas.
E me olhou, furibundo. Perguntei se tinha dormido ao relento e ele
me respondeu que ficou na pensão do Paulinho. Gostava do Paulinho, que
contava as histórias mais mal-assombradas sobre as cercanias de Paraty,
de estradas coloniais misteriosas, vários tipos desconhecidos de onça.
Isso assustava os turistas, que preferiam ir dormir na praça a ter que
aturar as conversas. Sinistrus escutava Paulinho até o amanhecer.
- Viste algum gigante por lá? perguntei, meio distraído.
Ele ficou furioso. Adiantou-se alguns passos (estávamos na beira da
praia, gelada neste início de inverno) e olhou para os fios, os postes
de luz. Apontou-me um urubu pousado em
cima de uma luminária, uma coruja sobre o mourão de uma cerca.
- Acredita no urubu? Na coruja? Então tem que acreditar nos gigantes.
E foi-se, chutando conchas. Cantava baixinho algo de João Gilberto. Joe adora João. Gritou lá da frente:
- João Gilberto não é babaca. Nunca tirou o terno, nunca foi a uma
festa de livros, nunca deixou de ser o que é. Tá todo mundo fantasiado.
Querem ser tudo. Onde estão os autores? Perdidos, vendo a vida passar
totalmente inédita!
Batia na sacolona que trazia a tiracolo, onde guardava, acredito, seu romance inédito.
- Ninguém quer saber, querem só badalar, fazer pose. Quem vai lá
também fica fazendo pose. Conheço montes de romances inéditos. Para
onde vão? Para o bucho das traças. Sol a sós um bom cacete. O sol bebe
cerveja comigo ao anoitecer.
CRISTINO - Figura esse Sinistrus Joe. Ninguém dá bola para ele.
Quando o revelei, aqui no DF, não houve um comentário sequer. É a
maldição dessa geração. Ser esquecida em vida. Ser enterrada cheia de
coisas para dizer. Vendo todos se locupletarem na festa sem fim. Dei de
ombros e fui para a casa. Que me importa tudo isso. Vou para baixo das
cobertas. Os barzinhos de Paraty, diz a TV, estão lotados. Deve estar
bom lá. Caco Belmonte foi, Tony Monti foi. Estão se divertindo. Quem
sabe cravam um editor bom de bola e explodem na praça.
No meio da noite, ouço passos pesados. E uma voz que espicha as vogais, gutural:
- Os gigantes, escuto Sinistrus Joe dizer. Os gigantes estão bem perto de ti, cara. Os gigantes...
Será que o Paulinho, dono da melhor pensão de Paraty, viu algum
deles? Me deu saudade daquela cidade. Tive que sair da velha Paraty
para encontrar um chinelo forte, que aguentasse as pedras do século 18.
Fora daquela maravilha arquitetônica, as calçadas e ruas são como
qualquer outra cidade brasileira. Caminhões estacionam, ambulantes
deslizam. E no pobre riozinho, aquela chata que fica tirando lama do
fundo e que é sustentada por dinheiro japonês, faz barulho. Já tinha
visto uma chata dessas no Tietê, por longos anos. Tiravam barro do
fundo, financiada a fundo perdido. Será que é a mesma chata?
- Os gigantes, cara, eles estão aqui. Tenho medo, Cristino. Tenho medo da dor e da morte...
Deus do céu. Sempre que escuto algum sussurro, me vem o cangaceiro de duas cabeças do inesquecível Othon/Glauber.
27 de Dezembro de 2004
Diário da Fonte
O BATICUM BERRADO DOS PREDADORES
Sinistrus Joe, o ermitão que vive na ponta de uma praia isolada, ao
lado de um grande menir, me concedeu nova entrevista exclusiva e falou
sobre o hábito que existe hoje de as pessoas imporem seus auto-falantes
para o ouvido alheio. O que é isso? perguntei, assustado com a
disseminação de uma doença social, pois o que se coloca no mais alto
volume, além de ser uma estupidez, um atentando contra os outros, é o
ruído insuportável de quem nada sabe sobre harmonia, melodia, arranjos,
essas coisas mortas. O berreiro infernal e a bateção de lata toma conta
de todo o país e Sinistrus Joe pensa um pouco antes de falar. Coça o
cabelo grisalho comprido, enruga ainda mais o rosto já enrugado e solta
um guincho que me assusta. O susto que deu com sua imitação de gaivota
era sua resposta: É o bote animal dos predadores, diz esse exemplar
perdido dos sonhos dos anos 70. Eles berram no teu ouvido, te
ensurdecem para poder te matar sem resistência. O que devemos fazer?
torno a perguntar.
GOLPE - Tem gente que chama a polícia, mas a praga está muito
hegemônica, continuei falando. Todo supermercadinho resolve colocar um
som altíssimo para te anunciar, domingo às sete da manhã por exemplo,
as suas grandes atrações e descontos. Vejo pessoas puxando uma caixa de
som como se fosse mala de aeroporto, com rodinhas, e de lá sai o
barulhão que provoca surdez. Está tudo dominado, e gostaria de saber
como sair dessa. Sinistrus foi rápido na resposta: Proclame-se
presidente da república e reprima violentamente toda e qualquer
manifestação que ultrapasse um nível bem baixo de decibéis, me diz.
Reagi imediatamente: Golpe de estado? Não é o meu forte. Não tem saída,
diz Sinistrus. Se o banana do presidente da República recebe em palácio
essas duas bestas ambulantes que são o Zezé di Camargo e o Luciano, ou
faz salamaleques para o Chitazó e Chororinho, se tem gente ganhando
dinheiro pesado com o som horrível de shows indecentes e ilegais, então
só um bom golpe de estado, diz Sinistrus, na maior calma. Fico olhando
para o cara. Me parecia um sujeito decente, apesar da aparência. Achei
que era democrata, mas tinha me enganado: Sinistrus, dar um golpe de
estado só para evitar a violência do volume alto, só porque não tem
ninguém que possa ficar numa praia ou num camping em paz sem ser
atormentado por um desses carros envenenados com mil auto-falantes em
série reproduzindo baticuns sem parar e berreiro pseudo sertanejo? Eles
querem te mataaar, responde Sinistrus, espichando as sílabas e fazendo
voz gutural. Te matar, entende? Estão te tonteando, te tirando a paz
porque querem te fazer, te cortar o bucho, te estaquear no sol, e se
pedires água eles te darão salmoura, entende? Só bala com essa canalha!
CANHÃO - Pensei que eras um democrata, disse eu, meio ressabiado.
Ele olhou para o horizonte do mar. O problema, seu poeta, me disse com
uma ponta de cinismo, é que eles usaram a palavra democracia para impor
a ditadura. Existe liberdade? Então tome vagabunda rebolando a perereca
em direção à garrafinha em horário infantil. Tem democracia? Então tome
som bem alto de madrugada para acabar contigo. Porque rebolar o bucetão
fazendo violentos movimentos pélvicos em direção a um grande pau
imaginário e sacudir os glúteos e o rabo sem parar em programa para
criança é um crime hediondo que merece fuzilamento. Hoje, não provoca
nenhuma reação. Ninguém tem coragem de reclamar. Se alguém se dispuser
a ir até o vizinho falar que o som está insuportável e não deixa
ninguém conversar, dormir, existir, o animal vai rir da tua cara. Então
a saída é uma só: começar a dar tiro nesses filhos da puta. É a guerra,
meu amigo. Eles não vão parar senão a tiro. Eu estaria disposto a
ganhar um rifle de Natal e sair atirando nesses pulhas. Aviso já que
aquele baleião da TV Band, que não dá folga um segundo e toma conta de
todos os espaços com sua graxa sinistra, vai ser o primeiro. Aquele
paquerador de putinhas do subúrbio, aquele descontrole desumano, aquela
bisca, aquele idiota que faz cara séria ao perguntar ao animalão
Alexandre Frota se realmente comeu determinada atriz. Esses filhos da
puta precisam levar um canhão no meio dos cornos, é o que estou te
falando.
BIROSCA - Muita violência, disse eu, reagindo à explosão de fúria de
Sinistrus Joe. Nem sabia que ele via televisão. Via. Fugia às vezes
para uma birosca à beira mar, onde aturava o som alto para olhar um
pouco de TV, só para matar o tempo. Mas voltava correndo para sua
cabana. Lá ficava remoendo idéias da revolução. Foi sempre assim o
velho Sinistrus. Ele nunca desistiu de uma boa guerrinha.
A BOBAGEM SEGUNDO SINISTRUS JOE
O velho ermitão Sinistrus Joe não agüentou sua turnê pelo Brasil e
voltou a morar na praia, numa tosca cabana, ao lado de um gigantesco
menir, daqueles idênticos aos carregados pelo Obelix. Já está na ativa,
rolando pelas ruas e atacando as caixas de lixo que contêm
preciosidades como deliciosas sobras de refrigerante ou suco.
Encontrei-o no seu canto favorito, em frente a um conjunto comercial e
resolvi entrevistá-lo de novo.
- E aí, Joe, o que está pegando no país?
- O maior sucesso é a Daspu, diz, enquanto faz slurp numa das latas recolhidas na última meia hora.
- Por que será que todo mundo fala dessa griffe das prostitutas?
- Não sei, mas acho que o motivo é que todos decidiram gostar de uma
grande bobagem. Pois o que vale não são os direitos das putas, mas o
trocadilho. Desde a época do Pasquim que o trocadilho está erradicado
do humor nacional, não pode mais, ou não podia. Daspu é uma
libertação...
- ...dos costumes? pergunto, sério.
Joe não tem paciência com ninguém, muito menos comigo, que costumo atazaná-lo com perguntas.
- Não, a libertação da bobagem, acabo de dizer, não escutou? A bobagem é realmente libertadora. Slurp.
Olhei para ele. Esta sorvendo sofregamente, num calor ardido,
véspera de chuva, um resto de coca light, que deve ser o pior purgante
do mundo.
- Coca light está na moda, o Lula emagreceu dez quilos só nisso,
slurp, disse Joe, adivinhando meus pensamentos (eu fazia uma cara bem
explícita do meu desagrado).
- Daspu vale então porque é um trocadilho com a Daslu? Não seria
apenas ressentimento contra o desperdício e a ostentação dos
milionários?
- Nada disso. É só pela bobagem.
- Mas este país só tem bobagem, Joe. Acho tua explicação precária.
- É que você perdeu a capacidade de pensar. O que mais o Brasil
sente falta hoje é de bobagem. O que tem é corrupção, sacanagem,
violência, esperteza, mentiras, miséria. Falta o quê?
- Didi, Mocó e Zacarias?
- Não, esses já são o sintoma da decadência. Falta aquela força que
fazia uma anedota ser conhecida em todo o Brasil em poucos dias, sem
nunca ter sido dita na rádio ou no teatro. Falta esse rio (e quando
dizia rio, Joe jogava o braço estendido com a mão espalmada) que te
dava segurança de que estávamos no país certo.
- Mas Daspu é um trocadilho infame.
- Todo trocadilho é infame. Mas não defendo o trocadilho, vê se me
escuta. Defendo essa permeabilidade (quando dizia essa palavra difícil,
o mendigo ermitão torcia todos os dedos ao mesmo tempo), que nos
identificava como nação.
- Você é saudosista, Jose?
- Não, bobalhão. Não sou saudosista. Daspu foi criado no século passado?
- Não.
- Foi uma piada do Oscarito?
- Não.
- Saiu no Reco-Reco, Bolão e Azeitona? Então não sou saudosista. Por
mim, acho prostituição um crime. Falta de sexo é pura repressão. Eles
reprimem o sexo para poder vendê-lo. Ou facilitam até o osso para ter
todo mundo na mão. Mas que Daspu é engraçado, é. Até já bolei...
- O que tem de engraçado...
- Não interrompa minha frase no meio, mas que mania!
Deu um berro na palavra mania e me assustei. Quis ir embora, mas ele
ficou me olhando daquele jeito. Jamais me perdoaria se eu o deixasse no
meio de uma frase.
- O que você bolou, Joe?
Sinistrus aos poucos voltou a si. Talvez tivesse imaginado reagir de
alguma forma, mas jamais soube de nada violento dele, e isso que o
conheço há décadas.
- Bolei um canal pago de TV exclusivo sobre e para prostitutas.
- Qual seria o nome do canal?
- Não interessa...ou melhor, não pensei. Bolei apenas a grade de programas.
- E quais seriam?
- Programa de auditório com gincana entre as garotas, Disputa;
programa de debate político, Deputando; programa de informática, Input;
programa de depoimentos das presidiárias que faziam a vida, Carandipu;
moda gay, Dascu; programa policial, Kaput; infantil, Histórias da Tia
Putinha; teen, Putz...
- Ninguém usa mais Putz, interrompi.
Sinistrus Joe desta vez nem me olhou. Desistiu. Juntou seus
cacarecos e se foi, meio curvado, a barba muito branca, ele todo muito
magro. De vez em quando parava e se sacudia todo. Estava rindo. Teria
encontrado o nome do canal? Ou o do programa de receitas?
2 de Agosto de 2005
Diário da Fonte
A DESPEDIDA DE SINISTRUS JOE
Depois de dormir em frente à caixa rápida, esperando o pagamento de
um conto que vendeu para uma revista espanhola, Sinistrus Joe achou a
grana tão boa que decidiu ir embora de Florianópolis. Por isso me
convidou para uma visita ao seu refúgio, que fica ao lado de um grande
menir numa das inúmeras praias da ilha. Fui vê-lo porque o veranico
deste inverno nos permite chegar perto das ondas . E também porque essa
era a grande oportunidade de fazer perguntas definitivas sobre uma
personalidade que rolou vestido de roupa preta apertada, um lenço na
cabeça e uma mochila velha, ciscando latas usadas de refrigerante para
sorver o resto do caldo que se acumulava em lixeiras do centro da
cidade. Encontrei-o com os olhos rútilos, que focava um granito à sua
frente. Aproveitei para perguntar:
- Sinistrus, por que você vai embora?
- Porque esta é uma ilha hostil.
- Mas ela tem fama de cordial.
- É para atrair turistas. Fique depois do feriadão para ver.
- Não está exagerando? Você mesmo ficou aqui por décadas.
-As pessoas ficam aqui porque não conseguem sair. O dinheiro não
circula e todo mundo fica confinado, sem poder comprar a passagem.
- Mas não pára de chegar gente. Todos querem viver em Floripa.
- Boa sorte para todos. Verão que o mau humor, quando quer ser
engraçado, torna-se deboche. O cinismo é a alegria da crueldade. E se a
esperteza é a inteligência dos burros, como já disseram, a burrice é a
ética dos inteligentes. Estou burro. Vou-me embora.
- Vais deixar de morar na praia?
- O mar, no Brasil, é uma ilusão. É só chegar na beira do mar para
ficar completamente duro. E ainda tem que agüentar os canalhas que
passam o ano poluindo e chegam aqui carregados de dinheiro. Não sei de
onde tiram tanta grana. Todo mundo abre a carteira e saltam notas de
dez e cinqüenta. Só eu conto moedas, e quando encontro nem dá para um
pãozinho.
Sinistrus me enxergou finalmente. Tinha detectado um sorrisinho na minha maneira disfarçada de escutá-lo falar sobre pobreza.
- Isso o que você está fazendo é o que mais me irrita nesta ilha.
- Isso o quê?
- Não se faça de inocente. Foi só falar de dureza que você já me
enxerga como um morto de fome, um perdedor. Não gosto que me enquadrem.
E aproximando o rosto bem perto do meu:
- Você se sente superior, senhor jornalista? Porque tem um salarinho acha que pode me esnobar?
- Longe de mim. Tenho a maior consideração por você.
Conversa, disse ele. E virou o corpo todo para o horizonte. Tentei dar uma relaxada na conversa:
- Este ano não teve tainha.
- Nem vai ter mais. Essas pessoas estão abaixo do caipira. Caipira
ainda tem cultura. Eles estão na fase vegetal do pensamento. Se pegam
tainhas ovadas todos os anos, às toneladas, há centenas de anos, como
podem querer que elas se reproduzam? No fundo, a pesca de tainha aqui é
um crime ecológico. Os peixes sobem para desovar mais para o norte e
são interceptadas aqui. Cada ano ficaram em menor número e os
pescadores foram se acostumando. Agora elas escassearam. Puseram culpa
no clima, mas este fez uma friaca braba, como nos outros. O problema é
que o inverno não deixa resíduos.
- Como assim?
- O frio não faz parte da civilização portuguesa. Não vê o Glauber?
Morreu de septecemia em Cintra, no alto da serra em Portugal, terra
fria pra dedéu, onde não existe uma lareira. Aqui morre-se de frio, mas
basta a temperatura subir para todo mundo dizer que não houve inverno.
Conheci um potiguar que ficava em mangas de camisa no inverno. Ele
dizia: Mas eu não sinto frio! Depois descobri que ele queria dizer
exatamente isto: Eu não sinto frio porque sou macho! Sentir frio é para
criançcas, mulheres e gente velha. Valha-me Deus.
-Você vai para onde, Joe?
- Não sei ainda. Primeiro vou dar um pulo em Sampa, comprar uns
livros antigos de literatura da Civilização Brasileira nos sebos que
tem lá. Vendem a três centavos a página. Aqui, ninguém lê. Quando
alguém no ônibus senta ao meu lado com um livro, é sempre o Paulo
Coelho.
- O que você tem contra o Paulo Coelho?
- Ele foi a Seleções do pensamento esotérico. Ninguém lia nada dos
grandes autores, como Gurdjieff, Castaneda, Madame Blavatski,
Krishnamurti. Então ele apareceu com sua auto-ajuda colocando à
disposição do grande público algumas sacadas.
- Ué, mas Castaneda é best-seller.
- As pessoas leram um outro livro dele, não a obra toda, que é em
espiral. A leitura deve ser completa para a gente entender do que se
trata. Paulo Coelho leu, mas diluiu. Agora é romancista. Não gosto.
- Implicância sua, Sinistrus,. Não será um pouco de inveja?
- Não sinto inveja, meu caro escritor. Sinto fome.
- É o que estou dizendo.
- Você não entendeu. Sinto fome de cultura. Sinto fome de paisagem.
Por isso vim para cá. Pela paisagem. Os catarinenses acham que é pelos
seus belos olhos azuis. Estou me lixando. Sempre quis a montanha, o
céu, a lua e as águas.
-E agora ficarás longe disso.
Sinistrus me abraçou. Estava chorando.
- Vou-me embora, cara. Essa ilha nunca me quis.
- Você vai voltar. Sei que um dia vai voltar.
Saí dali porque caía a tarde e o frio tinha começado de novo. Não
olhei para trás. Sinistrus Joe assobiava Sabiá, de Tom Jobim e Chico
Buarque. Bem na batida de João. O cara adora João Gilberto.
23 de Junho de 2006
Diário da Fonte
SINISTRUS JOE E AS SURPRESAS DE PARREIRA
Não gosto de estatísticas, elas me assustam. Dizem que são criados
uns 70 mil blogs por dia ou por mês, ou algo assim. Que existem não sei
quantos milhões de sites, que a miséria aumenta apesar de os 50 países
mais pobres terem melhorado de vida e que as pesquisas apontam a
vitória do primeiro turno, bem, vocês sabem de quem. Os números nos
cercam e mordem os calcanhares. Como acompanhar a proliferação dos
conteúdos disponíveis na grande rede? Muito difícil. Mas tudo que
assusta não passa de um tigre de papel, para usar a velha metáfora de
Mao sobre o imperialismo. Nas redes do monopólio de TV, a internet é
tratada como coadjuvante ou vilã (jamais acesso os endereços que eles
falam com uma batata na boca, o tal dábliu dábliu dábliu). Na grande
imprensa impressa, os blogs diretamente ligados às redações pecam ou
por falta de atualizaçãp adequada ou por estarem limitados pelos
hábitos cevados em 42 anos de ditadura. Blog é queimar navios e não
olhar para trás, para não virar estátua de sal. Além disso, um espaço
na internet só se consolida ao longo dos anos. É complicado firmar o
hábito de visita e leitura com tantas opções. O importante é você ser
mídia, ou seja, tudo o que você sente, sonha, pensa, cria precisa estar
no blog. Isso dá credibilidade e fisga o leitor. O bom do blog, para
quem é jornalista, é que o lead pode tranqüilamente ficar no pé do
texto. É o que acontece na edição de hoje, que tem jogo do Japão só
mais embaixo.
PATETAS - O maior perigo dos blogs é o pensamento único. Todos vivem
na mesma situação e pensam da mesma forma. Ser original no meio de
tanta manifestação é mosca branca. Por isso decidi visitar novamente
Sinistrus Joe, que tem acompanhado a Copa do Mundo num bar perto de
onde mora. É mais uma birosca, que fica a meio caminho das dunas que
escondem seu casebre ao lado de um grande menir de pedra, numa praia
escondida aqui na Ilha. Quando ele me vê se aproximando, finge que se
afasta. Sinistrus adora ser esnobe.
- E aí, Joe, a Seleção deslanchou no jogo contra o Japão?
- Estou preocupado com a geração dos patetas, respondeu ele.
- Quem são os patetas, os torcedores?
- Não, a nova geração. Ando às vezes de ônibus e não agüento a
meninada falando como se tivesse perdido a noção da língua do país.
- Isso é gíria, coisa antiga.
- Não é não. Gíria é uma concessão da língua culta. O que eles falam
é pior do que um patuá, são as ruínas do que um dia foi linguagem. É
como se a língua nacional tivesse entrado em processo de implosão
interna.
Achei estranha aquela maneira pomposa de Joe se manifestar. Parecia consultor de empresa.
- Estás lendo auto-ajuda de negócios, cara?
Ele me olhou de viés, quase rosnando. Odeia que o chamem de cara, ou se dirijam a ele dizendo "meu caro".
- A geração dos patetas engata uma longa narrativa costurando as
frases com a expressão e aí. Falam assim: fulano foi para lá e aííí
voltou para cá e aííí eu cheguei e perguntei e aííí nós fomos até o
lugar aquele e aííí..
FENÔMENO - Ele continuaria por horas no seu exemplo, mas eu o interrompi:
- E a seleção, Joe, gostou?
- A imprensa e os torcedores são todos profetas do passado. O
futebol não cabe numa cabeça que tenha dois olhos para ver e nenhum
para enxergar. Sempre me surpreendo com o Parreira. Cansei de duvidar
dele. Até parece um sonho que eu tive.
- Que sonho, Joe?
- Eu estava dentro do ônibus e de repente todos os bancos foram
amassados e só eu sobrevivi. Não era eu que tinha morrido, era o mundo
que tinha acabado. Saí para a rua e os edifícios eram engolidos, só eu
passeava nas ruas. Os carros explodiram e sumiram no ar, só eu andava
por aí. Parreira a mesma coisa.
- Não entendi.
- Claro, eu ainda não expliquei...
Desta vez ele rosnou mesmo.
- Se eu puder chegar ao fim da minha metáfora, agradeço. Parreira
detonou todo o entorno do Ronaldo, manteve só o Fenômeno. Fez o
contrário do que todo mundo dizia. Insistiam em tirar o Ronaldo, como
se fosse o remédio para todos os males. Pois Parreira manteve o craque
e substituiu os outros. E aííí o Ronaldo fez dois gols e poderia ter
feito mais.
Concordei. Sempre gosto de ouvir Sinistrus Joe, o cara da minha
geração que ficou na ilha, foi escritor, jornalista, artesão, fotógrafo
e hoje vive num puxado de madeira tosca grudado numa pedra. Tem cabelo
raspado, veste-se de preto e dorme nos saguões das galerias e edifícios
de luxo. Todos os conhecem e o toleram. Mas só eu peço que emita suas
opiniões.
SINISTRUS JOE E O FIM DE BELÍSSIMA
Como está fazendo calor neste inverno, resolvi dar uma passada na
casa de Sinistrus Joe, que mora ao lado de um grande menir numa praia
isolada aqui na ilha. Vi que ele estava tranqüilo, espichado na sua
varanda feita de areia, olhando para algum ponto entre o mar e a
montanha. Perguntei o motivo de sua aparente paz, e ele respondeu que
era o clima. E que inverno mesmo, desses de lareira e vinho, fazia mal
para a saúde e que o bom era um veranico temporão. Eu queria saber o
que tinha feito nos últimos dias.
- Vi o final de Belíssima, me disse. Vi no aparelho do bar ali da vila.
- Não sabia que você via novela.
- Não vejo, mas todo mundo acaba vendo. Bem na hora em que você
espicha os ossos é que eles colocam aquelas coisas horrendas. Então não
tem como escapar.
- Você achou o final surpreendente?
- Achei. Acabamos descobrindo que todos, no fundo, eram primo-irmão do pai do Coisa. Isso é realmente revelador.
- E os casais? Achou que ficou de bom tamanho?
- Claro. O mais emocionante foi o Tony Ramos ficar com o Cemil. A
dança imitando Zorba o grego foi de chorar. Eu quase tive um ataque de
apoplexia. Em determinado momento fiquei estarrecido. É que a gente
acaba cedendo à novela porque não há outra coisa na TV aberta, e a
novela é a coisa em si. Vemos então as imagens assim meio de viés.
Levei um susto, pois num determinado momento o Tony Ramos estava
sorrindo para um cara que podia ser seu pai, mas na trama é seu filho,
e os dois dançavam de maneira apaixonada. No momento seguinte a Verta
Holtz estava na cama com um anjinho barroco. Num primeiro instante,
achei que o Cemil e Tony estavam já na cama. Foi de dar calafrios.
- Você está sendo injusto, Joe. O Silvio Abreu faz o maior sucesso.
- O que encanta é a profundidade dos diálogos. O grego Tony, que se
expressa por interjeições e gritos de caminhoneiro, estava aboiando um
avião quando viu sua amada, a coitada da Gloria Pires, que estava
pagando o maior mico com aquela seqüência. Aí o Grego pergunta: "Você
não foi embora, ê?" Claro que ela deveria responder: "Fui, o que vês
aqui é um holograma, cedido pela produção do Star Wars".
Achei que Joe estava amargo demais e tentei desviar o assunto para
outros desdobramentos da novela. Perguntei sobre as demais atrizes, se
estavam também pagando mico.
- A Claudia Abreu é realmente excepcional, mas , coitada, vive
mergulhada nestas porcarias da televisão. Deveria ser nossa estrela do
cinema, se tivéssimos produção regular de cinema.
- E a Claudia Arraia?
- Não sei porque ela precisa fazer o papel de gostosa em todos os
segundos da novela. Vive estuando o peito e se fresqueando para a
câmara. O que me irrita em algumas personalidades globais é que eles
acreditam mesmo que são de Hollywood. Não vê aquele gordinho diretor,
que tem a certeza de ser a Marilyn Monroe? Ele não apareceu esses
tempos, de novo no Faustão imitando Marilyn em diamantes são para
sempre? O problema é que a Arraia acha que está sempre fazendo um teste
para o George Cukor.
- Você não gosta mesmo da Globo, Joe.
- Que nos resta? Os concorrentes são piores. Estamos presos, assim
como os que trabalham lá dentro. É impressionante a jaula em que nos
metemos. Gostaria que TV digital fosse para valer e eu pudesse ter uma
estação de TV aqui mesmo da minha pedra.
- Teria novela na TV Joe, Joe?
- Deus que me livre. Eu transmitiria o mar. Mas um mar sem grego.
E abriu os braços em sinal de celebração e reverência.

