A ÉTICA É BRANCA

abr 9th, 2011 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

Infância é sobrevivência. Do povo, do país, da espécie. No Brasil é artigo descartável, vai para o lixo. Não apenas pelo massacre do Realengo, no Rio, mas pela destruição do sistema de ensino, a desconstrução familiar pelas imposições econômicas e anti-culturais. Além das dezenas de milhares assassinatos por ano, de todas as formas, pela omissão, violência pura e simples, desencaminhamentos, exploração, corrupção. Outros países tem visão diferente. Encaram a infância e a adolescência com seriedade, não como brincadeira. A Dinamarca, por exemplo, onde foi feito In a Better World, de Susanne Bier, ganhador do Oscar de Melhor filme estrangeiro em 2011.

Os dinamarqueses são competentes, civilizados e simpáticos. Pena que considerem a ética algo exclusivo da raça branca, se formos tomar a parte (a obra cinematográfica em questão) pelo todo (a nação). No filme, os filhos dos brancos são problemáticos, fazem parte de dramas familiares, ligados à separação ou morte dos pais e a consequente radicalização no enfrentamento de problemas como bullying ou outros tipos de rejeição (como ter sotaque sueco, por exemplo). Os filhos dos negros, que estão na região do campo de refugiados onde o protagonista dinamarquês exerce a medicina solidária, estão perdidos, fazem parte de uma tragédia insolúvel. São arrancados a frio do ventre das mães pelos algozes em jogos de azar, ou abandonados aos montes em acampamentos.

Os adultos brancos são compreensivos, dão a outra face para bater, e corretos, se arrependem do tratamento dado aos filhos, fazem trabalhos comunitários e acompanham a prole nos estudos e nos passeios. Os adultos negros são vingativos, pegam a unha o bandidão que tirava bebês das barrigas da mãe, deixando o médico politicamente correto impotente. São negros, que se entendam. Enquanto os suecos são discriminados pelo sotaque, mas usufruem de todas as comodidades da sociedade dinamarquesa, as tribos africanas inimigas se dilaceram num território sem lei, onde ao único sinal de espiritualidade é o sorriso exausto do médico branco que todos os dias cumpre sua missão de salvar vidas, para agradecimento humilíssimo dos africanos.

Assim, a piedade, a autocrítica e o cabelo loiro são capazes de dar a volta por cima do drama e consertar tudo. Os garotos que escorregavam para o crime e o terrorismo voltam ao seio familiar e tudo acaba bem. Quanto as negros, esses preocupam: abandonados junto com os adultos, correm atrás dos bem nascidos para conseguir algumas esmolas, como a bola de futebol e o eterno sorriso do bem. Se, por exemplo, num assomo de lucidez, a diretora mandasse seus personagens caucasianos carpir um lote na freguesia da miséria européia, cheia de exclusão e violência, não haveria essa musiquinha de fundo com tanta comiseração em relação ao mundo africano.

Mas branco, por ser detentor da ética, não carpe lote. Ele é médico e pede auxílio para enfermeiras negras para tirar o seu jaleco cheio de sujeira e sangue. Trata-se de um herói do politicamente correto, num filme super bem feito, com excelentes atores e um script que prende a atenção o tempo todo. Há grande poder de sedução em filmes assim. Como todos nos sentimos brancos, mesmo sendo pardos,pretos ou amarelos, também emitimos aquele sorriso alvar do cara que vem do conforto para recuperar os ferimentos de raças subalternas.

Talvez umas chibatadas em público fariam cair a ficha dos dinamarqueses, tão bem postos em sua posição a cavaleiro no mundo. Talvez por serem assim tão excludentes se esforçam tanto para parecerem perfeitos. Será o medo do boi da cara preta?

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