CORRUPÇÃO E RUPTURA EM “SALVE GERAL”

mar 21st, 2010 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

A criminalização no Brasil atinge todas as classes sociais, o que elimina a ilusão de uma classe média fora desse circuito, vista como a base de um pretenso convívio harmônico. Essa situação é fruto da quebra de paradigmas na economia ( empresas falidas em massa pela crise) nas instituições (judiciário e polícia se misturam à bandidagem) e no comportamento (a promiscuidade dos corpos é a vala comum da nação jogada no lixo). Sergio Rezende, o cineasta maior do Brasil contemporâneo, mostra em Salve Geral como as pessoas trabalham esse ambiente de corrupção e ruptura por meio de histórias pessoais que se cruzam a coletividades em pânico (a população) ou em guerra (a repressão e o crime).

Rezende fala claro, uma raridade no pensamento obscurantista que atualmente nos domina em todos os estamentos e áreas de atividades. A cadeia em ruínas que amontoa pessoas abandonadas pelo Estado é a estufa onde medra a flor da insurgência organizada. Não se trata de uma justificativa, mas de uma evidência. O partido clandestino que trafega pelas celas dando ordens e que acaba incendiando as prisões e a cidade de São Paulo, tem a mesma prática dos partidos oficiais: ameaça, suborna, manda matar, rouba. São vasos comunicantes, o oportunismo político e a solução encontrada pelos condenados, que acabam forçando as autoridades a sentarem na mesa de negociações.

Rezende fala claro. A viúva professora de piano (interpretada por Andréa Beltrão, a atriz completa e segura, uma sobriedade clássica num universo dominada pelo falso talento), formada em Direito mas que não exerce a advocacia, é empurrada para a organização por motivos de sobrevivência. Ela não pode deixar o filho a descoberto num lugar onde todos são marcados para morrer. Também não pode ficar sem dinheiro quando todos os caminhos passam pelo Caixa 2. Ela acaba se envolvendo profissional e sexualmente com o mundo da prisão, levada pela mão da Ruiva, uma advogada do tráfico, interpretada pela excepcional Denise Weinberg, que praticamente engole o filme com sua performance.

Rezende fala claro. O partido nasce das necessidades dos apenados, conquista o coração dos jovens, que acreditam em suas grandes frases, se impõe perante o sistema carcerário e a cúpula de segurança, decidindo o terror na cidade que se descobre também abandonada, tanto quando os que foram para a cadeia. Ficou faltando a última ponta desse processo: a participação dos políticos de grosso calibre, que na época (2006) estavam em feroz disputa pelo butim via campanha eleitoral. Mas isso seria pedir muito para um filme, que trata, como todos os outros, de cinema.

E o cinema, nesta nova obra de Rezende, que nos providenciou Mauá, Zuzu Angel, O Homem da Capa Preta, Canudos, para que pudéssemos continuar sentindo orgulho do cinema brasileiro, é a cidade expropriada de sua identidade, á mercê das forças poderosas que medraram a partir da destruição da soberania do país. O filho que escapa das mãos da mãe está irado com sua queda social e encontra nos rachas de carros envenenados o treinamento para futuras transgressões mais pesadas. Mãe e filho se corrompem porque não há outro caminho, senão ceder ao rompimento de todos os pactos sociais.

Vemos então esse piano, representando o status social perdido, sendo jogado para o exílio do subúrbio e nessa trajetória é extraído de seu teclado o som da cidade que naquele dia acordou sabendo que todos iriam morrer. No fundo, ali morreu definitivamente o país que nos formou. Outro está em seu lugar e mergulhamos no pesadelo marcados por um novo pecado de origem, adquirido nessa saga sinistra de uma civilização assassinada. Resta a individualidade ferida, capaz de enxergar o drama com nitidez, como faz Sergio Rezende e sua brava equipe, mantendo a única virtude que nos manterá vivos: a coragem.

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