FOSTE A SONORIDADE QUE ACABOU

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Música        

Nei Duclós

Vivemos a época das egüinhas pocotós, do rebolar de quadris frenéticos, da falta completa de talento, dos suspiros de auditórios carentes de tudo

Os anjos são egoístas: levam de nós o que temos de melhor para usufruir no céu o que formatamos na terra. Lá, o violão de Baden Powell toca Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá, e faz de cada palavra de Vinicius de Moraes a nota que nos falta.

Aqui, amargamos a barbárie do karaokê reproduzindo aos berros a música mexicana disfarçada em sertaneja. Tom Jobim ainda deslumbra o mundo com suas obras-primas que coloco para enfrentar o horror do som que nos cerca como demônios. Fizeram do povo a imagem da própria identidade de bandidos no poder e disseminam a brutalidade como se fosse a única opção. O clássico Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, recriada pelo violão de Baden, é o sonho distante de um Brasil soberano, o que se foi e não deixou marcas, a não ser essas canções que nos matam de dor porque perdemos o principal: o esplendor de um país único, aquele que foi breve e que acabou destruído.

A civilização, que é flauta; a revolução, que é arranjo erudito a partir de raízes populares; o sonho, que é Garota de Ipanema sendo considerada a mais bela canção do mundo, escapam-nos dos dedos nesta ditadura sem fim que é gritaria de um povo de mãos ao alto, nos shows horrendos de raps e pagodes. A culpa é de quem deixou-se enterrar vivo por essa ilusão que é a percepção dos brasileiros como o último povo da terra.

Quando morava longe do mar, e não foi muito tempo, tentei ouvir o som que vinha da divindade salgada, mas o barulho infernal de uma birosca não deixava. Disse para o dono: viajei mil quilômetros para escutar meu amigo Oceano Atlântico e você coloca essa coisa que fere o espírito. Veja como você não tem ninguém ao redor, todos fogem dessa porcaria. Se você colocasse algo melhor, ficaria cercado de ouvidos atentos. Mas em vão. Ele desconhece o que é música. Costumo lembrar que tínhamos formação musical a partir do pré-primário. Cantei o refrão Brasil, Brasil para minha professora de canto orfeônico para definir minha posição no coral. Cantávamos o melhor do repertório nacional.

Vejam Cartola, que tinha apenas o primário: leitor de Castro Alves e Olavo Bilac, com formação musical na escola e no ambiente onde foi criado, nos legou obras-primas como As rosas não falam. O crime foi colocar o melhor da música brasileira, a bossa e outras maravilhas no panteão do elitismo, como se nossa música popular urbana a partir dos anos 50 não fosse fruto de intensa elaboração cultural, vindo de políticas públicas voltadas para o povo. O jovem Baden conviveu com Pixinguinha e outros gênios. Filho de pai músico, dedicou-se ao seu instrumento muitas horas por dia até tocar em tudo que é lugar para viver. Quando encontrou o poeta maior, encerrou-se por semanas até saírem de lá obras-primas como Canto de Ossanha, entre outras.

Temos hoje o quê? A marginalização de grande músicos, que sofrem o exílio interno e são humilhados com convites comerciais da pior espécie. Vejam o caso do grande compositor José Gomes, pesquisador da sonoridade nacional e concertista de violão das composições de Villa-Lobos: ele fica encerrado em seu estúdio em São Paulo, a um quarteirão da Praça da República, acumulando maravilhas que jamais chegam ao público. Não custa nada, apenas um convite. Por que não lhe dizem: venha tocar um pouco aqui no estúdio para gravarmos, aqui na televisão para que haja contraposição ao Mal dos Alexandre Pires-Tchan-Xandys da vida. Nada fazem, ou seja, deixam estiolar o que temos de melhor. Por que? Porque são ressentidos e odiosos.

A educação brasileira foi sucateada por aqueles que tiravam o último lugar. A música foi retirada porque os ouvidos estúpidos precisavam difundir o que temos de pior, provar que nosso povo não é de nada. O mundo vem aqui ouvir nossa música e o que encontra? Estupidez por todo o lado, rádios envolvidos com contratos comerciais que erradicaram a criatividade de toda e qualquer sonoridade. Estamos presos no país continental, entregues à violência cultural de um governo de falsos intelectuais, que recebem no Palácio o que temos de mais execrável, como se fossem representantes legítimos do gosto popular. São representantes do lucro fácil, da falta de soberania que se tornou o Brasil, ermo dos seus maiores talentos, que só servem para algumas esporádicas aparições e homenagens. Acabou a sonoridade, morreu a nacionalidade.

Vivemos na época das egüinhas pocotós, do rebolar incessante de quadris frenéticos, da falta completa de talento, dos suspiros de auditórios carentes de tudo. Perplexos, perguntamos o que aconteceu. O que houve foi que perdemos o rumo e precisamos nos opor frontalmente ao Mal, disfarçado de Falso Bem. Não pode haver trégua na luta contra essa canalha. Baden Powell neles. Tom, Vinicius, João Gilberto e tudo o que existe de bom no Brasil e está oculto, por culpa de uma campanha sinistra contra o país que já foi maior e hoje tem sua sonoridade em ruínas.

Deixar comentário