GARRAFA NO CONVÉS

jun 1st, 2005 | Por | Categoria: Contos        

Nei Duclós

Tirei a máscara e descobri quem eu era: o capitão Woods, que tomou conta de mim retorcendo a boca (que era minha, mas era dele) e acendendo com fúria um charuto barato comprado em algum cais pirata e que iluminava meu rosto toda a vez que eu tragava como se estivesse me afogando.

Cheirava a tonel velho o ambiente em que me encontrava depois que incorporei o sujeito.

Meu cabelo quase carapinha grudava embaixo de um boné curto demais para minha cabeleira, que se arrumava como podia no alto da cabeça. A barba rala que descobri coçando com as poucas unhas que me restavam (eu, Woods, tinha todos os dedos comidos por alguma sarna que a tudo deixava em carne viva) poderia espetar uma posta de carne de tão rígida e pontuda.

Sentei num tamborete (que Woods tinha trazido de uma ilha, mas que eu desconhecia ser qualquer objeto normal de sentar) e matutei algum crime. Porque eu era criminoso, essa era a verdade que a máscara traída tinha revelado. Eu comandava um brigue imundo cheio de escravos e ai de alguém levantasse a voz para mim. Trazia uma escopeta na cintura, como se fosse um revólver. Com ela Woods poderia matar qualquer um.

Dei um pontapé na porta e saí para o convés. Havia um murmúrio de doença no ar, um rasqueado de voz cheia de testosterona vencida, um baralho pela metade que decidia alguma parada numa roda escura no canto perto do cordame. Embaixo da lua cheia, e acima de mim, a vela ensebada, gigantesca, rasgada a maior parte. À minha direita, embaixo, um canhão velho esperava a ordem de bombardear o que fosse.

Peguei uma garrafa suja e vazia que estava a meus pés e joguei no canto o­nde se debatia o baralho terminal. Quebrou-se a garrafa no meio de um ás de espada. Olhos injetados de sangue levantaram-se para mim como se Woods estivesse numa caverna e se deparasse com a morte fantasiada de mil morcegos. Reconheci logo no brilho mau os dois fogos do imediato Tronkle. Ele estava conspirando e Woods precisaria matar alguém.

Um urubu pousou no mastro. Uma ilha se divisava pela massa escura, volume grosso no areão negro da noite. O urubu era visto apenas por mim, que já estava quase acordando.

(Publicado no Diário da Fonte em 22 de agosto de 2004)

Deixar comentário