GÊNERO, O DISFARCE SUPREMO DE BILLY WILDER

jul 27th, 2011 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

Quando um amigo veio anunciar a Billy Wilder que a pressão dos maledicentes aumentou depois de seu sucesso Quanto mais quente, melhor (Some Like it Hot, 1959), filme-bomba em que Jack Lemmon e Tony Curtis se travestem para fugir da máfia, o velho cachorrão se defendia que iria traçar mais algumas mulheres para calar a boca de todos. O argumento não convence. Billy é explícito em suas preferências, basta ver o que pega em todos os seus filmes. Mas ele precisava se disfarçar. A época não permitia. Primeiro, era preciso desmoralizar a psicanálise. Por isso difundiu a história da sua juventude em que, repórter em Viena, foi entrevistar Freud e acabou expulso pelo ogro da sublimação e da repressão sexual.

A história tem tudo para ser obra do gênio imaginativo de quem fez inúmeros scripts de arromba. Mas vamos combinar que seja real. Várias vezes em suas obras, Billy se vinga de Freud, expondo a psicanálise como charlatanismo, como acontece principalmente em A Primeira Página (1974), onde um psiquiatra tradicional, da velha escola, fornece a arma do xerife para o condenado reproduzir o crime. Acaba sendo atingido por ele, gerando toda a correria da imprensa e da polícia. Feito esse serviço, o de achincalhar o cânone da psicanálise, ele pode então negar que haja algo mais do que as intenções moralistas dos seus enredos – a defesa dos princípios americanos, a honestidade, o desprendimento, a solidariedade. Mas vendo hoje seus filmes em sequência, as evidências se impõem.

Não se trata apenas de destacar a fala final de Quanto Mais Quente Melhor como a prova de que o gênero homoafetivo era aceito e compactuado entre os personagens. “Mas eu sou homem”, diz Jack Lemmon tirando a peruca, ao que o velho apaixonado rebate: “Ninguém é perfeito”, ou seja, eu já sabia e não me importo, ao contrário. Mas o de enxergar o que a tela mostrava na época mas não era percebido, porque Billy Wilder, expulso da Europa pelo nazismo e que perdeu a família nos campos de concentração, usava de seu supremo disfarce: a comédia de ritmo alucinante, perfeita na estrutura narrativa, pontuada por falas geniais e que circulava em torno do seu gênero favorito dando bandeira, mas sem influir na própria imagem de autor heterossexual.

Basta ver um outro grande sucesso seu, Stalag 17, ou Inferno Número 17 (1953), o inesquecível filme sobre o campo de concentração onde sargentos do exército americano tentavam escapar mas eram impedidos por um espião entre eles. “Ei, Animal, sou eu, Shapiro”, diz o prisioneiro interpretado por Harvey Lembeck tirando o disfarce, composto por chapéu feminino e palhas imitando o cabelo loiro, para seu companheiro inseparável ( Robert Strauss, que ganhou o Oscar com esse papel histriônico e dramático). Animal confundiu o companheiro com seu ídolo Betty Gramble, a atriz de pernas famosas e favorita da soldadesca na segunda grande guerra. Antes, dançou com ele de rosto colado, num baile de Natal onde existiam apenas casais formados só por homens.

Onde estavam as mulheres nesse filme? Eram russas,ou seja, estrangeiras comíveis (o álibi perfeito dos machões, opostas à mulher americana idealizada em Betty Grable), e ficavam em fila no banheiro para serem observadas pelo telescópio do acampamento masculino. O único que tinha acesso a elas era William Holden, negociante da prisão e que compartilhava espaço com um garoto frágil e delicado, seu braço direito, que inclusive leva uma surra por estar sempre grudado com ele. A relação entre Holden e Neville Brand, no papel de Duke, inimigos mortais que acabam se entendendo no final, inclui o detalhe de acender o fósforo na barba do outro, que sorri feliz.

Stalag 17 é um conjunto de casais homoafetivos disfarçados de companheirismo ou da situação favorita de Hollywood, o ódio entre bons e maus que não passa de uma armação de roteiristas homossexuais, como revelou certa vez Gore Vidal, que é do ramo, sobre o caso na tela entre Stephen Boyd e Charlton Heston em Ben Hur, uma homoafetividade feita de conflitos e sugerida pelo script . Mas claro que tudo isso ficava encoberto numa época em que não se falava abertamente dessas coisas. Era preciso jogar o foco para o outro lado, mas hoje tudo fica claro.

Vamos pegar outro filme de Billy, The Fortune Cookie (Uma loura por um milhão, 1966). É mais uma obra que mostra a impossibilidade do relacionamento hetero, como acontece sempre em Wilder (basta o exemplo do ato que não se consuma em O Pecado Mora ao Lado, em que a pobre Marilyn luta em vão para traçar o vizinho casado que está livre em Nova York). Walter Matthau é o canalha casado que sente vontade de jogar os filhos mal comportados na rodovia. A ex-exposa do personagem de Jack Lemmon, um cinegrafista que é convencido pelo cunhado Matthau a fingir a seqüela de um acidente para levantar um milhão de dólares, é uma vigarista.Só existe desprendimento e sinceridade em Luther ‘Boom Boom’ Jackson (Ron Rich), o jogador negro e parrudo de futebol americano responsável pelo acidente.

Boom Boom sente culpa e acaba cuidando do prejudicado. Carrega-o no colo, dá-lhe banho, faz massagens e põe o aventalzinho para lhe fazer a comida, que serve com prazer. Mas a vigarista ex, estimulada pelo cunhado, volta para os braços do idiota para fazer companhia à bufunfa que ele vai conseguir. Boom Boom sobra e se afoga no álcool e acaba preso depois de uma briga. O idiota se dá conta do erro, chuta literalmente a bunda da bandida e acaba o filme jogando bola com seu admirador no cenário ideal, no campo vazio, sem concorrência ao redor nem chatos para atrapalhar.

A impossibilidade do amor heterossexual também está no filme, pois o acidentado não consegue fazer sexo com a ex porque o cunhado não permite. Há muita sordidez no amor heterossexual, como em The Apartment, em que o chefe usa o subalterno para manter um matadouro. Em Kiss Me Stupid, a dupla de compositores faz tudo para expulsar a esposa de um (que tenta em vão transar no aniversário do seu casamento) para realizar o sonho de atender as necessidades sexuais do cantor substituindo a esposa pela prostituta. A relação heterossexual assim só se consuma pela transgressão social, quando o marido dorme com a mulher da vida e o mulherengo passa a noite com esposa do outro.

Em A Primeira Página, o assassino e a prostituta ficam três dias juntos mas não transam. E não existe casal mais fake do que o do filme Avanti! (1972). Homem e mulher colocados num balde de gelo. O jovem gigolô fracassado William Holden fazendo par com a decadente atriz Gloria Swanson em Sunset Boulevard, ou o casal heterossexual assassino de Double Indemnity são outros exemplos extremos dessa impossibilidade.

Mesmo em filmes não tão explícitos o homossexualismo entra com tudo. Em Avanti!, há a cena de dois homens entrando no banheiro do avião para se trocar de roupa, observados pela tripulação e todos os passageiros. Em One, Two Three, o fiel secretário de James Cagney acaba também se travestindo para ajudar seu chefe numa jogada na Alemanha Oriental.

Não se trata de insistir nesse enfoque, mas perceber claramente que esse é o disfarce supremo de Billy Wilder: o falso machão do gênero homoafetivo colocou na tela a relação homossexual em praticamente todos os seus filmes, neles ocupando papel importante e não periférico. Está na cara? Mas por que ninguém fala de coisa mais óbvia e explícita? Porque o disfarce ainda funciona? Dias atrás, disse num artigo sobre A Vida Secreta de Sherlock Holmes (estava no início desta minha saga wilderiana) que a relação entre o detetive e Watson tinha apenas a aparência homossexual, já que Sherlock se apaixona pela espiã no final. Mas estava enganado. O estúdio proibiu que o diretor colocasse a relação entre os dois em panos quentes e o Mestre arranjou uma saída: a paixão heterossexual impossível de se consumar (detetive/espiã), como é do seu feitio.

A evidência, naturalmente, não tira o mérito do Mestre, antes o confirma. Trata-se de um artista de primeira grandeza. Sabe como ninguém encantar as platéias com situações que contrariam o senso comum e seduz a todos pelo seu charme e competência. Não é por nada que contou com a parceria de 25 anos do seu roteirista coadjuvante, IAL Diamond, com quem costumava se encerrar numa casa de verão em Malibu para criar. Só os dois, por décadas. A viúva de Diamond dizia que as brigas amistosas na tela entre Sherlock e Watson, por exemplo, reproduziam as situações vividas pelos dois na vida real

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