O FIO SOBREVIVE À RUÍNA
dez 18th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: CinemaNei Duclós
Despedida em Las Vegas (Mike Figgis, 1995), deu Oscar de melhor ator para Nicolas Cage e deveria dar o de melhor atriz (apenas indicada) para Elizabeth Shue. Cage me invoca. Tem todo jeitão de um mau ator, com sua lombrosidade mofina e fora de esquadro. À primeira vista, parece que é ambicioso demais para o que poderá produzir. Noto nele sempre o esforço se sobrepondo ao talento. Mas são impressões erradas.
Ele conseguiu se impor, e nos brinda com uma performance inesquecível ao interpretar o roteirista desesperado que assume um compromisso com a morte. Escolhe o cenário ideal: a não-cidade Las Vegas, inventada pela Máfia, concentração de luzes artificiais, eventos sacanas, prostituição, jogo e álcool. Mas topa com algo que não pode controlar: o sentimento, que sobrevive ao seu suicídio e mantém-se firme apesar da ruína de vidros estilhaçados, garrafas vazias, hotéis sinistros, condomínios repressivos, surras covardes, delírios e coma.
O filme funciona como uma fábula sobre o desespero provocado pelo capitalismo como religião, tema de Michael Löwy no caderno Mais!, da Folha de domingo, 18/09/05..
John O’Brien, que fez a autobiografia de onde saiu a história, suicidou-se duas semanas depois do início da produção do filme, o que quase fez o diretor Figgis desistir do projeto (só continuou para homenagear o autor). A religião do capitalismo não dá folga em Las Vegas, cidade que é pura representação, não tem existência real, é apenas uma composição de canais do dinheiroduto. Para começar, não possui moradores, mas exploradores do turismo e turistas (e bandidos que gravitam em torno).
O culto ao dinheiro, exposto nas máquinas caça-níqueis e nas mesas de jogo, serve para iludir a mesmice da vida sedentária, que ali busca refúgio num sonho de lazer, consumo e enriquecimento fácil (portanto ilícito, se for seguido a ética das origens do capitalismo, descrita por Max Weber). Ao redor, está a prostituta, o cafetão, o assassino, o gerente do hotel.
O roteirista que firma um pacto com a morte entrega-se a esse desespero provocado pela culpa, de um sistema com práticas “que não conhecem pausa” como escreve Löwy no texto do Mais!, em que analisa e desenvolve um insight de Walter Benjamin fundado em Weber. Na mesma edição da Folha, Elio Gaspari assume sua profissão de fé: “O que falta ao Brasil é o capitalismo, regime que enriquece o virtuoso e destrói o incapaz”, escreve Gaspari em sua coluna. Ele quer assim opor-se à corrupção como sistema econômico, mas acaba se entregando, pois acredita mesmo que exista virtude no capitalismo. Mike Figgis e John O’Brien, que são do ramo, ou seja, moram no país verdadeiramente capitalista, sabem que não. E expõem os seres humanos em fase terminal, que não conseguem se livrar da culpa dessa religião universal e acabam sucumbindo a ela.
A única coisa que fica firme é o sentimento, que não pertence ao capitalismo, mas à parte derrotada da história, a humanidade. Esse fio sobrevive à ruína que toma conta do rosto de Elizabeth Shue, a atriz encantadora que foi par de Michael Fox em De Volta para o Futuro II e III e contracenou no filme de Woody Allen, Desconstruindo Harry. Esse rosto que confessa o amor é o legado de um filme demolidor, que mostra a resistência do humano quando tudo parece perdido.