O TREM NA OBRA DE DAVID LEAN

mai 13th, 2005 | Por | Categoria: Cinema    1.904 visitas    Print This Post  

Nei Duclós

trem faz parte dos fundamentos do cinema. Não por acaso, ele é a estrela de um dos filmes pioneiros dos irmãos Lumière. E até hoje, quando a câmera roda sobre trilhos, podemos identificar o travelling com o olhar de uma locomotiva em movimento.

Além disso, o cinema praticamente aprendeu a andar com o trem, que imprime às cenas ritmo, suspense, emoção e aventura. O faroeste, desde o cinema mudo, que o diga.

cenas de filmes de David Lean

Existem cineastas que fazem do trem um dos seus principais personagens, como é o caso de David Lean. Para ele, o trem tem uma missão civilizadora no coração das pessoas. Isso já é explícito no seu primeiro filme “Nosso barco, nossa alma” (“In which we serve” 1942) dirigido em parceria com Noel Coward, onde os encontros, a lua- de-mel, as lembranças – a trégua, enfim, da guerra – estão relacionadas com viagens de trem.

DesencantoEm”Desencanto” (“Brief Encounter”, 1945) um casal se apaixona numa dessas viagens e descobre que suas vidas estão erradas. Na plataforma onde marcam o último encontro, o trem que a todo instante pára é o convite insistente para que eles mudem de vida e tornem-se felizes, o que, no final, não acontece.

O trem em David Lean, por ser civilizador, é sempre vítima. O ataque guerreiro de Lawrence da Arábia (1962) sobre um comboio turco acaba matando também civis desarmados. Depois da luta, Lawrence dança sobre os vagões numa sequência de narcisismo explícito, reportada por um cínico jornalista, Arthur Kennedy.

cartaz do filme Dr. JivagoNum terremoto social – a revolução russa de 1917 – o trem é a salvação para Dr. Jivago (1965) e sua família. A viagem através da neve em direção ao interior da Rússia é uma fuga da guerra e também a busca do amor perdido – pois é lá que, afinal, Jivago reencontrará Lara.

No mesmo filme, o revolucionário Strelnikov (Tom Courtenay) cruza o caminho dos fugitivos dentro de um trem vestido para a guerra. Bordado de bandeiras vermelhas, que emolduram o rosto de Strelnikov cortado por uma cicratiz , o trem, nesse caso, está sendo usurpado na sua missão.

David Lean

Em “A Ponte do Rio Kwai” (“Bridge on the River Kwai”, 1957), Alec Guiness tenta resgatar a dignidade dos prisioneiros de guerra construindo a ponte por onde passará o trem japonês, carregado de armas. A destruição da ponte é um corte profundo nas pretensões heróicas do personagem e uma advertência de que a guerra endurece os homens cortando o acesso ao trem – ou seja, à civilização.

Em “Passagem para a Índia”, a viagem feita de trem até a fatídica gruta onde ocorre o evento central do filme (o estupro, ou a possibilidade dele) envolve para sempre o casal – um indiano e uma inglesa. O trem os aproxima, a gruta os separa.

David Lean tem especial predileção pelas cenas em que centenas de pessoas grudam-se aos trens em busca do amor, da espiritualidade, da salvação, da vida. É exatamente o oposto daquela situação desesperada dos prisioneiros em direção a Auschwitz, em “A lista de Schlinder”, de Steve Spielberg. Em David Lean, o trem não leva ninguém para a morte, mas para o cinema.

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